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Resgate dos 33 mineiros chilenos completa 1 ano

Por Por Paulina Abramovich 12 out 2011, 15h59

A noite anterior à saída foi tranquila para os 33 mineiros presos a mais de 600 metros de profundidade por 69 dias em uma jazida no norte do Chile. Poucas horas depois, seu espetacular resgate foi acompanhado por milhões de espectadores comovidos pelo drama humano e pela proeza técnica.

Em 22 horas, os 33 emergiram à superfície, alguns em silêncio, outros gritando sua liberdade, mas todos mudados para sempre.

Um ano depois da odisseia, o mineiro Luis Urzúa – chefe do turno e último a deixar a mina – lembra como viveu esses momentos finais no interior da mina de San José.

Por sua liderança e capacidade de controlar a ansiedade, Urzúa foi escolhido para ser o último dos mineiros a deixar a jazida.

“Foi avaliada a parte médica e psicológica, e eu era o mais indicado para ser o último a sair”, relata à AFP.

“Na noite anterior, fui descansar. Tinha ficado toda a noite anterior sem dormir. Consegui dormir muito bem, melhor do que nunca”, completa esse mineiro, topógrafo de profissão, de 55 anos.

Durante 17 dias, pensavam que todos estavam mortos, e depois quando conseguiram levar à superfície um papel que dizia “estamos bem no refúgio, os 33”, começou outra história: dar a eles elementos para sobreviver e conseguir perfurar um túnel suficientemente largo para fazê-los sair.

Três perfuradoras trabalharam durante semanas e finalmente uma delas conseguiu chegar ao local onde estavam, sãos e salvos, os mineiros presos por um deslizamento de terra em 5 de agosto de 2010.

A operação era arriscada: depois dos testes finais, eles começaram a ser içados, um a um, em uma cápsula de metal batizada de Fênix 2.

A operação foi iniciada às 00h11 de 13 de outubro e terminou 22 horas depois, com todos os mineiros libertados, entre efusivos e emocionados reencontros familiares.

“Nunca tive problemas de ansiedade, nem agora nem antes. Quando você é mineiro, você pode combater esses medos”, conta Urzúa sobre o momento do resgate. “Cada um esperou com tranquilidade a sua vez, estávamos vivos, estávamos bem”, completou.

O primeiro a sair foi Florencio Avalos, que chegou à superfície depois de uma viagem de cerca de 15 minutos na cápsula, com óculos que protegiam seus olhos que ficaram por mais de dois meses no escuro.

Devagar, de forma silenciosa, abraçou Byron, seu filho de 7 anos, aos prantos, depois sua mulher Mônica, depois o presidente Sebastián Piñera.

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A cápsula desceu e trouxe Mario Sepúlveda, o mais extrovertido do grupo, que ao subir gritou um sonoro “Viva o Chile, merda!”, antes de declarar que nas profundezas esteve “com Deus e com o Diabo”.

O processo de resgate seguiu com os 31 mineiros restantes.

Sobre a subida na estreita cápsula de metal, de apenas 66 cm de diâmetro e cerca de 4 metros de altura, Urzúa disse: “Para mim foi como subir em um elevador, apesar de com mais barulho” por causa das pedras.

Cerca de 600 pessoas participaram do resgate, lideradas por um grupo de seis resgatistas da estatal Codelco, que conseguiu realizar uma façanha sem precedentes na história da mineração.

Nos arredores, cerca de 3.500 pessoas, entre familiares, jornalistas e fotógrafos de todo o mundo, aguardavam o resgate.

A operação foi acompanhada por milhões de telespectadores de todo o mundo, entre eles o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e o papa Bento XVI. “Uma vitória da engenharia humana”, diria pouco depois o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon.

Uma vez fora, as câmeras perseguiam os mineiros e suas famílias, em um frenesi midiático que atingiu os trabalhadores de forma diferente.

“Nós tínhamos a televisão lá dentro. Sabíamos o que estava acontecendo, mas não calculávamos a magnitude do que foi. Nunca imaginamos que havia tanta expectativa”, conta Urzúa.

Um ano depois, os 33 protagonistas dessa epopeia tentam ainda se reinserir na sociedade. Enquanto Urzúa dá palestras para contar sua experiência, Edison Peña – famoso por imitar Elvis Presley – passou por uma clínica de reabilitação por conta do alcoolismo.

O mais novo do grupo, Jimmy Sánchez, 20 anos, disse há um mês à AFP que estava mais tranquilo dentro da mina, sendo ainda atormentado por aqueles 69 dias de aprisionamento. Agora está sem emprego e “assimilando tudo o que aconteceu”.

“Lá dentro estava mais tranquilo. Agora estou estranho. Mudei, não sou o mesmo de antes. Antes eu era mais alegre, saía sempre, gostava de conversar. Agora não saio e me sinto sozinho”, relatou.

Em contrapartida, seus companheiros Darío Segovia e Osmán Araya se juntaram para vender frutas e verduras.

“Estamos trabalhando em equipe, queremos nos unir mais, os 33”, disse Urzúa, que coordena as atividades do grupo e atua como porta-voz.

O resgate terminou quando Urzúa subiu e foi recebido por Piñera: “lhe entrego meu turno, como tínhamos combinado”, disse de forma solene. “Espero que isso não volte a acontecer. Obrigada a todos”.

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