Segundos por US$ 100.000: Trump quer cobrar por acesso antecipado a dados econômicos
Truth Social, rede criada pelo presidente dos EUA, passa a vender a posts com antecedência para investidores, gerando debate sobre ética e abuso de poder
A Truth Social, rede social criada por Donald Trump, começou a comercializar o acesso antecipado às publicações do presidente dos Estados Unidos para investidores e empresas que utilizam sistemas automatizados para negociar ativos financeiros.
A Trump Media, controladora da plataforma, anunciou um feed de dados pago e licenciado que dará a instituições financeiras “o acesso mais rápido” às publicações das dez contas mais influentes do Truth Social, incluindo a do próprio Trump, que com 13 milhões de seguidores é a maior por lá. Segundo apuração da agência de notícias Reuters e de outros veículos de mídia, a empresa discute cobrar até US$ 100 mil (R$ 511,12 mil, na cotação atual) por mês pelo produto Truth API, que começou a funcionar no último sábado, 1º de agosto.
De acordo com a Trump Media, o serviço foi projetado para atender às necessidades das organizações mais impactadas pelo custo de atrasos no acesso à informação. API é um sistema que permite que programas de computador recebam automaticamente as publicações da plataforma. A expectativa é que o serviço funcione 24 horas por dia, sete dias por semana, e inclua um arquivo de mensagens publicadas desde 2022.
“Os mercados já reagem com base nas publicações da Truth Social”, justificou Kevin McGurn, CEO interino da Trump Media, quando anunciou o Truth API. A empresa afirmou já ter conquistado clientes antes mesmo do lançamento, mas não revelou quem eles são.
Quanto vale um milissegundo?
Para investidores individuais, alguns milissegundos podem não fazer nenhuma diferença, mas no universo da negociação automatizada, esse intervalo pode ser suficiente para que sistemas identifiquem uma informação relevante e executem ordens de compra e venda antes que os preços se ajustem. E quando Trump fala, os traders financeiros estão entre os ouvintes mais atentos.
Das guerras comerciais às militares, tudo o que o presidente americano diz pode mudar os mercados, e por isso é tão monitorado por sistemas informáticos automatizados. Lucros de muitas das principais corretoras, fundos de hedge e empresas de serviços financeiros dependem fortemente da velocidade com que conseguem negociar com base nessas notícias — e se um grupo restrito adquirir com antecedência uma informação com potencial de mexer nos preços, pode comprar ou vender contra adversários que ainda trabalham com os valores anteriores.
Os sistemas eletrônicos que usam algoritmos compram e vendem muito mais rápido e em maior escala do que os humanos, segundo o banco de investimento Charles Schwab.
É um caso de “se piscar, você vai perder”, diz a instituição. “Esses sistemas são muitas vezes concebidos para gerar apenas um pequeno lucro em cada transação, mas através da velocidade e do volume absolutos, podem gerar grandes retornos para as suas empresas. ”
‘Abuso de poder’
A medida foi amplamente criticada nos Estados Unidos, levantando dúvidas sobre a igualdade de acesso a informações capazes de influenciar os preços.
Trump, que detém cerca de 41% da Trump Media por meio de um fundo fiduciário administrado por seus filhos, deve lucrar com o modelo de acesso pago. Na semana passada, os senadores democratas Elizabeth Warren e Adam Schiff solicitaram à Comissão de Valores Mobiliários americana (SEC, na sigla em inglês) uma investigação sobre a medida.
“Isso parece ser um abuso escandaloso do cargo de presidente para seu benefício pessoal, que prejudica os investidores comuns e a integridade de nossos mercados, ao mesmo tempo em que enriquece Wall Street e outros participantes privilegiados e abastados”, afirmaram eles.
A Truth API é o exemplo mais recente de como Trump mistura seus negócios pessoais com assuntos presidenciais, levantando questões éticas, acrescentaram Warren e Schiff. No mês passado, o presidente americano informou que recebeu mais de US$ 1,4 bilhão (R$ 7,16 bilhões) no ano passado com os projetos de criptomoedas de sua família.
Apesar de algumas plataformas de tecnologia oferecerem acesso antecipado a determinadas informações para clientes, há especialistas em ética que afirmam que a Truth API é diferente porque as publicações de Trump tratam de dados governamentais e ele tem a obrigação de divulgá-las publicamente.
O potencial de ocorrência de abuso de informação privilegiada (o famoso insider trading) também foi levantado. A prática, que é ilegal, envolve pessoas que fazem negociações ou apostas no mercado com base em informações que não estão disponíveis ao público em geral. “Se eu fosse comissário da SEC, ameaçaria me demitir se não puserem um fim a esse plano”, disse à emissora britânica BBC Richard Painter, ex-advogado de ética do presidente George W. Bush.
Em resposta à carta enviada à SEC, um porta-voz da Trump Media disse que os democratas do Senado “continuam a descaracterizar a Truth API, seja por oposição ideológica aos mercados livres ou por não compreenderem a distinção entre informações públicas e não públicas — ou, muito possivelmente, ambas”.







