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Rei Juan Carlos, da Espanha, abdica do trono

Príncipe Felipe, de 46 anos, será coroado o novo monarca espanhol. Em um breve pronunciamento, rei agradeceu ao povo espanhol e disse que abdicou para abrir 'nova etapa de esperança'

(Atualizado às 8h20)

O rei da Espanha, Juan Carlos I, comunicou nesta segunda-feira em cadeia nacional que decidiu abdicar do trono. Em um pronunciamento curto e sóbrio, Juan Carlos disse que decidiu abdicar para “abrir uma nova etapa de esperança na qual se combine a experiência adquirida e o impulso de uma nova geração”. Ele agradeceu ao povo espanhol e disse também que sempre tentou ser o “rei de todos”, em uma possível referência às regiões do País Basco e da Catalunha, que abrigam movimentos separatistas. Sobre seu herdeiro, o príncipe Felipe de Bourbón, o rei afirmou que ele “encarna a estabilidade”. “Ele [Felipe] tem a maturidade, a preparação e o senso de responsabilidade para assumir a liderança do Estado”, disse Juan Carlos. Sobre a grave crise econômica que o país atravessa, o rei afirmou que ela “desperta um impulso para a renovação, para corrigir erros”.

“Estes anos difíceis nos permitiram fazer um balanço autocrítico de nossos erros e de nossas limitações como sociedade”, disse, com semblante sério, em um discurso simples gravado no Palácio de Zarzuela de Madri. “Tudo isto despertou em nós um impulso de renovação, de superação, de corrigir erros e abrir caminho a um futuro decididamente melhor”, completou. “Para forjar este futuro, uma nova geração reclama com justa causa o papel protagonista”, completou, antes de destacar que “hoje merece passar à primeira fila uma geração mais jovem, com novas energias, decidida a empreender com determinação as transformações e reformas que a conjuntura atual está demandando”.

O anúncio da renúncia foi feito hoje pelo primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, em pronunciamento no Palácio de Moncloa, sede do Executivo, transmitido pela televisão. Após 39 anos de reinado, o monarca teria tomado a decisão por causa de problemas de saúde. Aos 76 anos, Juan Carlos considera que está cada vez mais debilitado, de acordo com a imprensa espanhola, e já há algum tempo estudava a possibilidade de ceder a coroa a seu filho.

“Sua majestade o rei Juan Carlos acaba de me comunicar sua decisão de abdicar”, afirmou Rajoy. “Espero que em um prazo muito breve, a Justiça espanhola possa nomear como rei aquele que hoje é o Príncipe de Astúrias”, acrescentou o premiê, segundo o jornal espanhol El País. Rajoy acrescentou que convocou para esta terça-feira um Conselho de Ministros extraordinário para tramitar a renúncia, mediante a aprovação de uma Lei Orgânica, como estabelece a Constituição espanhola.

“Quero transmitir que este processo se desenvolverá em um contexto de estabilidade institucional e como prova da maturidade de nossa democracia”, disse Rajoy. Em seu discurso, o premiê fez elogios ao rei, a quem chamou de “um defensor incansável dos nossos interesses”. Ele declarou ainda que “o rei deixa uma impagável dívida de gratidão a todos os espanhóis”. A expectativa é de que Juan Carlos dê mais detalhes sobre os motivos de sua abdicação quando se dirigir ao país. De acordo com Rajoy, o rei lhe disse estar convencido de que este é o melhor momento para que possa acontecer com toda normalidade a transmissão da coroa ao Príncipe de Astúrias.

Juan Carlos I chegou ao trono espanhol em 22 de novembro de 1975. Ele teve papel de destaque na transição da ditadura de Francisco Franco para a democracia. Seu filho, Felipe de Bourbón, se tornou Príncipe das Astúrias, título do herdeiro da coroa espanhola, em janeiro de 1977.

Corrupção – A decisão de Juan Carlos de renunciar ao trono ocorre pouco tempo depois de denúncias de corrupção atingirem a imagem da família real espanhola. Recentemente, a infanta Cristina de Bourbón, filha mais nova do rei, se viu envolvida em denúncias de desvio de dinheiro no Instituto Nóos, administrado por ela e seu marido Iñaki Urdangarin. Em fevereiro, Cristina depôs à Justiça no caso – foi primeira vez que um membro da família real espanhola testemunhou judicialmente.

