Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Singapura: cidade-Estado tem Trump, Kim Jong-un, luxo e leis bizarras

Ex-colônia britânica ganhou independência em 1963 como parte da Malásia, da qual se separou em 1965

Até há muito pouco tempo, viajantes descolados sabiam que certas coisas simplesmente não se levavam na mala –nem escondidas– quando se viajava a Singapura. Drogas e entorpecentes estavam entre os itens proibidos mais óbvios: já no avião rumo ao país os cartõezinhos de imigração vinham com uma advertência em letras grandes e vermelhas que dizia “Aviso: Tráfico ou possessão de drogas são punidos com a pena de morte em Singapura”.

Parece um tanto radical, mas outros objetos –armas, facas, espadas, canivetes, medicamentos sem receita, frutas e pornografia– também eram proibidos e, caso fossem encontrados com o viajante, podiam render de multa pesada a algumas boas chibatadas em praça pública.

Entretanto, um item específico sempre deixou viajantes intrigados: chicletes e gomas de mascar eram estritamente vetados no país. Não podiam passar pela alfândega, não podiam ser comercializados no país e –se por algum milagre– você tivesse conseguido passar com alguma coisa que se assemelhasse a um chiclete esquecido em algum bolso de uma calça usada no fundo da sua mala, você certamente não podia consumir o objeto do opróbrio em público.

Caso fosse pego mascando chiclete no MRT (o moderníssimo, limpíssimo e eficientíssimo sistema de metrô espalhado por todos os pontos da ilha principal da cidade-Estado; há outras 62 ilhotas que também fazem parte do país) –ou comendo ou bebendo qualquer coisa nos vagões– a multa de cerca de 1.000 dólares era certeira. Cuspir o chiclete (ou qualquer outra coisa) no meio da rua podia render, além da multa, de cinco a dez chibatadas em público.

Os chicletes passaram a ser permitidos no país ao longo da última década (drogas continuam sendo proibidas e punidas com a pena de morte), mas Singapura ficou mais pop, mais chique, (muito) mais cara e um tanto mais artificial que no começo dos anos 2000.

Se por um lado o pequeno país de 624 km2 (cerca de um 30% do tamanho da cidade de São Paulo) enveredou pelo caminho da artificialidade que caracteriza Dubai ou Las Vegas, por outro lado, a riqueza cultural e histórica de Singapura garantiu uma certa qualidade orgânica à nação, que só deixou de ser colônia britânica em 1963.

A independência era parcial: originalmente, Singapura e a atual Malásia formaram uma federação chamada de Malaia. As diferenças culturais –a Malásia é extremamente islâmica, enquanto Singapura é mais diversa– fizeram com que a federação fosse dissolvida em 1965 para que seus dois integrantes seguissem rumos independentes.

Se Singapura for sua primeira parada asiática prepare-se para ficar um pouco desorientado: cultura colonial britânica, uma grande população tamil-hindu de origem indiana e cingalesa, além de asiáticos de origem chinesa e malaio-indonésia. Praticamente não há um cidadão que não fale pelo menos duas das quatro línguas oficiais locais.

Com pouco menos de 6 milhões de habitantes, muitos deles expatriados ocidentais trabalhando para filiais de grandes bancos e multinacionais, o país possui uma das maiores rendas per capita do mundo. E para quem não está a trabalho, há uma infinidade de atrações no pequeno território do Sudeste Asiático.

A piscina de borda-infinita do luxuoso hotel Marina Bay Sands já é famosa no mundo todo, mas há parques com borboletas e pássaros silvestres em Jurong, cassinos em navios iluminados que flutuam pelo rio que dá nome ao país, templos hindus e budistas, mesquitas, igrejas e sinagogas históricas, a maior estufa e cachoeira artificial do mundo, e um “pomar” de árvores cibernéticas gigantes.

Ao lado da arquitetura asiática e do hiperfuturismo, relíquias coloniais como o Hotel Raffles dão o toque de realidade que distancia Singapura das mega cidades do Golfo, como Dubai, Doha, Jedá ou Manama.

E a comida em Singapura é um deleite à parte. Os hawker stalls, como são chamadas as barraquinhas de comida dos mercados de rua, ainda são baratos e servem deliciosas porções de comidas fusion, que ao longo dos séculos foram naturalmente mesclando os sabores da Índia, da China, do Sudeste Asiático e do Ocidente.

Em Singapura, assim como no restante da Ásia, prevalece a relação de amor e ódio com o durian (também chamado de durião pelos portugueses). Parente da jaca, a fruta é um pouco menor que seu parente mais conhecido, tem sabor mais delicado, mas um cheiro tão pungente que frequentemente é comparado ao odor de esgotos ou de cadáveres. Obviamente consumir a iguaria em público ou em local que não seja absolutamente privado e vedado é proibido e punido com multas de 500 dólares, em média.

Ao que consta na programação oficial, a fruta não será servida a Donald Trump e a Kim Jong-un durante o breve encontro histórico entre dois dos líderes mais controversos da atualidade. Melhor: o odor inebriante da fruta poderia ofuscar egos, cabeleiras e jornalistas de um encontro crucial para a estabilidade do planeta. É mais seguro garantir sobriedade. Pelo menos para os assessores americanos e norte-coreanos.