Trump volta atrás e desiste de cobrar pedágio de 20% para embarcações em Ormuz
Decisão segue disparada dos preços de petróleo e críticas à postura do governo
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nesta terça-feira, 14, que desistiu de impor uma taxa de 20% sobre cargas de embarcações que cruzam o Estreito de Ormuz, anunciada apenas um dia antes.
A tarifa, explicou o republicano nas redes sociais, será substituída por “acordos comerciais e de investimento que os diversos Estados do Golfo farão nos Estados Unidos”, sem dar muitos detalhes.
A decisão de voltar atrás na cobrança segue uma disparada dos preços de petróleo e críticas à postura do governo, que em momentos anteriores questionou a legalidade de cobranças de pedágio em águas internacionais, após projetos do Irã em torno da passagem marítima.
“É uma via navegável internacional. Nenhum país tem permissão para cobrar pedágios ou taxas em uma via navegável internacional. Isso faz parte do direito internacional vigente”, disse o secretário de Estado Marco Rubio no mês passado.
O vice-presidente JD Vance também havia enfatizado que a posição do governo era a de que “as vias navegáveis internacionais devem ser livres de pedágios”, assim como Trump, que havia dito anteriormente que os EUA queriam que o estreito fosse “livre”.
Na segunda-feira, no entanto, em entrevista à emissora americana Fox News, o ocupante do Salão oval disse que Washington atuará como “guardiã do estreito” e, apesar dele se opor veementemente à ideia de Teerã de passar a cobrar taxas das embarcações que transitam pela rota, afirmou que pretende cobrar um “pedágio” caso o plano se concretize.
Em resposta, o principal comando militar conjunto do Irã, o Quartel-General Central Khatam al-Anbiya, afirmou que o país não permitirá que Washington interfira na gestão do Estreito de Ormuz. Em vídeo, um porta-voz afirmou que qualquer tentativa americana de organizar a passagem pelo estreito fora das rotas designadas por Teerã e sem coordenação com as forças armadas iranianas enfrentará forte resistência.
O chanceler iraniano, Abbas Araghchi, ironizou a proposta do presidente americano. “O Irã sempre foi o guardião do estreito e continuará sendo para sempre”, escreveu na rede social X.
“O presidente dos Estados Unidos está absolutamente certo. Quem garantir a passagem segura deve receber uma compensação”, afirmou, em tom irônico, antes de acrescentar: “Os 20% são, é claro, demais. Seremos justos”.
Antes da recuada, a cobrança entraria em vigor nesta terça-feira às 20h GMT (17h no horário de Brasília). Diante desse cenário, por volta das 8h, o barril do petróleo avançava 4,97%, cotado a 87,44 dólares. Na sessão anterior, o Brent, referência internacional, já havia disparado 9,59%, encerrando o dia a 83,30 dólares por barril.
Terceira noite de ataques
Nesta madrugada, o comando militar americano para o Oriente Médio (Centcom) anunciou em um comunicado o início de “uma terceira noite consecutiva de ataques contra o Irã”, pouco depois da meia-noite, hora de Teerã.
“Vamos atingi-los com força esta noite, e vamos atingi-los com força amanhã”, havia declarado antes o presidente Donald Trump ao radialista Hugh Hewitt.
A mídia estatal iraniana informou sobre mortos nos últimos ataques americanos, que, segundo disseram, tiveram como alvo amplas zonas do sul e do oeste do país. Ao menos 25 pessoas perderan a vida no Irã desde que as hostilidades foram retomadas na quarta-feira passada.
Em meio ao fogo cruzado, porém, o ocupante do Salão Oval afirmou na segunda-feira à noite à imprensa na Casa Branca que um acordo com o Irã ainda era “possível”.
Cessar-fogo quebrado
Após quase 40 dias de bombardeios no conflito desencadeado pelos ataques israelenses e americanos de 28 de fevereiro, um cessar-fogo entrou em vigor no início de abril e foi ratificado em 17 de junho por meio de um protocolo de acordo.
Mas, desde as novas agressões dos últimos dias contra navios que tentavam atravessar Ormuz, os confrontos foram retomados com uma intensidade sem precedentes, o que levou Trump a afirmar que o cessar-fogo “acabou”.
Na semana passada, o presidente dos Estados Unidos enviou ainda uma notificação oficial ao Congresso indicando que o conflito com o Irã havia sido retomado, segundo a agência de notícias AFP.
Já o porta-voz da chancelaria iraniana, Esmaeil Baqaei, afirmou na segunda-feira que o memorando de entendimento de junho, que serviu de base para as negociações e suspendeu o bloqueio americano em Ormuz, estava “em crise”. Baqaei avisou que o Irã ignoraria suas obrigações no âmbito do pacto se os Estados Unidos fizessem o mesmo, mas acrescentou que Teerã continuava mantendo conversas com mediadores do Catar, do Paquistão e de Omã para evitar uma escalada maior.
O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, expressou na segunda-feira sua “profunda preocupação” com a escalada regional.







