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“Rotina normal, mas há muita tristeza”, dizem brasileiros no Irã

Moradores de Qom, a 156 km de Teerã, Eliezer e Latifah dizem que está tudo "estranhamente calmo", apesar do  sentimento de melancolia entre os iranianos

Por Luís Lima - 8 jan 2020, 16h47

No caminho para a escola onde estudam as filhas gêmeas de quatro anos, em Qom, a 156 km de Teerã, o casal de brasileiros Eliezer Ranieri, 39, e Latifah Torres Ranieri, 43, notou um elemento novo nos últimos dias: a constante presença de fotografias do general Qasem Soleimani em muros, lojas e instituições públicas. “Shahid”, exclamavam as crianças, palavra árabe que em português significa testemunha, ou mártir, neste contexto. O ataque ordenado pelos Estados Unidos que matou o general na semana passada foi o estopim de uma escalada de tensão, mas não alterou fundamentalmente a rotina da família.

“Está tudo estranhamente calmo, mas as pessoas estão tristes. O povo iraniano é alegre e hospitaleiro, e desde que aconteceu o ataque, o humor mudou”, disse o paulista, nascido em Ubatuba e que residiu a maior parte da vida no Guarujá, litoral paulista.

Estudante de ciência islâmica, e prestes a cursar um mestrado, Ranieri se mudou em 2013 para Qom com a mulher e a filha mais velha, atualmente com 8 anos, para que pudesse ser educada em um país muçulmano. É bolsista na universidade Al-Mustafa e também trabalha com tradução e como professor de português.

Latifah, natural de Casa Nova, interior da Bahia, compartilha da sensação de normalidade do marido, mas pondera que há um “sentimento de tensão” quando se depara com notícias, como o recente ataque do Irã a bases usadas pelos EUA no Iraque e a queda de um avião ucraniano em solo iraniano.

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“Dá uma sensação de tensão quando paramos para acompanhar as notícias. Para nós, brasileiros, é algo novo, porque não temos guerra”, conta Latifah. “Mas nada mudou, na prática, graças a Deus. Continuamos estudando, e sobretudo agora, que é período de provas”, acrescenta a baiana, que está no primeiro ano de ciências islâmicas, também na universidade Al-Mustafa.

Em uma corrida de táxi, Ranieri conta ter ouvido de um motorista o relato de que desde a morte do fundador da República Islâmica do Irã, o aiatolá Khomeini, que não há uma comoção e uma mobilização tão grande entre os iranianos.

“Tanto o general Soleimani, como o Abu Mehdi Al Muhandis (paramilitar iraquiano), foram dois mártires, que dedicaram suas vidas em prol do povo muçulmano, de forma simples, sem regalias. Tinham extrema confiança da população, com efeito no coração, mente e atitude do povo”, conta o paulista.

Em Qom, cidade de mais de 1,2 milhão de habitantes, não houve restrições de circulação, nem recomendações para cuidados especiais. No noticiário local, o tom é essencialmente nacionalista, ao abordar o assassinato de Soleimani como um atentado ao país.

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“Os jornais daqui cobrem a partir de sua própria visão, bastante nacionalista. Trazem uma visão de que foi  um atentado ao Irã, ao povo iraniano, e não só à uma pessoa ou outra, especificamente”, conta o paulista Roger Chiconeli Alves, de 32 anos, vizinho de Ranieri.

Natural de Carapicuíba, interior de São Paulo, Alves mora com a mulher e uma filha de um ano. Vive há três anos no Irã, onde foi para estudar persa e ciências islâmicas. Conta que não pretende sair do país, devido aos desdobramentos recentes, e que o sentimento dos iranianos, além de tristeza, é de indignação.

“Antes do ataque do Irã às bases usadas pelos EUA no Iraque, havia uma maior inconformidade. Agora, percebo que eles respiram um pouco mais aliviados”, diz Alves.

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