Assine VEJA a partir de R$ 9,90/mês.

Sobrevivente do 11 de setembro está entre mortos de ataque no Quênia

Até agora, 21 mortes já foram confirmadas por autoridades locais; 19 desaparecidos foram encontrados e cinco terroristas abatidos na força-tarefa em Nairóbi

Por Da Redação - Atualizado em 17 jan 2019, 11h10 - Publicado em 17 jan 2019, 11h05

O número de mortos no ataque contra um complexo hoteleiro no norte de Nairóbi, capital do Quênia, subiu de 14 para 21, segundo informações do inspetor geral da polícia local, Joseph Boinnet. A Cruz Vermelha também confirmou ter encontrado as 19 pessoas que continuavam desaparecidas depois que centenas fugiram da cena do massacre no DusitD2, na última terça-feira 15.

Um dos mortos é o americano Jason Spindler, executivo  de uma empresa de tecnologia e um sobrevivente do atentado às torres gêmeas em 11 de setembro de 2001.

“É com muito pesar que informo que meu irmão Jason faleceu nesta amanhã durante um ataque terrorista em Nairobi, Quênia. Ele era um sobrevivente do 11/9 e um guerreiro. Estou certo de que ele os infernizou”, disse seu irmão, Jonathan, em uma postagem privada no Facebook.

Spindler trabalhava para o banco de investimentos Salomon Smith Barney no World Trade Center quando o prédio colapsou após ser atingido por uma avião, informou a AFP.

Publicidade

Amigos dizem que o acontecimento mudou a vida do americano, que então co-fundou a empresa I-Dev International, focada em inovações financeiras para reduzir a pobreza. No Quênia, ele estava trabalhando em mini paineis solares para áreas remotas.

O site da empresa informa que Jason estudou administração na Universidade do Texas, direito na Universidade de Nova York e então serviu às forças de paz americanas no Peru.

28 feridos e 2 suspeitos presos

Durante entrevista coletiva no final da noite de quarta-feira 16, Joseph Boinnet, confirmou que mais seis corpos foram encontrados no complexo e que um policial morreu pela gravidade de seus ferimentos.

Publicidade

Entre os mortos estão 16 quenianos, um britânico, um americano e três pessoas de origem africana que ainda não foram identificadas, disse o inspetor.

Além disso, Boinnet confirmou que 28 pessoas ficaram feridas e que dois suspeitos foram presos em conexão com a ação terrorista. “Temos motivos para acreditar que os detidos facilitaram o ataque. Eles estão ajudando a polícia nas investigações”, ressaltou.

Ontem, o presidente Uhuru Kenyatta deu por encerrada a operação policial para prender os agressores no complexo do bairro de Westlands, onde cinco terroristas foram “eliminados” e mais de 700 civis foram resgatados.

“O meu coração e de todo queniano está com cada homem e mulher inocente atingidos por uma violência sem sentido”, lamentou Kenyatta.

Publicidade

No pronunciamento televisionado, o presidente ainda disse que “cada pessoa envolvida na ideia, planejamento e execução deste ato horrendo irá ser incessantemente procurada.”

O grupo jihadista somali al-Shabab reinvindicou autoria do ataque, que provocou uma operação de segurança de 19 horas. Em sua emissora de rádio, o porta-voz Ali Dheere afirmou que “os não muçulmanos são nossos alvos e vamos matá-los onde se esconderem de nós.”

O Quênia é alvo do al-Shabab desde outubro de 2011, quando enviou forças militares para a luta contra o grupo muçulmano na Somália.

De acordo com a agência Reuters, o grupo terrorista chamou o ataque de “uma resposta” à decisão do presidente americano Donald Trump de reconhecer Jerusalém como capital de Israel.

Publicidade

A cidade é sagrada para o cristianismo, judaísmo e islamismo, religião comum aos membros do al-Shabab, e apesar de israelenses reinvindicarem Jerusalém como sua capital indivisível, os palestinos pedem pela parte oriental do território como capital de um futuro Estado independente.

Espetacularização do massacre

Alguns meios de imprensa vêm sendo criticados por sua cobertura do atentado no Quênia. Veículos como o site britânico Mail Online e o alemão Bild ilustraram suas matérias com fotografias condenadas pela mídia queniana, mas o mais criticado foi o americano New York Times. O jornal, segundo alguns leitores, estava usando a “miséria e tragédia” do ataque de terça-feira para angariar audiência.

Em seu regulamento, o Conselho de Mídia do Quênia alerta que “a publicação de fotografias mostrando corpos mutilados, incidentes sangrentos e cenas repugnantes deve ser evitada” a não ser que seja de interesse público.

Joseph Kariuki, editor da versão digital do jornal queniano The Star, relata que já publicou imagens consideradas fortes, como a de uma mãe que foi morta com o filho preso às suas costas durante um dos conflitos étnicos no país. “Naquela semana, mais de cem pessoas tinham sido assassinadas e então aquela foto apareceu”, ele recorda, “nós tínhamos que mostrar ao público o que estava acontecendo.”

Publicidade

Como resultado, segundo Kariuki, o presidente falou pela primeira vez sobre os confrontos e enviou tropas do governo para zonas críticas. Mas para o editor, publicar imagens do ataque em Nairóbi não denota uma defesa do interesse público, já que a ação não é frequente ou foi mais mortal que outras no país.

“Na minha visão, o uso não foi justificado, já que a última vez que tivemos um ataque terrorista foi há mais de dois anos e o impacto foi muito menor comparado com o caso da Universidade Garissa ou o do shopping de Westgate”, completou, se referindo a casos que deixaram 148 e 67 mortos, respectivamente.

O New York Times publicou uma nota em que defende o uso das imagens gráficas, dizendo “acreditar que é importante dar aos leitores uma reprodução clara do horror de um ataque como esse. O que inclui mostrar fotos que não são sensacionalizadas mas sim dão uma visão real da situação.”

A abordagem, ainda segundo o comunicado, é o padrão “em qualquer lugar do mundo em que algo do tipo acontece.”

Os quenianos reclamam de uma espetacularização das mortes africanas: “vítimas de atrocidades na África, como na terça, frequentemente têm suas mortes exibidas para consumo sem nenhuma preocupação com privacidade ou luto dos membros de suas famílias”, relatou à BBC James Siguru Wahutu, colaborador da BKC Harvard, que estuda mídia e crimes contra a humanidade.

(com EFE, BBC, Reuters, AFP)

Publicidade