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Rússia insiste em tese estapafúrdia sobre voo MH17

Emissora estatal apresenta imagens que indicariam ataque de caça ucraniano à aeronave que transportava quase 300 pessoas. Especialistas apontaram ‘falsificação grosseira’ do material

A TV estatal russa mostrou o que chamou de “fotos extraordinárias” que dariam suporte à tese de que o voo MH17 da Malaysia Airlines foi abatido por um caça ucraniano. A nova tentativa de emplacar a teoria ocorreu no final da noite de sexta, pouco antes do início do encontro do G20, no qual Vladimir Putin enfrenta mais pressões do Ocidente sobre a crise na Ucrânia.

A divulgação das imagens resultou no que era de se esperar: em descrédito. Vários comentaristas que examinaram as fotos as descreveram como falsificações grosseiras. Elas foram apresentadas como tendo sido tiradas por um satélite ocidental e mostrariam um avião militar disparando um míssil contra a aeronave de passageiros abatida no dia 17 de julho, provocando a morte de todas as 298 pessoas a bordo.

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Vários especialistas, no entanto, apontaram erros primários na montagem, incluindo o logo da companhia aérea no lugar errado, até a reprodução de um modelo da Boeing que não coincide com o que foi derrubado, informou a rede britânica BBC. Outros verificaram ainda que o caça era diferente do Su-25 que a imprensa russa insistentemente afirma ter sido usado no ataque contra o MH17.

O governo americano considerou a afirmação da TV russa “absurda” e acrescentou que o objetivo de Moscou é “ofuscar a verdade e ignorar sua responsabilidade final pela trágica derrubada do MH17”, informou a agência de notícias Associated Press.

Andrei Menshenin, comentarista de uma radio independente russa, disse que o ângulo do ataque indicado pelas fotos não corresponde ao local onde a aeronave foi atingida. O site britânico de jornalismo investigativo Bellingcat chamou a atenção para diversas inconsistências, incluindo sinais de que as imagens na verdade são de 2012.

O Canal Um, que veiculou as imagens, deu muito destaque ao material. “Temos à nossa disposição fotos sensacionais presumivelmente feitas por um satélite estrangeiro espião nos últimos segundos do voo do Boeing da Malásia sobre a Ucrânia”, disse o apresentador Dmitry Borisov.

Segundo a versão delirante, um homem identificado como George Bilt, formado pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts e com mais de duas décadas de experiência na indústria da aviação, teria enviado o material para o primeiro vice-presidente do sindicato russo de engenheiros, Ivan Andriyevsky. “Podemos afirmar que a fotografia foi tirada por um satélite americano ou britânico. Analisamos as imagens em detalhes e não encontramos nada que apontasse que são falsas”, disse Andriyevsky à emissora.

Em meio à crise com a Ucrânia, a TV estatal russa frequentemente divulga reportagens, algumas contendo ‘provas’, para reforçar a versão do Kremlin sobre a derrubada do avião. Em julho, uma pesquisa indicou que apenas 3% dos russos acreditavam que a aeronave havia sido abatida por rebeldes, enquanto 82% disseram que o Exército ucraniano era o responsável pelo ataque.

O Boeing 777 com quase 300 civis inocentes de várias nacionalidades a bordo, ia de Amsterdã a Kuala Lumpur. Foi atingido quando sobrevoava uma área controlada por separatistas financiados por Putin no leste da Ucrânia.

No dia da tragédia, logo depois do desaparecimento do avião, um oficial russo encarregado por Moscou de dar ajuda aos separatistas ucranianos, jubilante, postou durante algumas horas apenas o registro de mais um avião abatido. O oficial julgava tratar-se de um An-26 – Antonov turboélice de transporte de tropas e carga – da Força Aérea da Ucrânia. Não era. O anúncio sumiu rapidamente. Foi a primeira tentativa dos russos e seus aliados na Ucrânia de apagar as marcas do crime.

(Com agência Reuters)