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Turquia ordena prisão de autoridades sauditas por morte de Khashoggi

Assessor e diretor de inteligência da Arábia Saudita são próximos do príncipe Mohammed bin Salman, acusado de ser o mandante do crime

O Ministério Público da Turquia ordenou a prisão de dois oficiais sauditas, um importante assessor do príncipe herdeiro da Arábia Saudita e o vice-chefe de inteligência externa do reino, por seu envolvimento no planejamento do assassinato do jornalista Jamal Khashoggi.

A Justiça concluiu haver “forte suspeita” de que Saud al-Qahtani, que trabalhava ao lado de Mohammed bin Salman, e o general Ahmed al-Asiri estão entre os responsáveis pelo assassinato cometido no dia 2 de outubro dentro do consulado saudita em Istambul, segundo autoridades turcas.

Os dois foram destituídos de seus cargos em outubro por causa do escândalo causado pela morte de Khashoggi, mas ainda não respondem criminalmente em Riad pelo caso.

O príncipe herdeiro foi acusado internacionalmente de ser o mandante do crime, e a prova da participação de dois funcionários do governo saudita próximos a ele aumentam ainda mais as suspeitas de que esteja envolvido.

O governo dos Estados Unidos já havia imposto em novembro sanções a Qahtani, ao acusá-lo de fazer parte “do planejamento e da execução da operação que conduziu ao assassinato”. Ahmed Asiri, no entanto, não está na lista das dezessete pessoas sancionadas por Washington.

Nesta terça-feira, 4, senadores americanos disseram ter mais certeza do que nunca de que o príncipe herdeiro saudita é responsável pelo crime, depois de receberem um informe da CIA sobre a questão.

Tanto republicanos quanto democratas fizeram algumas de suas acusações mais fortes até o momento e disseram que ainda querem aprovar uma legislação para enviar à Arábia Saudita a mensagem de que os Estados Unidos repudiam o assassinato de Khashoggi, um colunista do jornal The Washington Post.

Entretanto, o presidente Donald Trump e alguns de seus colegas republicanos têm afirmado que Washington não deveria adotar ações que ameacem seu relacionamento com Riad, vista como um importante contrapeso para o Irã no Oriente Médio.

Khashoggi foi morto após entrar no consulado saudita em Istambul no dia 2 de outubro. O presidente turco, Tayyip Erdogan, disse que a ordem para matá-lo partiu do escalão mais alto do governo saudita e também acusou bin Salman.

A Arábia Saudita tem dito que o príncipe não tinha conhecimento prévio do crime. Depois de oferecer várias explicações contraditórias, Riad disse que Khashoggi foi morto e que seu corpo foi esquartejado em uma operação não autorizada pelo governo.

O Ministério Público da Turquia declarou ter provas de que Khashoggi foi asfixiado e que seu corpo foi esquartejado para fazê-lo desaparecer, mas ainda não encontrou pistas que permitissem localizar os restos mortais do jornalista.

Motivos para o assassinato

A CIA concluiu que a ordem para matar Khashoggi partiu de Salman e teria sido motivada pelo conteúdo de mensagens entre o jornalista e um colaborador interceptadas pelos sauditas. Na segunda-feira, a rede de televisão CNN publicou uma ampla reportagem sobre as mais de 400 mensagens no WhatsApp trocadas entre Khashoggi e o ativista saudita Omar Abdulaziz, residente em Montreal, Canadá.

Ambos estavam engajados em um plano de contrapropaganda do regime saudita, por meio das redes sociais, voltado para jovens residentes na Arábia Saudita. O sistema criado por eles foi apelidado de “cyber bees” (abelhas cibernéticas, em tradução livre) nas primeiras conversas, quando pretendiam criar um portal para a documentação de casos de abuso de direitos humanos. Abdulaziz sugeriu o uso do Twitter.

O plano não deu certo porque as mensagens foram interceptadas. Conforme publicou a CNN, Abdulaziz expôs publicamente seu contato com Khashoggi depois de pesquisadores do Laboratório de Cidadania da Universidade de Toronto terem concluído que seu telefone celular fora invadido por um programa de espionagem militar.

O software teria sido criado pela empresa israelense NSO Group e implantado no celular de Abdulaziz a mando do governo saudita, segundo o pesquisador Bill Marczak, do Laboratório da Cidadania.

“A invasão do meu telefone teve a maior importância no que aconteceu com Jamal, infelizmente devo dizer. A culpa está me matando”, afirmou Abdulaziz à CNN.

Em agosto passado, Abdulaziz recebeu mensagem de autoridades do governo saudita que diziam estar cientes do seu projeto com Khashoggi.

Três meses antes, o ativista fora abordado por emissários do governo saudita, que lhe pediram um encontro em Montreal. Khashoggi o aconselhou a marcar em um lugar público e jamais aceitar ir a um local isolado. De fato, os sauditas propuseram a Abdulaziz que fosse à Embaixada da Arábia em Ottawa.

Em 2 de outubro, Khashoggi ingressou no consulado saudita em Istambul para colher documentos para seu casamento. Deixou a noiva à sua espera, do lado de fora. Ele jamais saiu vivo do prédio. Gravações e evidências colhidas por várias agências de inteligência, entre as quais a CIA, mostram que o jornalista foi assassinado por uma equipe de agentes enviados especialmente por Riad para essa missão. Seu corpo foi esquartejado por um perito saudita dentro do consulado e dissolvido.

(Com Reuters e EFE)