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Restabelecimento de confiança marca agenda política de Dilma nos EUA

Superado o mal-estar com a espionagem americana, a presidente brasileira se reunirá com Barack Obama para consumar o processo de reaproximação iniciado no Panamá

A presidente Dilma Rousseff desembarcou no sábado em Nova York e hoje começa sua agenda oficial com uma missão estratégica para a política externa do país: reconquistar a confiança do governo americano. A retomada do diálogo de alto nível será o principal objetivo da viagem de quatro dias que Dilma fará aos Estados Unidos. Na terça-feira, quando se encontrar com Barack Obama na Casa Branca, a presidente terá a chance de consumar o processo de reaproximação que teve início durante a Cúpula das Américas, realizada em abril, no Panamá. Na ocasião, os presidentes se reuniram para discutir a agenda bilateral e disseram ter superado as desavenças desencadeadas pelas revelações do ex-analista de inteligência da Agência de Segurança Nacional americana (NSA, em inglês), Edward Snowden.

Em 2013, documentos da inteligência americana vazados para a imprensa mundial mostraram que a NSA monitorou as comunicações pessoais de Dilma e as discussões de assuntos internos da Petrobras. Em retaliação, a presidente atropelou os esforços do Itamaraty e, em uma decisão voltada para o cenário eleitoral da época, cancelou a visita de Estado a Washington que estava programada para outubro daquele ano. “Nos Estados Unidos, a reação de Dilma – particularmente o cancelamento da viagem – foi considerada excessiva e uma demonstração de certa ingenuidade do Brasil nas políticas internacionais”, disse o brasilianista Peter Hakim, presidente emérito do instituto de análise política Inter-American Dialogue.

Fernanda Magnotta, coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP, afirma que há dois anos havia uma pré-disposição muito maior do governo americano em buscar um alinhamento produtivo com o Brasil. “Se lá atrás havia essa expectativa, hoje o desequilíbrio é muito claro. O Brasil preza muito mais pela reaproximação do que os Estados Unidos. Para o Brasil há um caráter estratégico, para os Estados Unidos é só mais uma reunião. Não existe nenhuma prioridade nesse encontro da parte deles”, diz a professora que, no entanto, considera “muito importante do ponto de vista simbólico o reestabelecimento da confiança” entre os países. “Toda relação bilateral só consegue avançar para assuntos mais pertinentes na medida em que as partes confiam uma nas outras”, explicou.

Parceria militar – A balança desregulada diminui a expectativa de que acordos concretos sejam anunciados durante a estadia de Dilma nos Estados Unidos. Contudo, apesar de a viagem ter um aspecto essencialmente econômico, é provável que os presidentes aproveitem a oportunidade para firmar parcerias na área militar. Há tempos o Brasil tem procurado compradores para produtos do setor defensivo e interessados em investir neste campo. Ampliar a cooperação militar seria uma forma de dar por superado outro mal-estar criado após os vazamentos de Snowden. O governo brasileiro tinha um acordo de 4,5 bilhões de dólares (mais de 13,5 bilhões de reais) encaminhado com a americana Boeing para adquirir caças F-18, mas desfez o negócio ao selar a compra de 36 aviões da Suécia. As negociações pelas aeronaves já duravam mais de quinze anos.

No início deste mês, o Departamento de Estado americano indicou que o episódio está superado ao autorizar a venda para o Líbano de seis aviões Super Tucanos produzidos pela Embraer. As aeronaves brasileiras contam com peças e tecnologia americana e, por contrato, precisam de aval dos Estados Unidos para serem exportadas. Na quinta-feira, o Senado brasileiro também deu um passo importante para ampliar os laços militares entre as nações. Foram aprovados dois acordos que serão firmados por Dilma e Obama em Washington. Conhecido pela sigla em inglês GSOMIA, um dos pactos trata do compartilhamento de informações sigilosas entre os Exércitos dos dois países. Alinhavado em novembro de 2010, ele estreitará a parceria entre as nações no combate ao narcotráfico, especialmente nas áreas próximas à fronteira brasileira, e permitirá que os Estados Unidos contribuam mais ativamente na segurança das Olimpíadas de 2016. O segundo acordo visa promover a cooperação, troca de informações e experiências em matéria de defesa. “Os dois acordos militares têm grande potencial para incrementar o comércio bilateral no setor”, diz Renata Vasconcellos, diretora de políticas do Brazil-US Business Council, grupo que representa 110 empresas americanas com negócios no Brasil.

Políticas mais incisivas no campo defensivo, porém, deverão passar longe da reunião entre Dilma e Obama. Durante um encontro em Cartagena, na Colômbia, o Comando Sul do Exército americano reclamou da ausência de cooperação da Venezuela no combate ao narcotráfico em seu território. Estados Unidos e Brasil são os dois principais destinos da cocaína traficada no continente, mas o atual cenário político da região diminui a importância do assunto para os dois governos.

Na quinta-feira, a Casa Branca confirmou que a situação venezuelana será um dos temas centrais na agenda dos presidentes. “A Venezuela representa uma iminente crise política e de segurança para o continente. A discussão girará em torno de ações conjuntas que poderão ser adotadas pelas nações para lidar com uma futura instabilidade no país. Além disso, os Estados Unidos gentilmente ampliarão a percepção de que o Brasil não tem feito o suficiente para lidar com a questão dos abusos de direitos humanos na Venezuela”, declarou Adam Isacson, associado sênior para políticas de segurança regionais no Escritório de Washington para a América Latinas (Wola). Para o brasilianista Peter Hakim, Washington será mais assertivo ao pedir que Brasília contribua para a libertação dos opositores presos pelo governo de Nicolás Maduro. “Não é hora de falar em conceitos e generalizações, mas sim de olhar para ações mais específicas”.

Cuba – Principal aliada do governo venezuelano, Cuba vive um momento oposto ao de Caracas nas relações com os Estados Unidos. Havana tem ampliado os laços diplomáticos com Washington e negocia as últimas pendências para que as embaixadas nos dois países possam ser reabertas. A negociação, embora não necessite do envolvimento de Brasília, deve ser discutida pelos mandatários devido ao protagonismo regional do Brasil. “O Brasil pode ajudar a integrar Cuba de forma mais efetiva nas instituições regionais e hemisféricas”, disse Hakim. Analistas políticos acreditam que a prisão americana de Guantánamo também possa pautar as conversas. Mas é improvável que o Brasil siga os passos do vizinho Uruguai e aceite acolher detentos suspeitos de terrorismo.

Outros temas – Agendas mais específicas inevitavelmente acompanharão Dilma nos Estados Unidos. A questão da educação, principalmente pontos envolvendo centros de pesquisa conjuntos e intercâmbios estudantis, será abordada pelos presidentes. O turismo também será debatido, uma vez que os visitantes brasileiros têm movimentado a economia das cidades localizadas ao sul dos Estados Unidos. Está previsto o anúncio da participação do Brasil no programa Global Entry, que facilita a entrada de viajantes frequentes em território americano com o uso de certificação digital em aeroportos. A medida pode ser vista como uma primeira etapa no processo para eliminar a obrigatoriedade dos vistos nos passaportes, mas a isenção ainda está longe de ser discutida mais ativamente pelos países. Outro assunto que passará distante da pauta oficial é o apoio que Washington poderia expressar ao ingresso do Brasil como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, uma aspiração vinda ainda do governo Lula e que morreu de inanição sob a batuta de Dilma.