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Sentença histórica no mundo árabe leva Mubarak à prisão perpétua

Por Da Redação - 2 jun 2012, 12h50

Enrique Rubio.

Cairo, 2 jun (EFE).- Hosni Mubarak, o homem que governou o Egito durante 30 anos com uma mistura de paternalismo e mão de ferro, foi condenado neste sábado a passar o resto de sua vida preso, uma decisão sem precedentes no mundo árabe que não conseguiu acalmar a indignação popular.

A sala da Academia de Polícia onde foi realizado o julgamento ficou em silêncio absoluto enquanto o juiz Ahmed Refaat lia a sentença, que Mubarak recebeu impassível usando óculos escuros e deitado em uma maca, como constatou a reportagem da Agência Efe – um dos dez veículos da imprensa internacional credenciados para a sessão.

Apenas os braços erguidos de algum advogado ou um grito de ‘Alá é grande’ quebrou o silência durante a leitura da sentença em uma atmosfera de emoção contida que levou um dos acusados a derramar lágrimas.

Mubarak – que respondeu com um seco ‘presente’ quando o juiz leu seu nome durante a chamada – e seu ministro do Interior, Habib al Adli, foram condenados à prisão perpétua por envolvimento na morte de manifestantes nos 18 dias da revolução que começou em 25 de janeiro de 2011 e levaram à sua renúncia como presidente.

A sentença foi recebida primeiro com euforia, mas esta foi dando lugar a um clima de decepção quando os presentes à sessão judicial ouviram que o tribunal absolveu seis ex-altos comandantes do Ministério do Interior pelo caso.

Também foram absolvidos os filhos do ex-presidente, Alaa e Gamal, o empresário Hussein Salem e o próprio Mubarak por outras acusações de corrupção, já que a justiça egípicia entendeu que esses crimes prescreveram.

A decisão dos juízes não satisfez advogados, vítimas e defensores de direitos humanos, que aumentaram o tom de seus protestos até saírem do tribunal gritando frases de ordem como ‘o povo quer limpar a justiça’ e ‘o povo quer executar Mubarak’.

A tensão chegou ao ponto máximo minutos depois, quando um grupo de advogados decidiu resolver suas diferenças aos socos, o que obrigou vários policiais presentes na sala a agir para deter a desordem.

‘Não se fez justiça. Estou muito decepcionado’, afirmou à Agência Efe o médico Shadi el Maghrebi, que protegia com um boné as cicatrizes de um tiro que recebeu na cabeça quando protestava na praça Tahrir em janeiro do ano passado.

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Para ele, os principais responsáveis pelos assassinatos de manifestantes ‘deveriam ter sido executados, e Alaa e Gamal nem ao menos foram castigados’.

Fora do tribunal, os opositores de Mubarak também receberam com indignação a condenação, e atacaram com pedras os agentes antidistúrbios que estavam nos arredores da Academia de Polícia, perto da capital, Cairo.

Após ser informado de sua sentença, Mubarak foi levado de helicóptero à penitenciária de Tora, onde sofreu uma ‘crise cardíaca aguda’ quando a aeronave aterrissava, informaram à Agência Efe fontes de segurança.

Os médicos o atenderam de emergência na aeronave, e ele foi internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do hospital penitenciário, onde deverá passar sua primeira noite atrás das grades desde que foi detido, em abril de 2011.

Até agora ele havia conseguido evitar a prisão, já que no mesmo dia em que foi interrogado, no ano passado, também sofreu uma crise cardíaca, devido à qual foi internado em um hospital militar de Sharm el Sheikh. De lá, ele foi transferido para o Centro Médico Internacional do Cairo quando começou seu julgamento, há 10 meses.

Apesar de a decisão do tribunal ser um marco na Primavera Árabe e transformar Mubarak no primeiro ex-presidente julgado e condenado por seu próprio povo, os principais grupos revolucionários e partidos da oposição convocaram seus seguidores a sair às ruas para protestar contra a decisão.

Centenas de manifestantes tomaram imediatamente a praça Tahrir, fechando seus acessos, onde espera-se que se concentrem os protestos que aconteceram em outros pontos da cidade, como em frente à Procuradoria Geral.

O grupo Irmandade Muçulmana, que controla o Parlamento e tem um candidato à presidência (Mohammed Mursi), pediu aos egípcios que fossem à emblemática praça e convocaram uma reunião de forças políticas para estudar uma resposta.

‘A impactante sentença provocou a ira nas pessoas porque não atende os apelos de justiça aos mártires e de punição aos assassinos’, afirmou à Efe o porta-voz do grupo, Ahmed Sobaya.

A decisão judicial foi anunciada a apenas duas semanas da data na qual o Egito vai eleger seu novo presidente, que deverá tomar o comando da Junta Militar que dirige o país de forma provisória.

Mursi enfrenta, no segundo turno, o militar reformado Ahmed Shafiq, último primeiro-ministro de Mubarak, que é apresentado por seus inimigos como a continuação do antigo regime. Ainda é impossível saber a repercussão da sentença de hoje sobre as eleições, mas alguns analistas dizem acreditar que a onda de indignação popular pode favorecer Mursi, receptor dos votos anti-Mubarak. EFE

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