Rússia recorre à Coreia do Norte diante de crise de recrutamento para lutar na Ucrânia
Com quase 1,5 milhão de baixas no Exército e dificuldade de avanços na linha de frente, Moscou usa soldados e mísseis norte-coreanos para atacar
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, denunciou nesta terça-feira, 11, que a Rússia voltou a usar mísseis fornecidos pela Coreia do Norte para atacar seu país, em uma campanha de ataques que levou a pelo menos nove mortes nesta madrugada, depois de afirmar no final de semana que até 50 mil soldados norte-coreanos teriam sido mobilizados para lutar ao lado das forças russas.
Para uma especialista ouvida pela agência de notícias RFI, o cenário expõe a crescente dependência de Moscou no aliado Kim Jong-un em meio a uma crise de recrutamento.
“As necessidades são crescentes, caso o Kremlin queira manter a guerra no terreno – ou seja, lançar novas ofensivas. O Exército russo não consegue mobilizar as centenas de milhares de homens de que precisaria para retomar uma ofensiva na Ucrânia”, disse à RFI Marie Mendras, professora de relações internacionais na universidade Sciences Po de Paris.
Dificuldade de avanço
Zelensky não explicou como obteve o número de 50 mil, muito superior à estimativa de 30 mil feita em julho. No entanto, a revelação expõe os entraves que impedem o avanço do Exército russo na linha de frente. Segundo estimativa do think tank Center for Strategic and International Studies (CSIS), sediado em Washington, as forças de Moscou acumularam cerca de 1,4 milhão de baixas, das quais aproximadamente 450 mil correspondem a soldados mortos.
Além das perdas humanas, o relatório conclui que a campanha militar russa atravessa seu momento mais difícil desde o início da invasão. Segundo o CSIS, Moscou perdeu mais território do que conquistou nos meses de abril e maio deste ano, registrando um saldo negativo de aproximadamente 400 quilômetros quadrados — as primeiras perdas territoriais líquidas desde agosto de 2024.
“No leste e no sudeste da Ucrânia o exército da Rússia não avança há vários meses e é até obrigado a recuar em alguns pontos. Assim, a prioridade das forças russas parece ser manter as posições para evitar recuos maiores em território ucraniano”, disse Mendras.
A especialista também afirmou que o Exército russo enfrenta dificuldades para recrutar soldados. Oficialmente, uma mobilização lançada em setembro de 2022 permite a Moscou manter uma convocação permanente, mas os métodos do governo russo são controversos.
“O que eles fazem é lançar ‘operações especiais’ – como gostam de chamar – para recrutar homens, muitas vezes à força ou ameaçando suas famílias. E não está claro como esses recrutas, que não estão preparados e não têm vontade de ir para a linha de frente, poderiam ser realmente eficazes”, avaliou a professora da Sciences Po, acrescentando que “a ocupação vai mal” em territórios como a península da Crimeia e o leste da Ucrânia. “As administrações desses territórios são marcadas pela corrupção, e seus militares são enviados sobretudo para a linha de frente, não para garantir a gestão administrativa.”
Aliança bélica
A Rússia recorreu à Coreia do Norte em busca de apoio durante a invasão da Ucrânia, iniciada em 2022. Em uma fase anterior da guerra, Pyongyang enviou cerca de 14 mil soldados para ajudar a Rússia a responder a um contra-ataque ucraniano na região de Kursk, em 2024.
Os serviços de inteligência da Ucrânia, da Coreia do Sul e de países ocidentais acusaram ainda o país de Kim Jong-un de fornecer armas ao colega Vladimir Putin.
Moscou e Pyongyang fortaleceram suas relações desde o início da invasão russa da Ucrânia e, em 2024, assinaram um acordo de defesa mútua, que prevê uma cláusula de assistência em caso de agressão externa contra um ou outro dos dois países. Putin visitou o país aliado na ocasião e, um ano antes, recebeu Kim na Rússia um ano antes. Em setembro de 2025, os dois se encontraram em Pequim, onde o líder norte-coreano prometeu fazer “tudo o que estiver ao meu alcance para ajudar” o Kremlin.
Guerra aérea
Diante desse cenário, Mendras avalia que o futuro da guerra na Ucrânia se concentrará nas trocas de mísseis, com uma possível multiplicação de lançamentos nas próximas semanas.
Moscou intensificou nas últimas semanas os ataques com mísseis balísticos, que apenas alguns sistemas avançados de defesa antiaérea, entre eles os Patriot americanos, são capazes de interceptar. A escassez de projéteis interceptadores PAC-3 destinados a estas baterias se agravou desde que Estados Unidos e Israel iniciaram uma guerra contra o Irã, em fevereiro.
Paralelamente, a Ucrânia intensificou os ataques contra cidades russas distantes da fronteira.
Nesta nova etapa do conflito, o exército russo dá sinais de que continuará contando com o apoio da Coreia do Norte. Um responsável dos serviços de inteligência militar ucranianos declarou recentemente à agência de notícias Reuters que uma unidade de mísseis norte-coreana iniciou seu deslocamento para o oeste da Rússia e poderia estar equipada com 120 mísseis balísticos e seis lançadores para atingir a Ucrânia.
Segundo fontes ucranianas e independentes, Pyongyang também teria fornecido a Moscou milhões de projéteis de artilharia e morteiros, mísseis balísticos, artefatos de longo alcance e sistemas de lançadores múltiplos de foguetes, algo que nem o regime de Kim Jong-un nem o de Vladimir Putin confirmaram.







