Rota da Seda 2.0: a posição estratégica de Chongqing nos planos de Xi Jinping
O plano de Xi Jinping para redesenhar o comércio global sob liderança chinesa passa pela transformação dessa cidade
Entre arranha-céus que brotam das montanhas e rios que cortam a neblina como lâminas, Chongqing parece saída de um filme de ficção científica. Mas seu papel é bem real: a cidade se transformou na engrenagem invisível que move trens, dados e mercadorias pela nova teia comercial costurada por Xi Jinping, um plano que pode redefinir a economia global.
Desde 2011, Chongqing vem se consolidando como uma plataforma logística avançada. Foi a partir dali que partiu o primeiro trem de carga direto entre a China e a Alemanha, em uma rota que corta a Ásia Central até Duisburgo, conectando indústrias chinesas à União Europeia em apenas 15 dias.
Essa linha férrea, hoje operando com milhares de viagens por ano, simboliza o novo eixo terrestre da Nova Rota da Seda, ou Belt and Road Initiative (BRI), como é conhecida globalmente.
Chongqing, que antes era considerada um centro industrial de segunda linha, agora rivaliza com Xangai e Shenzhen como polo de exportação de tecnologia e equipamentos de ponta.
Parte desse salto logístico se deve à decisão política de tornar Chongqing uma das quatro municipalidades diretamente administradas por Pequim, um status reservado a cidades de importância estratégica.
Isso garantiu maior autonomia administrativa, acesso direto a subsídios federais e uma via rápida para a experimentação de políticas econômicas e industriais.
Sob o guarda-chuva da BRI, a cidade recebeu investimentos em infraestrutura, tecnologia e transporte multimodal, tornando-se o elo central entre o oeste da China e seus parceiros comerciais na Ásia, Europa e África.
Além da rota ferroviária sino-europeia, Chongqing também se conecta ao Sudeste Asiático por meio do chamado Corredor Internacional Terra-Mar.
Essa rede combina trens, portos e rotas terrestres para escoar mercadorias até o golfo de Beibu e, dali, para países como Vietnã, Singapura e Indonésia.
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É uma cartografia logística desenhada para contornar gargalos marítimos e garantir à China uma malha de exportação resiliente, em um cenário global cada vez mais volátil.
A Zona de Livre Comércio de Chongqing, implementada em 2017, consolidou esse papel. Com incentivos fiscais, digitalização de processos alfandegários e atração de multinacionais, a cidade passou a reunir montadoras, centros de pesquisa e plataformas logísticas.
O setor de alta tecnologia, notadamente carros elétricos, baterias e semicondutores, cresceu exponencialmente. A BYD, por exemplo, estabeleceu ali um de seus maiores complexos industriais, exportando veículos elétricos para dezenas de países a partir do interior chinês.
Mas a transformação de Chongqing vai além da economia. No discurso oficial do governo central, ela encarna a ideia de “desenvolvimento coordenado”, que busca reduzir desigualdades regionais e fortalecer a presença estatal no oeste chinês.
A cidade passou a atrair talentos, startups e centros universitários, tornando-se um laboratório urbano para as políticas de Xi Jinping. Para o presidente, a BRI não é apenas uma iniciativa econômica: é uma projeção geopolítica do “sonho chinês”, uma civilização moderna, próspera e conectada globalmente.
É claro que o projeto encontra resistências. Países europeus têm reavaliado sua adesão à BRI à luz das tensões com os Estados Unidos. Problemas alfandegários e logísticos persistem em rotas que passam por países instáveis.
Ainda assim, a aposta de longo prazo continua. A multiplicação de corredores logísticos com origem em Chongqing mostra que a China pretende consolidar sua presença não apenas como fabricante global, mas como arquiteta das rotas comerciais do futuro.
*o repórter viajou a convite do China Media Group





