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Saiba quais são e o que querem os principais grupos terroristas

Especialistas explicam as diferenças e semelhanças entre as principais milícias e facções islâmicas que espalham terror e ameaçam a estabilidade em diferentes países do mundo

Por Diego Braga Norte - 22 mar 2015, 19h03

Se o Estado Islâmico pode ser considerado o grupo terrorista mais perigoso da atualidade, a crueldade sem limites, infelizmente, não é sua exclusividade. Execuções em massa, decapitações, sequestro de menores, crucificações, estupros, escravizações e atentados são barbáries associadas a diferentes facções em busca do poder. Em uma longa reportagem sobre o desafio de combater o Estado Islâmico, a revista britânica The Economist indicou, em sua última edição, alguns pontos que distinguem o grupo de outras facções, incluindo sua originadora, a Al Qaeda: o tratamento singularmente brutal aos inimigos, a competência na propaganda de seus abomináveis atos e, sobretudo, a pretensão de ter restaurado o califado islâmico.

De fato, o Estado Islâmico aprendeu com a Al Qaeda que uma ação terrorista tem de ser espetacular para ter impacto. As duas facções seguem a mesma ideologia ultraextremista, mas diferem na forma de atuação. Enquanto a Al Qaeda se organiza em forma de rede, com ramificações, células e aliados em diferentes países, o EI é mais homogêneo e concentra suas ações em parte dos territórios da Síria e Iraque – embora esta semana tenha mostrado uma nova face ao reivindicar o ataque contra um museu na capital da Tunísia que deixou mais de vinte mortos, a maioria turistas.

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Califado – J. M. Berger, consultor de terrorismo da Brookings Institution e autor do livro “Isis, The State of Terror” (“EI, o Estado do Terror”, em tradução literal), chama a atenção para um ponto importante na comparação dos dois grupos: a liderança do EI é muito mais presente e controladora que a da Al Qaeda e pretende comandar todas as demais facções. A própria proclamação do califado e o apontamento do terrorista iraquiano Abu Bakr Al Baghdadi como califa, é uma indicação explícita dos propósitos totalitários do grupo.

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Enquanto o chefe da Al Qaeda, o egípcio Ayman Zawahiri, vive entocado nas montanhas entre o Afeganistão e o Paquistão, sob risco de bater de frente com um drone americano, Al Baghdadi é um comandante em campo de batalha e faz tudo aquilo de que seus seguidores gostam. “O califado do EI é um desafio direto à autoridade da Al Qaeda. Segundo o EI, todos os muçulmanos devem obedecer ao califa, e esse preceito vale inclusive para os líderes da Al Qaeda, que não concordam”, explica Richard Barrett, analista de contraterrorismo com passagens pela ONU e pelo governo britânico, onde trabalhou no serviço de inteligência.

“O Estado Islâmico é, ao contrário de outros grupos terroristas clandestinos, altamente visível. E a forma mais extrema do seu desenvolvimento terrorista é o proto-Estado que eles comandam na Síria e no Iraque”, diz Barrett. Para ele, a atual projeção internacional do EI faz com que o grupo, mesmo sem manter contato direto, influencie tanto outras facções terroristas como os chamados ‘lobos solitários’, que costumam atacar furtivamente no Ocidente. A Al Qaeda foi muito fragilizada pela Guerra ao Terror empreendida pelos Estados Unidos e seus aliados. As operações de inteligência e bombardeios conduzidos pelo programa de drones enfraqueceram muito a organização terrorista e isto, de acordo com os analistas, foi sentido pelos grupos aliados que atuam no Oriente Médio, África e Ásia, e que passaram a ser mais autônomos.

Outros grupos – Facções menores, sejam independentes, fieis ao EI ou filiais da Al Qaeda, têm aspirações locais e buscam desestabilizar regiões específicas e governos de determinados países. É o caso, por exemplo, do Talibã no Afeganistão e no Paquistão, do Boko Haram na Nigéria, e do Al Shabab no Chifre da África. “A ‘ideologia’ que os guia é o poder político e dinheiro. Boko Haram e Al Shabab são grupos que exploraram localmente a desordem, a negligência e outros elementos da má governança nas áreas em que atuam”, diz Barrett.

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Recentemente os terroristas do Boko Haram juraram lealdade ao EI, mas, de acordo com os especialistas, a iniciativa não passa de uma retórica útil aos dois grupos. A não ser em casos em que as diferentes facções atuam nas mesmas áreas, como a Al Qaeda, o Khorasan e a Frente Nusra na Síria, os especialistas acreditam ser improvável a colaboração estreita entre facções geograficamente tão distantes. Os grupos podem manter contatos esporádicos, mas é muito pouco provável, por exemplo, que o EI mande armas, homens ou dinheiro para os terroristas do Boko Haram, acredita Raffaello Pantucci, analista de terrorismo da consultoria britânica Royal United Services Institute.

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