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Seleção da Croácia ecoa nacionalismo crescente no país

Jogadores flertam com a xenofobia ao entoar hinos que remetem ao passado fascista do país; Fifa puniu o zagueiro Domagoj Vida e o investiga pela segunda vez

Por Da Redação - Atualizado em 15 jul 2018, 10h32 - Publicado em 14 jul 2018, 19h55

Domagoj Vida, zagueiro da seleção da Croácia, será uma das estrelas da final da Copa do Mundo contra a França, neste domingo (15). Tanto Vida como seus colegas, porém, tenderão a ser observados cuidadosamente pela Federação Internacional de Futebol (Fifa) e pela imprensa internacional pelo comportamento fora de campo.

O zagueiro protagonizou durante a Copa da Rússia um episódio de nacionalismo exacerbado e acabou punido pela Fifa. Seus colegas seguiram pela mesma linha, flertando com expressões de cunho fascista. O jogador da equipe turca Besiktas levou advertência da entidade depois de ter exibido nas redes sociais um vídeo no qual grita a expressão “Glória à Ucrânia” — cuja resposta esperada é “Glória aos Heróis” — depois da vitória croata sobre a Rússia nas quartas de final, no último dia 7. As imagens o mostram ao lado de Ognjin Vulkojevic, assistente técnico da seleção.

Vulkonevic recebeu punição mais severa: foi descredenciado da federação croata de futebol e obrigado a pagar uma multa de 58 000 reais à Fifa  A seleção croata, por sua vez, teve de pedir desculpas.

Punido, Vida tratou de desculpar-se. Na quarta-feira (11), em entrevista à rede televisão Rússia-24, disse não ter se surpreendido com as vaias que recebeu durante a partida da semifinal contra a Inglaterra. “Desculpem-me. É a vida. Nós aprendemos com os nossos erros”, afirmou, de acordo com a Euronews.

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Explicou ainda que a intenção dele e de Vulkojevic era dedicar a vitória da seleção croata sobre a Rússia à Ucrânia e ao Dínamo, time no qual ambos jogaram. “Não há política no futebol. Foi uma brincadeira para os meus amigos do Dínamo Kiev”, afirmou ao jornal russo Sport Express. “Eu amo os russos e eu amo os ucranianos”, afirmou, na língua local.

 

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Dias depois, porém, ele gravou um novo vídeo no qual repetiu o “Glória à Ucrânia”, desta vez com uma garrafa de cerveja na mão. A Fifa investiga este novo episódio.

A expressão nacionalista usada por Vida tem origem na Ucrânia, país dominado por Moscou durante o período soviético e que, em 2014, teve seu território da Crimeia invadido e ocupado pela Federação Russa. Vida e Vulkojevic foram colegas no Dínamo e parecem ter tomado as dores dos ucranianos pela invasão militar russa na Crimeia.

Submetidos aos sérvios nos anos da Iugoslávia e seus inimigos na brutal guerra de independência dos anos 1990, os croatas têm uma percepção aguçada sobre a dominação e a construção da soberania.

A polêmica foi além dessa interpretação e atingiu as conexões do futebol do Leste Europeu, particularmente da Croácia, com os movimentos neonazistas. Quase todos os países da região são governados por partidos de direita aliados a legendas de extrema-direita, como é o caso da Croácia. Esses governos apoiam-se no nacionalismo e na xenofobia, exacerbados depois da massiva imigração de sírios desde 2015.

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A iniciativa de Vida também reacendeu o atrito diplomático entre o Kremlin, anfitrião do mundial, e Kiev. A embaixada da Ucrânia em Londres postou no Twitter uma nota em defesa dos jogadores croatas, com críticas às interpretações dos jornais britânicos The Sun e The Independent sobre o grito “Glória à Ucrânia”. Alegou ser esta uma “expressão patriótica como ‘viva a França’, ‘longa vida à rainha’, ‘deixe a Polônia ser a Polônia'”. “Vocês chamariam as pessoas que cantam essas frases de nacionalistas e as vaiariam?”

Popularíssimo na Croácia, o futebol tem sido permeável a movimentos nacionalistas e xenofóbicos e, em alguns momentos, esbarrou na ideologia neonazista. Na Copa do Mundo da Rússia, esse comportamento foi mais claro em outro episódio envolvendo a seleção croata.

Logo depois da vitória croata sobre a Argentina, o também zagueiro Dejan Lovren, do britânico Liverpool, celebrou a vitória no vestiário cantando Bojna Cavloglave. Trata-se da versão da banda croata Thompson sobre um hino nacionalista dos anos 1990.

Seu refrão — “Por nossas casas, por nossos irmãos, por nossa liberdade nós estamos lutando” — remete ao estribilho do hino do regime fascista Ustasha, que governou o país durante a II Guerra Mundial apadrinhado pelo governo de Adolf Hitler. Os integrantes da banda Thompson costumam subir aos palcos vestidos com o uniforme da Ustasha, responsável pela eliminação de centenas de milhares de sérvios, judeus e outras minorias locais.

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Suástica

Outro jogador croata, Josep Simunic, foi impedido de atuar na seleção de seu país na Copa do Mundo do Brasil, em 2014, porque fizera o gesto de saudação da Ustashe em uma partida de classificação. Também tomou um microfone e fez uma declaração: “Para a Nação”, interpretada pela Fifa como uma variante do lema da Ustashe. Banido da Copa pela Fifa, Simunic teve sua imagem reproduzida em cartazes e camisetas de movimentos neonazistas na Croácia.

Um ano depois, uma suástica apareceu cuidadosamente esculpida no gramado do estádio Poljud, do time de futebol Hajduk Split, da cidade croata de Split, antes de uma partida entre as seleções desse país e da Itália pelas Eliminatórias da Eurocopa. A União das Associações de Futebol Europeias (Uefa) puniu a seleção croata com a perda de um ponto no campeonato de 2016 e exigiu da federação desse país pedido público de desculpas.

Suástica vista em gramado, na partida entre Croácia e Itália no estádio Poljud, do Hajduk Split, da cidade de Split em meados de 2015 Andrej Isakovic/AFP

“A Ustasha tem sido apoiada por torcedores croatas há décadas, inclusive durante a Eurocopa de 2016, quando chegaram a brandir suásticas”, escreveu a revista Policratus, dedicada a temas políticos globais. “Mas tão alarmante quanto isso é o apoio tácito e ativo ao movimento Ustasha e a seu legado pelo governo da Croácia”, acrescentou, referindo-se à nomeação de Zlatko Hasanbegovic, um admirador do regime fascista, para o Ministério da Cultura pela presidente da Croácia, Kolinda Grabar-Kitarovic.

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