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UE desenvolvida é a melhor resposta a eurocéticos

Debates que precedem eleição para o Parlamento Europeu deveriam estar centrados em como alcançar um desenvolvimento econômico sustentável

Por Javier Solana 3 Maio 2014, 17h34

A corrida para a eleição do Parlamento Europeu do próximo mês tem sido caracterizada por uma tensão sufocante entre pró e antieuropeus. Pesquisas mostram que as duas principais forças políticas, conservadores e social democratas, ainda estão competindo lado a lado (e muito à frente das demais); no entanto, a ascensão do populismo é profundamente preocupante para todos aqueles que creem na unidade europeia – e não apenas os conservadores e social democratas, mas também os liberais e os verdes.

Partidos como a Frente Nacional na França, ou Partido da Independência do Reino Unido poderiam se tornar os principais candidatos em seus respectivos países, e eles não estão sozinhos. Na Finlândia, Áustria, Holanda, Hungria, Grécia, e outros países, os partidos antieuropeus e os mais tradicionais ‘eurocéticos’ estão se beneficiando da crescente desilusão com as instituições europeias, com as medidas tomadas ​​para combater a crise econômica da Europa, e com a divisão cada vez maior entre o norte e o sul da União Europeia. Apesar da rápida sucessão de passos significativos, cidadãos de vários lugares da UE veem pouca melhoria onde mais importa – em suas vidas cotidianas.

Entretanto, a batalha entre pró e antieuropeus mascara o que realmente está em jogo e, portanto, o que deveria ser o foco do debate eleitoral: como a Europa pode alcançar um crescimento econômico sustentável. Esta questão, ao invés de um discurso sem fim contra euroceticismo, deveria ser o principal item de deliberação para os partidos que pressionam por uma Europa melhor para todos. Uma recuperação ampla – em investimento, demanda e emprego – é a melhor arma para enfrentar aqueles que destruiriam o projeto europeu.

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As próximas eleições irão traduzir a opinião pública sobre o sucesso ou o fracasso das políticas de austeridade que têm sido empreendidas. Mas também vão determinar se a Europa será capaz de se manter a primeira potência econômica do mundo, manter seu modelo social e salvaguardar o seu quadro de direitos e liberdades em um mundo que não vai esperar pelos europeus para resolver suas diferenças.

Há pouco tempo atrás, durante uma aula na qual os alunos europeus eram minoria, realizei uma breve experiência, uma variante do famoso “véu da ignorância”, de John Rawls. Perguntei aos alunos onde eles prefeririam nascer hoje, se pudessem escolher. A resposta foi quase unânime: a maioria escolheu um país europeu.

Mas, apesar do forte poder magnético da Europa, os estados membros da UE são muito pequenos para competir em escala global com a China, os Estados Unidos, ou a Índia. Para isso, eles precisam de uma Europa ainda mais integrada.

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De fato, como a crise Ucrânia mostra, os países europeus não podem viver num isolamento egoísta. A integração é tão urgente hoje quanto sempre foi, especialmente em setores como o da energia. Um mercado unificado de energia é essencial não só para garantir o abastecimento seguro e confiável, mas também para alcançar um crescimento sustentável, compatível com os compromissos da Europa com mudança climática. A Parceria de Comércio e Investimento Transatlântico com os Estados Unidos é outro imperativo para os líderes políticos – e também é a chave para a criação de empregos em ambos os lados do Atlântico.

Acima de tudo, a UE precisa ganhar maior legitimidade democrática para conter o crescente sentimento de que o projeto Europeu beneficia apenas a elite europeia. Preocupante, a mensagem simplista dos antieuropeus tem atingido um grande segmento dos eleitores da Europa. Sem muita surpresa: apenas 31% dos europeus afirmam ter confiança na UE, bem abaixo dos 52% em 2007, enquanto a porcentagem dos que têm uma visão negativa da UE quase duplicou, passando de 15% para 28 % nesse período.

Embora a confiança na UE tenha diminuído drasticamente durante o atual mandato eleitoral do Parlamento Europeu, a tendência não é irreversível. Os eleitores são críticos das políticas de hoje, mas o ideal europeu vai sobreviver se ele puder ser modernizado e servir novamente como uma fonte de esperança para os cidadãos da UE.

Isso pode ser um grande “se”, especialmente considerando que a maior ameaça apresentada pelos partidos antieuropeus não consiste no número de assentos que eles podem ganhar, mas na sua capacidade de influenciar a política tradicional. Se as principais forças parlamentares estão tentadas a assumir ideias antieuropeias por razões eleitorais, seus adversários poderiam alcançar alguns de seus objetivos: bloquear o processo de integração, restringir a livre circulação de pessoas, ou aprovar políticas xenófobas.

Diante disso, a Europa deve se mover em direção ao que pode ser chamado de “Erasmusização”, baseando-se no sucesso das bolsas de estudo Erasmus da União Europeia. Ao permitir que os alunos estudem em toda a UE, o programa promove uma rica troca de experiências, ideias, valores e estilos de vida. E, na medida em que ele surgiu como uma força poderosa entre os europeus mais jovens, também é a melhor chance de a Europa ter um futuro de liberdade e prosperidade.

Se a UE ganha maior legitimidade democrática e cria soluções duradouras e confiáveis para seus problemas econômicos – desemprego, pobreza e desigualdade – o vácuo da confiança deve começar a ser preenchido rapidamente. Será então possível avançar em outras questões importantes que têm sido adiadas desde que a crise eclodiu, há cinco anos.

O novo controle do Parlamento Europeu sobre a seleção do presidente da Comissão Europeia (e, portanto, dos membros da comissão) é um gigantesco passo à frente em termos de legitimidade democrática. No entanto, se a próxima eleição aprofunda a distância entre as forças pró e antieuropeias, o descontentamento popular com a Europa continuará a metástase, encerrando uma nova idade de ouro na qual a Europa – um século depois da I Guerra Mundial – continua a ser o melhor lugar do mundo para se crescer, trabalhar e viver.

Javier Solana foi alto representante da União Europeia para a Política de Segurança e Negócios Estrangeiros, secretário-geral da Otan e ministro das Relações Exteriores da Espanha. Atualmente, é presidente do Centro Esade para a Economia Global e Geopolítica e membro do Brookings Institution.

© Project Syndicate, 2014

(Tradução: Roseli Honório)

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