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UE acusa Israel de utilizar o turismo para legitimizar ocupação

Documento elaborado por diplomatas em Jerusalém aponta para marginalização continuada dos palestinos

Um relatório da União Europeia indica que Israel está usando o turismo histórico em Jerusalém para legitimar seus assentamentos na cidade e promover uma narrativa histórica judaica.

Segundo o documento, elaborado por uma comissão europeia especial no país e obtido pelo jornal britânico The Guardian, projetos arqueológicos e outros pontos turísticos em Jerusalém Oriental estão sendo usados “como uma ferramenta política para modificar a narrativa histórica e apoiar, legitimar e expandir os assentamentos”.

Entre os locais citados pela UE estão áreas de escavação arqueológica administradas pelos israelenses no centro dos distritos de maioria árabe, um projeto de teleférico que seria construído em terras confiscadas pelo governo de Israel e áreas que são intituladas parques nacionais israelenses, apesar de serem totalmente urbanas e ocupadas pelos palestinos.

O documento, um relatório escrito anualmente pelos chefes da Missão da UE em Jerusalém, também apresenta uma perspectiva geral sobre o conflito em torno da cidade e aponta que as perspectivas de paz pioraram. Segundo o relatório, os palestinos, que são cerca de 37% dos moradores da cidade, são cada vez mais marginalizados.

Parque arqueológico em Jerusalém Visão geral de Silwan em Jerusalém Oriental, onde o governo oferece passeios pelas ruínas

Visão geral de Silwan em Jerusalém Oriental, onde o governo oferece passeios pelas ruínas (Mostafa Alkharouf/Anadolu Agency/Getty Images)

O número recorde de propostas de assentamentos israelenses e o isolamento físico dos grupos árabes significa que “a cidade deixou de ser o centro econômico, urbano e comercial palestino que costumava ser”.

Segundo a UE, além das organizações turísticas e arqueológicas administradas pelo governo de Israel, outras empresas privadas judaicas também estão envolvidas no que os diplomatas chamaram de “tentativa de legitimar e expandir os assentamentos”.

Um dos principais empreendimentos listados pelo memorando é o parque arqueológico Cidade de Davi, fundado pelo governo israelense no bairro palestino de Silwan. De acordo com o documento, o local é administrado por uma organização “que promove uma narrativa exclusivamente judaica, enquanto separa o local do ambiente palestino”.

Aproximadamente 450 israelenses vivem sob forte proteção em torno do parque em Silwan, totalmente separados dos mais de 10.000 palestinos no bairro. As expulsões contínuas de famílias palestinas e a crescente presença de seguranças israelenses criaram uma tensão na área, adverte o relatório europeu.

Lado israelense

Apesar do relatório da União Europeia, os lugares nomeados são pontos nos quais há uma inegável presença histórica judaica comprovada pela arqueologia — o que não significa que a presença árabe-palestina que remonta desde o período otomano, há séculos, possa ou deva ser ignorada. O assunto apenas demonstra a complexidade da questão israelense-palestina, onde duas narrativas divergentes colidem sob um mesmo território. O corte histórico –quão antes se decide buscar para determinar legitimidade sobre determinada porção de terra– é algo bastante subjetivo. O fato inegável é que atualmente existem dois povos com demandas justas para a terra.

A preocupação da comunidade internacional é evitar que um dos lados altere significativamente o status quo ante — isto é, o estado como a situação era principalmente até a Guerra dos Seis Dias, que alterou fundamentalmente o controle por parte dos países árabes da parte oriental de Jerusalém, sob domínio jordaniano entre 1949 e 1967.

Os assentamentos a que o relatório europeu se refere, são bairros, ruas, aldeias, localidades e até subúrbios construídos em locais conquistados por Israel durante a guerra de 1967. O governo israelense crê que as áreas são suas por direito histórico, porém durante várias fases das negociações de paz foi decidido que as construções do governo de Israel deveriam ser instaladas apenas dentro das fronteiras anteriores a 1967 até que houvesse um status definitivo para o conflito.

O governo de Israel argumenta que a construção de assentamentos em território ocupado deve ser considerada legal quando o terreno ocupado pelas obras for de domínio público, e não privado. Tais colônias são consideradas ilegais pela comunidade internacional, que vê nelas um dos principais entraves para um acordo de paz entre palestinos e israelenses baseado nas fronteiras pré-1967 e, portanto, um dificultador da paz.