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Últimas palavras de Khashoggi foram captadas em gravação, diz testemunha

Jornalista saudita repetiu diversas vezes que não conseguia respirar; som de corpo sendo desmembrado também foi transcrito

“Não consigo respirar”. Essas foram as últimas palavras ditas por Jamal Khashoggi depois de ter sido cercado por um esquadrão saudita no consulado do país em Instambul, de acordo com uma fonte ouvida na investigação do assassinato do colunista.

A testemunha, que leu uma transcrição traduzida do áudio dos últimos momentos de Khashoggi, disse estar claro que o assassinato do dia 2 de outubro não foi uma tentativa de rendição que deu errado, mas sim a execução de um plano premeditado para matar o jornalista.

No decorrer da ação, a fonte descreve o que parece ser Khashoggi lutando contra um grupo de pessoas determinadas a matá-lo. Ele repete por diversas vezes que não consegue respirar. A transcrição também capturou o som do corpo do jornalista sendo desmembrado por um serrote, enquanto os criminosos são aconselhados a ouvir música para bloquear o barulho.

Ainda de acordo com a fonte, a transcrição sugere que uma série de ligações telefônicas foram feitas. Oficiais turcos acreditam que elas eram direcionadas a figuras do alto escalão em Riyadh, na Arábia Saudita, atualizando-os sobre o progresso da ação. Algumas descrições feitas pela fonte da CNN faziam parte de relatórios anteriores sobre o suposto teor da gravação, mas essa é a versão com mais detalhes até o momento.

A atualização deve aumentar a pressão sobre o governo de Donald Trump, que se esforça para separar a imagem do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman do assassinato. O presidente americano já entrou em conflito com a CIA na tentativa de manter a boa relação com o parceiro comercial, depois que a agência concluiu que bin Salman foi o mandante do crime.

A transcrição original do áudio foi feita pelo serviço de inteligência turco. As autoridades do país nunca falaram sobre sua origem.

“Monstro Pac-Man”

Recém descobertas, mensagens trocadas entre Khashoggi e o ativista Omar Abdulaziz também são consideradas novas pistas na investigação do assassinato. A CNN teve acesso às conversas, que começaram em 2017 por meio do WhatsApp, em que o jornalista descreve bin Salman como um “monstro”, um “pac-man” que devoraria tudo em seu caminho, até mesmo apoiadores.
As mensagens compartilhadas por Abdulaziz, que está exilado em Montreal, no Canadá, incluem áudios, fotos e vídeos. “Quanto mais vítimas ele come, mais ele quer”, disse Khashoggi em mensagem de maio, logo depois de um grupo de ativistas mulheres ter sido preso: “não ficarei surpreso se a opressão atingir até aqueles que o exaltam”, completou.
A troca de mensagens revela uma progressão de conversa para ação, quando a dupla começa a planejar um movimento online de oposição ao regime saudita. “[Khashoggi] acreditava que bin Salman era o problema, que devia ser parado”, disse Abdulaziz em entrevista a rede americana de notícias. Mas em agosto o jovem foi informado que autoridades sauditas haviam interceptado a conexão entre os dois. O jornalista desejou que “Deus os ajudasse”.
No domingo 02, Abdulaziz abriu um processo contra uma companhia israelense responsável pelo programa que acredita ter sido usado para hackear seu telefone. “O hackeamento do meu telefone teve um papel central no que aconteceu com Jamal, e eu sinto muito por isso. A culpa está me matando.”
Em seus textos publicados na grande mídia, Jamal Khashoggi era comedido nas críticas a Arábia Saudita e ao príncipe herdeiro Mohammed bin Salman.