Trump é a ‘enorme questão’ que paira sobre eleições no Brasil, diz ‘New York Times’
Jornal caracteriza pleito como teste final para alcance da influência americana sobre América Latina e levanta temor de interferência
O papel do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na eleição presidencial brasileira se tornou a “grande questão” que paira sobre o pleito, segundo reportagem desta segunda-feira, 28, no jornal americano The New York Times. A publicação destaca que o Brasil vem adotando medidas para proteger o processo eleitoral de uma eventual interferência americana, na reta final da corrida entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) se aproxima.
A eleição brasileira é caracterizada pelo NYT como o maior teste, na América Latina, da estratégia de Trump para ampliar a influência dos Estados Unidos no hemisfério ocidental e estreitar laços com governos e movimentos de direita no continente. Candidatos conservadores venceram as últimas sete eleições presidenciais realizadas na região desde o retorno do republicano à Casa Branca, e suas administrações têm buscado maior alinhamento com Washington.
Nesse cenário, o Brasil, escreve o NYT, aparece como o principal teste final para a influência americana. Trump não declarou publicamente apoio a nenhum candidato na disputa, mas, segundo a reportagem, seu governo adotou medidas que podem favorecer indiretamente Flávio Bolsonaro.
Entre elas estão a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, uma medida defendida pelo senador do PL, além de sanções contra autoridades brasileiras — sendo a mais conhecida delas a aplicação, já suspensa, da Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF) –, bem como o tarifaço sobre mercadorias brasileiras, questionamentos sobre urnas eletrônicas e ofensivas nos setores de segurança e minerais estratégicos.
Em março, Flávio Bolsonaro afirmou no CPAC, evento que reuniu a ultradireita global no Texas, que o Brasil poderia se tornar “o mais poderoso aliado” dos Estados Unidos no hemisfério ou um “antagonista”, dependendo do resultado da eleição.
No entanto, o NYT destacou que “não está nada claro” se os esforços para beneficiar o senador do PL serão bem-sucedidos. “Poderia muito bem aumentar o apoio a Lula, em outro exemplo da onda anti-Trump que remodelou as eleições no Canadá, na Austrália e outros lugares”, sublinhou o jornal.
Medidas contra interferência
Diante desse cenário, órgãos brasileiros de inteligência passaram a tratar a manipulação estrangeira nas redes sociais como uma prioridade, segundo a reportagem. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) também adotou novas medidas contra a desinformação eleitoral e pediu a empresas como Google e Meta planos para enfrentar conteúdos enganosos produzidos com inteligência artificial.
O Brasil também vem buscando apoio internacional para reforçar a credibilidade do processo eleitoral. Segundo o New York Times, diplomatas da União Europeia, Canadá, Japão, Austrália e outros países discutem informalmente como reagir a possíveis tentativas de interferência após a eleição.
Observadores internacionais também ampliaram o acompanhamento do pleito, e há informações de que, em uma reviravolta de última hora, o Centro Carter — um grupo de monitoramento independente sediado nos Estados Unidos — concordou em enviar especialistas ao Brasil, “motivado em parte por preocupações com interferências”.
Muitos dos entrevistados pelo jornal falaram sob condição de anonimato. A campanha de Flávio Bolsonaro e o Departamento de Estado americano não responderam aos pedidos de comentário da reportagem.







