Tarifas e ‘Lago América’: americanos rejeitam investida de Trump contra Canadá, diz pesquisa
Sem acordo comercial, presidente dos EUA aumentou taxas sobre produtos canadenses e assinou decreto para renomear lago no país vizinho
A maioria dos americanos se opõe a duas recentes medidas do presidente Donald Trump contra o Canadá: o aumento de tarifas sobre produtos importados do país e a decisão de chamar o Lago Ontário de “Lago América”, segundo uma pesquisa realizada pela Reuters/Ipsos e divulgada na segunda-feira 31.
O levantamento mostra que apenas 20% dos entrevistados apoiam a elevação das tarifas sobre produtos canadenses, enquanto 57% são contra e 21% não souberam ou não quiseram responder. Cerca de um quinto dos participantes afirmou não ter conhecimento da decisão.
A mudança do nome do Lago Ontário também enfrenta forte rejeição. Apenas 14% dos americanos disseram apoiar a iniciativa de Trump, enquanto 63% se opuseram a ela. O restante dos entrevistados não soube responder ou preferiu não se posicionar.
Realizada durante três dias, até o último domingo, a pesquisa ouviu 1.023 adultos nos Estados Unidos. A margem de erro é de quatro pontos percentuais.
‘Lago América’
Na semana passada, Trump assinou um decreto instruindo o governo federal a renomear o Lago Ontário, no sul do Canadá, como “Lago América”. A norma instrui agências federais a adotarem a mudança em mapas, documentos e dados oficias dos EUA, mas não tem autoridade para obrigar o Canadá ou a comunidade internacional a acatar a nova nomenclatura.
“Temos um Golfo e temos um Lago – agora tudo o que precisamos é de um oceano. Talvez tenhamos que mudar o nome do Atlântico e/ou do Pacífico”, disse Trump a repórteres na última quinta-feira. “Talvez nós mudemos os dois”.
Não foi a primeira sugestão nada sutil de que Washington teria poder e influência sobre Ottawa. No passado, Trump se referiu ao Canadá como o “51º estado americano”, enquanto chamou o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, de “governador”. Em afronta a outro tradicional parceiro comercial, ele também já ordenou a renomeação do Golfo do México como “Golfo da América”.
Tarifas
O decreto foi assinado poucos dias depois de o mandatário americano anunciar que aumentaria para 50% as tarifas sobre uma série de produtos automotivos canadenses — incluindo carros, caminhões e até aço — a partir de 2027. Atualmente, automóveis do Canadá estão sujeitos a uma taxa de 25% quando atravessam a fronteira sul, caso não incluam nenhum material dos Estados Unidos em sua fabricação. As importações de aço já têm, no geral, alíquotas de 50%.
Os dois países não chegaram a um acordo comercial e romperam as negociações no dia 21 de julho. Como consequência, Washington já havia anunciado uma tarifa de 50% sobre parte das importações provenientes do Canadá – a nova cobrança atinge aproximadamente US$ 20 bilhões e representa 5,5% das exportações canadenses destinadas ao mercado americano.
O governo canadense reagiu, anunciando uma retaliação que afetará uma lista de mais de 700 mercadorias importadas do vizinho, sujeitas a taxas de 15% a 50% a partir da próxima terça-feira, 8. O primeiro-ministro, Mark Carney, justificou que simplesmente não poderia assinar um “acordo ruim”, que, segundo o jornal americano The New York Times, incluía disposições como a exigência de que Ottawa acompanhasse a política comercial de Washington para com outros países — algo que, de acordo com a administração de Carney, ameaçaria a soberania do Canadá em meio a tratativas com seus próprios parceiros, como o Brasil.
A guerra tarifária se dá depois de mais de 20 anos de acordos amigáveis, expondo um problema que não existe em conflitos comerciais convencionais: as duas economias são profundamente interligadas. O Canadá importa cerca de US$ 272 bilhões em mercadorias americanas por ano, enquanto os Estados Unidos são, de longe, o principal destino das exportações canadenses. A pergunta que não quer calar: quem vai piscar primeiro?







