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Tanzânia mata 500 ‘bruxas’ por ano, aponta relatório

Pessoas que praticam antigos rituais tribais são perseguidas, espancadas e queimadas vivas pela população. Somente em outubro foram sete casos

Por Da Redação - 10 nov 2014, 06h03

Apesar de ter uma população majoritariamente cristã, a Tanzânia é um país onde a crença e a prática da ‘bruxaria’ (antigos rituais xamânicos tribais) continuam enraizadas e ultrapassam as fronteiras da religião. A perseguição e o assassinato de ‘bruxas’ causa anualmente uma média de 500 mortes violentas, segundo dados do Centro de Direitos Humanos (LHRC, na sigla em inglês) divulgados nesta segunda-feira. Em outubro pelo menos sete mulheres foram queimadas vivas em uma cidade do oeste de país após serem acusadas de participar de ‘atos de bruxaria’.

As vítimas, todas idosas, foram assassinadas por homens armados que as espancaram antes de as incendiarem. Os assassinatos de suspeitos de ‘bruxaria’ não são um fato novo nem isolado no país. São mortes com uma alta carga de violência, que incluem decapitações e esquartejamentos, segundo um relatório do Departamento de Estado dos Estados Unidos. A novidade, desde 2013, é queimá-las vivas, explicou Simeon Mesaki, da Universidade de Dar As Salam e especialista em religiões tribais.

A Tanzânia é um país que se orgulha de ser uma democracia estável entre os convulsos sistemas do governo da região. Sua sociedade, considerada como uma das mais harmoniosas da África oriental, possui uma forte identidade nacional, sendo um dos poucos países subsaarianos que emprega o swahili como primeira língua oficial, enquanto outras ex-colônias empregam línguas europeias como o inglês e o francês.

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No entanto, no ano passado, as Nações Unidas denunciaram o preocupante aumento de assassinatos relacionados à prática da ‘bruxaria’. Em 2012, 630 pessoas foram assassinadas na Tanzânia por motivos relacionados à ‘bruxaria’, número que subiu para 765 em 2013, segundo dados da polícia reunidos no relatório do Departamento de Estado dos EUA. A maioria das vítimas são mulheres (505, contra 260 homens em 2013), idosos e crianças, e a região mais afetada são as áreas rurais ao sul do Lago Vitória.

Maia Green, antropóloga e especialista em xamanismo da Universidade de Massachusetts, que escreveu sua tese de doutorado sobre a Tanzânia, comentou que tanto o cristianismo como o islamismo são religiões com “fortes crenças no mal e nos espíritos, que coexistem e se misturam com estas crenças ancestrais”. Com isso, ambas as religiões veem as práticas xamânicas tribais que invocam espíritos como algo a ser combatido. A ‘bruxaria’ é praticada em zonas rurais e nas cidades como um meio para “encontrar bodes expiatórios para as desgraças, que explica e racionaliza acusações por inveja, ciúme, cobiça, incompreensão ou desinformação”, acrescentou Mesaki.

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A exclusão social ou a expulsão da cidade é a resposta mais habitual diante da suspeita de ‘bruxaria’ dentro de uma comunidade, assim como os assassinatos. Em 1982 o governo tanzaniano aprovou uma Lei de Bruxaria que, além de criminalizar a prática, pretendia evitar que os cidadãos fizessem justiça pelas próprias mãos. Mas, como denunciam o LHRC e o professor Mesaki, a legislação se mostrou incapaz de resolver os problemas derivados da prática da ‘bruxaria’. Segundo ele, no artigo intitulado ‘Bruxaria e Lei na Tanzânia’, a crença foi “reforçada e legitimada” pela existência da legislação. Mesaki afirma que a lei é um reflexo da percepção social de que a ‘bruxaria’ é “indesejável”, e que é necessário então “castigar aqueles que a praticam”.

(Com agência EFE)

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