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Repressão na Síria deixa 14 mortos

O regime sírio, impassível diante das pressões internacionais, enviou suas tropas nesta quinta-feira para reprimir a revolta popular, matando 14 civis, no dia seguinte às revelações feitas na ONU sobre violações “flagrantes” dos Direitos Humanos no país.

As novas sanções impostas pelos Estados Unidos e as missões em Damasco do chanceler turco e de uma delegação de três países membros não permanentes do Conselho de Segurança (Brasil, Índia e África do Sul) não parecem ter abrandado o regime do presidente Bashar al-Assad.

A situação é bem oposta, Assad se mostrou novamente determinado a acabar com a revolta, embora tenha reconhecido que cometeu “erros” ao combater o movimento de contestação que começou em meados de março.

A revolta também não parece diminuir. Além de manifestações diárias durante o mês sagrado do Ramadã, os militantes convocaram, através da rede Facebook, uma grande mobilização para a próxima sexta-feira, com o lema “Nos submeteremos apenas a Deus”.

Mas a revolta sofreu um duro golpe nesta quinta-feira com a detenção em um café de Damasco, segundo militantes, de Abdel Karim Rihaui, presidente da Liga Síria de Direitos Humanos.

O Observatório Sírio de Direitos Humanos anunciou a detenção à AFP, citando um militante que também estava no café no momento da prisão de Rihaui.

A detenção ocorreu às 15h00 (09h00 de Brasília) no café Havana da capital síria.

Rihaui, de 43 anos, dirige a Liga Síria de Direitos Humanos desde 2004. Militante muito ativo, principalmente desde o começo da revolta popular contra o regime do presidente Bashar al-Assad, ele nunca tinha sido detido antes.

Graças à rede de militantes da Liga no país, Rihaui se tornou uma fonte importante de informações para a imprensa estrangeira, que tem seu trabalho no país restringido pelas autoridades.

No dia seguinte à retirada das tropas da cidade rebelde de Hama (norte), onde o regime tentou conter a onda de contestação à força, o Exército interveio em Quseir, na província de Homs (centro) e em Saraqeb, na província de Idleb (noroeste), denunciaram os militantes.

Em Quseir, dezenas de tanques entraram na cidade ao amanhecer. Em ataques das forças de ordem 11 civis morreram, vários ficaram feridos e centenas foram detidos, segundo um militante de Homs, cidade que lidera a revolta e onde 17 pessoas perderam a vida na quarta-feira.

No leste do país, em Deir Ezzor, pelo menos três pessoas morreram atingidas por tiros disparados pelas forças de segurança e várias casas foram incendiadas, informou o chefe do Observatório Sírio de Direitos Humanos, Rami Abdel Rahman.

No noroeste, os tanques do Exército e veículos de transporte de tropas entraram em Saraqeb, acrescentou Rahman.

As tropas foram mobilizadas no centro da cidade, iniciaram registros e detiveram “mais de 100 pessoas, sendo 35 crianças”, explicou. Também foi cortado o fornecimento de energia elétrica nesta localidade, onde a cada noite são realizadas manifestações para pedir a queda do regime.

O poder não reconhece a magnitude dos protestos e garante que atua contra “grupos terroristas armados” que causam o caos nas cidades e atacam os civis.

De acordo com as organizações humanitárias, mais de 1.600 civis morreram vítimas da repressão desde 15 de março. O regime indica 500 agentes das forças de segurança mortos.

Na quarta-feira, uma semana depois de uma declaração do Conselho de Segurança da ONU que condenou a repressão na Síria, o subsecretário-geral da ONU, o argentino Óscar Taranco, denunciou “violações flagrantes dos Direitos Humanos”.

A representante americana na ONU, Susan Rice, afirmou que milhares de inocentes foram “assassinados a sangue frio” na Síria.

A ONU não descarta aumentar a pressão sobre o regime de Assad e, para isso, os países ocidentais querem uma nova reunião na próxima semana, embora essa iniciativa possa ser impedida pela Rússia que, apesar de condenar a repressão, opta pelo “diálogo e as reformas”.

Autoridades americanas asseguraram nesta quinta-feira que Washington estuda exigir de maneira explícita a Assad que deixe o poder. Até o momento, os Estados Unidos não pediram a saída do presidente síria, como já foi feito com o líder líbio Muamar Kadhafi.