Todos querem Kim: por que o ditador norte-coreano virou figura cortejada pelas grandes potências
Líder já foi pária internacional e alvo de piadas em toda parte
Rechonchudo e teatral, o ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un, virou uma paródia de si mesmo, daquelas que não se leva muito a sério — não fosse ter total controle sobre a vida e a morte de 26 milhões de norte-coreanos e estar assentado sobre um modesto, mas letal, arsenal nuclear. Isolado do mundo, sem indústria de monta e comércio significativo, assolado pela pandemia e pelas mudanças climáticas, o país passou os últimos anos patinando na falta de recursos e na fome generalizada, enquanto seu “líder supremo” fazia poses ufanistas que não convenciam ninguém. Mas aí vieram as guerras, veio Donald Trump, e o vento virou: Kim, quem diria, é hoje cortejado por todas as grandes potências. O mais recente galanteio partiu justamente de Trump: em sua rede social, o presidente americano informou haver cortado de onze para cinco dias o exercício militar anual no qual 20 000 soldados sul-coreanos e americanos simulam potenciais ameaças vindas do inimigo do Norte.
Dias depois, outro treinamento conjunto marcado para setembro, este naval, foi inteiramente cancelado. “Os exercícios não só são caros e têm seu custo pago pelos Estados Unidos (como sempre!), como emitem um sinal totalmente impróprio e hostil” na direção de um país “não agressivo e respeitoso” para com seu governo, afirmou Trump. A bronca no parceiro do Sul e o aceno ao tirano do Norte contribuem para tirar o foco da impopular e para lá de arrastada guerra com o Irã. Mais proveitoso ainda, abrem um lugar para ele na roda em que Kim gira de mãos dadas com a China, até há pouco sua única aliada, e a Rússia, sua nova amiga de infância. Com a guerra na Ucrânia consumindo vidas e armamentos em volume colossal, o presidente russo Vladimir Putin selou uma aliança com a Coreia do Norte que já injetou 14 bilhões de dólares nos exauridos cofres de Kim nos últimos três anos.
A Ucrânia calcula que, nesse período, metade da munição disparada pelas tropas russas veio das fábricas norte-coreanas, junto com mísseis balísticos e lançadores de foguetes. Em terra, em torno de 16 000 soldados do Exército de Kim atuaram na retomada da região de Kursk, brevemente ocupada por tropas ucranianas, e lá seguem removendo minas, enquanto, segundo informações da inteligência ucraniana, outros 30 000 se preparam para ocupar a linha de frente dos combates. Calcula-se que Moscou pague 2 800 dólares mensais por soldado e até 3 000 por oficial, além de indenizações que variam de 6 000 a 10 000 dólares por soldado morto em combate. Aproveitando a deixa, a Coreia do Norte abriu partes do país a turistas russos e tenta se emplacar como destino de férias, oferecendo resorts na praia e estações de esqui com descontos especiais para soldados russos.
A guinada da Coreia do Norte ao posto de fornecedora militar da Rússia alçou Kim Jong-un a um patamar de influência sem paralelo em seus quinze anos de poder. Na condição de queridinho da vez, o “respeitado camarada” (outro de seus títulos) recebeu em Pyongyang as visitas de Putin, do bielorusso Alexander Lukashenko e do chinês Xi Jinping em pessoa. Até recentemente o único país a manter relações regulares com a Coreia do Norte, com quem reparte uma vasta fronteira, a China durante décadas sustentou a ditadura vizinha, fornecendo alimentos e energia, e diante da investida russa apressou-se a reforçar esses laços com novas parcerias em tecnologia e agricultura — para a satisfação de Kim, claro. “Moscou não substitui Pequim, mas Pyongyang agora joga seus dois grandes vizinhos um contra o outro para obter recursos”, avalia Linggong Kong, do East Asia Forum.
Trump entra nessa dança com a experiência — para o bem e para o mal — de quem conhece Kim, com quem, assegura, mantém “excelente relação”. Em seu primeiro mandato, teve três encontros repletos de trocas de amabilidades com o ditador norte-coreano, de quem esperava concessões para pôr fim ao estado de guerra com a aliada Coreia do Sul, em vigor há mais de setenta anos, mas as conversas não deram em nada. A redução agora dos exercícios militares foi recebida com frieza. “Não nos interessa. A intenção de provocar e agredir permanecem as mesmas”, disse Kim Yo-jong, irmã e porta-voz informal do líder supremo. Deixou, porém, uma fresta aberta: as relações entre o irmão e o presidente americano “ainda são excelentes”, confirmou. Pelo jeito, vem aí mais um encontro entre Kim e Trump. Haja pose ufanista.
Publicado em VEJA de 28 de agosto de 2026, edição nº 3010






