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Sem papas na língua

O estilo boquirroto de Francisco, celebrado no início de seu pontificado como um agradável contraponto ao silêncio de Bento XVI, começa a fazer barulho demais no Vaticano

Por Adriana Dias Lopes - 10 mar 2015, 23h31

Há exatos dois anos, celebrados na próxima sexta-feira, 13 de março, Jorge Mario Bergoglio apareceu na sacada central da Basílica Vaticana, olhou ternamente para as 100 000 pessoas que o aguardavam sob chuva fina na Praça de São Pedro e disse: “Irmãos e irmãs, boa noite”. Nunca um papa havia usado uma expressão tão coloquial para se apresentar urbi et orbi. Em seguida, pediu, já em tom de catequese, que todos rezassem por seu antecessor, Bento XVI, que renunciara, e por ele próprio. Aquele aceno inicial foi o prólogo do que seria a grande marca do primeiro pontífice latino-americano – a fala direta e natural. Hoje, Francisco é carinhosamente chamado de “o papa do povo”, por sua proximidade com os fiéis. O jeito coloquial de falar fez um bem enorme à Igreja, ao reaproximar os católicos de uma instituição manchada por escândalos financeiros e sexuais que envolvem parte do clero. Nos últimos dois meses, contudo, a naturalidade de Francisco deixou de fazer sorrir e tem virado motivo de constrangimento. Francisco, o boquirroto, que até então se limitava a proferir comentários espontâneos sobre temas pastorais, passou a soltar a língua também em questões de doutrina.

O resultado de tanta sinceridade portenha: o Vaticano e o próprio Francisco tiveram de se explicar publicamente – e mais de uma vez. Uma das situações mais delicadas ocorreu quando o papa emitiu opinião sobre liberdade religiosa depois do atentado ao jornal satírico francês Charlie Hebdo, em janeiro. O rápido e ruidoso pronunciamento foi feito durante o voo para Manila, nas Filipinas. “Se o doutor Gasbarri (organizador das viagens papais) diz um palavrão contra minha mãe, espera-lhe um soco. Não se pode provocar. Não se pode insultar a fé dos outros.” Para muito além do equívoco do raciocínio papal, houve ainda mais desconforto por ele ter esbarrado em um dos princípios mais conhecidos do Evangelho – oferecer a outra face ao inimigo, e não sair matando.

Três dias depois, Francisco voltou ao assunto em entrevista a jornalistas, tentando justificar: “Em teoria, podemos dizer que uma reação violenta perante uma ofensa, uma provocação, não é uma coisa boa, não se deve fazer. Em teoria, podemos dizer o que diz o Evangelho, ou seja, que devemos apresentar a outra face (…). Mas somos humanos, e existe a prudência, que é uma virtude da convivência humana. Eu não posso insultar, provocar uma pessoa continuamente, porque me arrisco a irritá-la e a receber uma reação não justa. Mas é humano”.

É evidente que Francisco conhece as leis do Evangelho, condena qualquer ato terrorista em nome da fé e repudia o radicalismo islâmico transformado em fascismo. O problema do papa argentino é o comportamento intempestivo, inadequado para o vigário de Cristo. Diante de comentários do pontífice a respeito das questões de fé e morais, um fiel atento tende a escutar unicamente a expressão da verdade. Um papa obrigado a se justificar frequentemente, por meio de notas oficiais do Vaticano, é uma contradição em termos.

Na história moderna da Igreja, João XXIII (1958-1963) é o papa que mais se assemelha a Francisco ao abrir a boca. Suas improvisações, porém, eram comezinhas. Em 11 de outubro de 1962, depois da sessão de abertura do Concílio Vaticano II, João XXIII disparou um de seus mais célebres improvisos, o “discurso da Lua”. Uma multidão de fiéis fora até a Praça de São Pedro com velas. O papa então apareceu na janela de seu quarto e, emocionado, falou com lágrimas nos olhos: “Caros filhinhos, ouço as vossas vozes. A minha é apenas mais uma, mas condensa a voz do mundo inteiro. Todo mundo está aqui representado. Parece que até a Lua está com pressa nesta noite – observai-a lá no alto, está contemplando este espetáculo”. Foi apenas bonito, sem estragos.

Convém ressaltar que Francisco não é o primeiro papa a provocar retratações. Em 2006, Bento XVI, sempre cauteloso, quase mudo, fez um discurso, na universidade alemã de Regensburg, no qual incluiu algumas palavras do imperador bizantino Manuel II Paleólogo: “Mostra-me também o que trouxe de novo Maomé, e encontrarás apenas coisas más e desumanas tais como a sua norma de propagar, através da espada, a fé que pregava”. Muitos entenderam as palavras como uma condenação ao Islã. Era, na verdade, uma referência à difusão das religiões por meio da violência. O cardeal Tarcisio Bertone, então secretário de Estado do Vaticano, lamentou o mal-entendido, e tudo resolvido. O restante do texto era irretocável.

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