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Sucesso de encontro Kim-Trump depende de garantias de desnuclearização

Kim Jong-un não mostra ainda evidências concretas de que está disposto a acabar com programa nuclear norte-coreano

Poucas vezes na história moderna uma reunião entre lideranças internacionais gerou tanta incerteza e expectativa como o encontro planejado para a próxima terça-feira (12) em Singapura entre Donald Trump e Kim Jong-un.

O encontro é significativo por si só, pois representa a primeira vez na história em que os líderes de Estados Unidos e Coreia do Norte se reunirão após quase 70 anos de tensões. Porém, para que correspondam, de fato, às expectativas da comunidade internacional, as negociações precisarão resultar em algo mais do que fotos, apertos de mãos e palavras vagas.

Os Estados Unidos necessitam de garantias concretas para confiar nos norte-coreanos e fazer concessões ou todo esforço pode ser perdido. Porém, até agora, Kim Jong-un não conseguiu provar ao mundo que está, de fato, comprometido com a desnuclearização.

“Os norte-coreanos podem assinar uma declaração mais ampla, mas não assinarão nada que os convoque a abandonar todas as suas armas nucleares existentes”, afirma o professor e especialista em política coreana da Universidade Católica da América, em Washington, Andrew Yeo, sobre um possível acordo a ser assinado no dia 12.

Kim Jong-un já afirmou que acredita em uma negociação por etapas, que só será concluída após muitos encontros como o desta semana. Especialistas também concordam que este pode ser um processo longo, com muitos altos e baixos.

O próprio presidente Trump admitiu, em coletiva de imprensa na última quinta-feira (07), que estará “totalmente pronto para cair fora” das negociações, se for necessário. Sua administração já deixou claro que a desnuclearização total da Coreia do Norte é o único cenário que irá aceitar.

A Casa Branca reconhece ser o encontro do dia 12 apenas o primeiro passo de uma longa negociação. Após 25 anos de tentativas fracassadas de diálogo sobre o programa nuclear de Pyongyang, os Estados Unidos sabem que é fácil colocar tudo a perder.

As conversas entre americanos e norte-coreanos, que começaram em 1993 com o auxílio das Nações Unidas, se intensificaram durante os dois governos de Bill Clinton e culminaram na assinatura de um acordo para congelar o programa nuclear de Pyongyang.

Porém, durante sua gestão, George W. Bush adotou uma postura mais dura e acusou a Coreia do Norte de trapacear ao buscar secretamente um programa de enriquecimento de urânio. O pacto se desfez e os governos seguintes mantiveram uma relação distante e agressiva.

Acordo

Trump já afirmou que poderia assinar uma declaração de paz com os norte-coreanos. Porém, depois de apenas um encontro, o documento seria puramente simbólico, já que um pacto definitivo, que inclua um armistício, exigiria negociações com outros atores, como Coreia do Sul, Japão e China.

Em um futuro acordo, que pode levar meses para ser concluído, os americanos definitivamente exigiriam que a resolução seguisse o modelo que ficou conhecido como CVID, sigla em inglês para “completo, verificável e desnuclearização irreversível”. A expressão foi cunhada pelo Departamento de Estado após a posse de Mike Pompeo. Porém, os esforços de verificação e monitoramento com certeza seriam um problema.

“Em troca, os Estados Unidos prometeriam medidas para garantir a segurança do regime norte-coreano e para apoiar e investir economicamente no país”, diz Kim Hyun-wook, professor da Academia Nacional Diplomática da Coreia.

Além disso, muitos especialistas esperam que, além da discussão sobre o programa nuclear, Donald Trump cobre Kim Jong-un sobre outras mudanças, como a melhoria no cumprimento dos direitos humanos e o fim dos crimes cibernéticos.

Fatores externos

A paz com a Coreia do Norte, contudo, não interessa somente aos Estados Unidos. A reunião de 12 de junho será de enorme importância para a política asiática também.

Após anos de conflito e tentativas fracassadas de paz, as relações entre Pyongyang e Seul também tem experimentado uma melhora nos últimos meses, levando a dois encontros históricos entre Kim Jong-un e o presidente sul-coreano Moon Jae-in. A cúpula de terça deve impactar diretamente esse progresso, por isso seu sucesso é primordial para a paz na região.

Na quinta-feira (7), o primeiro-ministro japonês Shinzo Abe se reuniu com Trump na Casa Branca e também reforçou mais uma vez os interesses de seu país na completa desnuclearização de Pyongyang.

Os japoneses, que desde o final da Segunda Guerra Mundial possuem apenas forças de defesa e só podem se envolver em um conflito armado se estiverem sob ataque direto de uma nação estrangeira, se preocupam que um acordo final entre Coreia do Norte e Estados Unidos aborde apenas os mísseis intercontinentais, munidos de ogivas nucleares, mas deixe o Japão ao alcance de outros disparos norte-coreanos.

Vários dos mísseis balísticos testados por Pyongyang nos últimos anos cruzaram o território ao Norte do país. A Coreia do Sul também tem preocupações muito semelhantes às dos japoneses.

Já a China, histórico aliado norte-coreano, possuí interesses diversos. Pequim tem se sentido isolada do centro de todas as negociações diplomáticas e teme perder sua influência sobre Kim Jong-un para alguns de seus maiores adversários políticos: Estados Unidos e Coreia do Sul.

Porém, o governo local deve eventualmente apoiar as negociações. A China, como o parceiro comercial número um de Seul e Tóquio, possuí muitos interesses econômicos e também se beneficiaria da paz na região.

É certo, contudo, que Pequim deve continuar a buscar o aprofundamento de suas relações com a Coreia do Norte, principalmente se algumas sanções internacionais forem aliviadas e Pyongyang conseguir, aos poucos, se reinserir no mercado asiático.