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Rússia e China barram condenação ao regime sírio na ONU

Elena Moreno.

Nações Unidas, 4 fev (EFE).- O duplo veto de Rússia e China no Conselho de Segurança da ONU neste sábado impediu o órgão de manifestar uma voz única sobre a violenta repressão que o regime de Bashar al-Assad exerce contra a população síria há 11 meses.

Após essa rejeição, os 13 países que, sim, votaram a favor do projeto de resolução, apoiada por árabes, europeus e americanos, colocaram sobre Moscou e Pequim a responsabilidade sobre a situação futura da Síria, onde as forças de segurança protagonizaram um novo banho de sangue, causando até 260 mortes, segundo a oposição.

‘Vergonhosa’, ‘escandalosa’, ‘imperdoável’, ‘inaceitável’ e ‘cúmplice’ foram alguns adjetivos usados pela maior parte dos países que repudiaram a atitude de Rússia e China. Enquanto Moscou justificou sua postura com o argumento de que as duas partes – tanto o governo Assad quanto a oposição – devem pôr fim à violência, Pequim alega que a ONU deve evitar a ingerência em assuntos internos da Síria.

O embaixador russo da organização, Vitaly Churkin, afirmou que o projeto de resolução – que buscava uma saída à crise da Síria mediante o apoio ao plano de transição proposto pela Liga Árabe – pedia ‘uma mudança de regime’ na Síria, algo que a Rússia se opõe.

Churkin acusou ‘alguns influentes membros’ da comunidade internacional de ‘terem corroído a oportunidade de um acordo político, pedindo uma mudança de regime e respaldando os opositores’. Ele acrescentou que a rejeição russa ao projeto de resolução discutido neste sábado nunca foi um segredo.

Esta é a segunda ocasião em quatro meses que esses dois países vetam uma proposta de resolução no Conselho contra o regime do presidente sírio, Bashar al-Assad, cuja violenta repressão causou mais de 6 mil mortes nos últimos meses, segundo o embaixador britânico, Mark Lyall Grant.

‘Os Estados Unidos estão enojados’, afirmou a embaixadora americana na ONU, Susan Rice, que criticou a oposição de Moscou e Pequim à condenação da Síria – ‘este Conselho foi refém de dois membros’ durante vários meses. ‘Essa intransigência é mais vergonhosa quando se considera que um dos membros deste órgão fornece armas a esse país’, acrescentou Rice, referindo-se à Rússia, principal fornecedor de armas de Damasco.

‘É um dia triste, mas não vamos parar aqui. Seguiremos trabalhando com a Liga Árabe, seu plano está em cima da mesa’, afirmou o embaixador da França na ONU, Gérard Araud. Segundo ele, continuará havendo pressões para que a União Europeia (UE) amplie as sanções contra a Síria.

Araud destacou que ‘alguns países obstruíram de maneira sistemática as ações do Conselho’ e acusou essas nações, Rússia e China, de serem ‘cúmplices da política de repressão do regime sírio’.

O representante da França ressaltou que seu país sentia ‘uma grande tristeza e preocupação com este dia triste por esse duplo veto, que é também um dia triste para os sírios e para todos os democratas’.

‘É um escândalo. Este Conselho deve pedir ao presidente da Síria, Bashar al-Assad, que ponha fim à violência e à sistemática violação dos direitos humanos de maneira imediata’, disse o embaixador alemão na ONU, Peter Wittig. Para ele, com os vetos russo e chinês, o Conselho ‘fracassou novamente em assumir suas responsabilidades e em cumprir seu mandato de manter a paz e a segurança internacionais’.

Já o Marrocos – único país árabe atualmente presente no Conselho – lamentou por meio de seu embaixador na ONU, Mohammed Loulichki, a ‘enorme decepção’ e ‘frustração’ que Rússia e China causavam com aos sírios e ao resto do mundo com seus vetos.

O embaixador britânico, por sua vez, lamentou a falta de resultados dos intensos esforços da maior parte dos países na última semana na busca pelo consenso dos 15 Estados-membros do Conselho – esforços esses, que editaram o texto inicial, ao eliminar as alusões à renúncia de Assad e a um possível embargo de armas.

‘Os fatos falam por si próprios. Eliminamos qualquer desculpa. A realidade é que Rússia e China escolheram dar as costas ao mundo árabe e apoiar a tirania em vez das legítimas aspirações dos sírios’, assinalou Lyall Grant.

Por outro lado, o embaixador sírio na ONU, Bashar Jaafari, agradeceu as atitudes de Rússia e China, chamando-as de ‘advogados’ de Damasco no Conselho. ‘A Síria foi alvo de algumas potências para ser castigada por seu compromisso com a defesa dos direitos e foi sacrificada em uma crise fabricada pelos que não desejam nada de bom’, declarou o diplomata, acusando a oposição síria de favorecer atentados terroristas.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, somou-se ao grupo de frustrados pelo resultado da votação. Ele ressaltou que o fracasso em aprovar uma resolução decepciona os sírios e abala o papel das Nações Unidas.

‘É uma grande decepção para o povo sírio e para o Oriente Médio, para todos os que apoiam a democracia e os direitos humanos’, afirmou a autoridade máxima da ONU em comunicado de imprensa emitido por seu porta-voz, Martin Nesirky.

A ONG internacional Human Rights Watch (HRW) expressou seu repúdio ao duplo veto de Moscou e Pequim, qualificando-o como uma ‘bofetada’ à Liga Árabe e uma ‘traição’ aos sírios. ‘(A Rússia) não está só armando um governo que assassina seu próprio povo, mas também o ampara diplomaticamente’, afirmou o responsável da HRW para assuntos da ONU, Philippe Bolopion. EFE