Em 2011, o jornal El País revelou o escândalo de corrupção mostrando que o Instituto Nóos recebeu contratos no valor aproximado de 6 milhões de euros (18,3 milhões de reais) de entidades públicas para cumprir trabalhos de incentivo ao esporte que nunca foram realizados. Há mais de dois anos a família real excluiu Cristina e Urdangarin de todas as cerimônias oficiais.

Dan Kitwood/Getty Images

A família real espanhola na Abadia de Westminster, rainha Sofia, príncipe Felipe e a princesa Letizia, em Londres A família real espanhola na Abadia de Westminster, rainha Sofia, príncipe Felipe e a princesa Letizia, em Londres

A família real espanhola na Abadia de Westminster, rainha Sofia, príncipe Felipe e a princesa Letizia, em Londres (/)

A família real espanhola: a rainha Sofia (esquerda), o futuro monarca Felipe (centro) e sua mulher, a futura rainha Letizia

Biografia – Juan Carlos de Bourbón e Bourbón foi rei da Espanha sob o nome de Juan Carlos I durante 39 anos, um dos reinados mais longos da história, desde que foi proclamado em 22 de novembro de 1975. O rei nasceu em Roma no dia 5 de janeiro de 1938, primeiro filho homem de dom Juan de Borbón e Battenberg e de dona María das Mercedes de Bourbon e Orleans. Após passar sua infância na Itália, Suíça e Portugal, em 9 de novembro de 1948 pisou pela primeira vez na Espanha, onde fixou sua residência, afastado de sua família.

Na Espanha ele completou sua formação militar nas academias de Terra, Mar e Ar de 1957 a 1959. De 1960 a 1961 estudou direito, economia, política e filosofia. No dia 14 de maio de 1962 se casou, em Atenas, com a então princesa Sofía, primogênita do rei Paulo da Grécia. Desta união nasceram três filhos, as infantas Elena (1963) e Cristina (1965) e dom Felipe, nascido em 1968. Em 22 de julho de 1969, por proposta do general Franco, Juan Carlos foi designado sucessor na chefia de Estado, com o título de príncipe.

Como príncipes da Espanha, dom Juan Carlos e Sofía visitaram diferentes cidades e regiões do país e viajaram oficialmente a 36 nações de quatro continentes, como embaixadores de honra da Espanha. Em 22 de novembro de 1975 foi proclamado rei e pronunciou sua primeira mensagem ao país, no qual expressou seu desejo de ser “rei de todos os espanhóis”. Cinco dias mais tarde, em cerimônia religiosa aconteceu a denominada “exaltação” ao trono da Espanha, com o nome de Juan Carlos I.

A partir desse momento, se tornou um dos artífices da democratização do país, que começou com a Lei da Reforma Política de 1976. Outro momento de destaque foi a aprovação por referendo da Constituição em 6 de dezembro de 1978. O rei teve uma intervenção decisiva para parar a tentativa de golpe de Estado do dia 23 de fevereiro de 1981, com a qual ganhou o respeito e a admiração, tanto na Espanha como no exterior.

Tal como expressa a Constituição em seu artigo 56, é o chefe do Estado, símbolo de sua unidade e permanência, arbitra e modera o funcionamento regular das instituições e assume a mais alta representação do Estado espanhol nas relações internacionais. Ostenta, além disso, o comando das Forças Armadas. Em 22 de novembro de 2005, dom Juan Carlos completou trinta anos à frente da chefia do Estado, período no qual liderou “uma nova etapa da história da Espanha”‘, cumprindo o desejo que expressou durante sua proclamação.

Nas festividades por ocasião de seu 70º aniversário, em 9 de janeiro de 2008, o rei afirmou ter conseguido “uma Espanha unida e diversa, moderna e plural, próspera e solidária”. Juan Carlos imprimiu um novo estilo nas relações com a região ibero-americana, com sua presença a todas a Cúpulas Ibero-Americanas realizadas desde 1991, salvo a de 2013, e lembrou sempre a vocação europeia da Espanha, encorajando seu processo de integração na Europa.

Grande amante de esportes, ele participou dos Jogos Olímpicos de Munique de 1972, representando a Espanha na competição em uma modalidade de vela. Juan Carlos foi operado nove vezes, cinco delas de 2010 a 2012. Suas operações foram por motivos de saúde e por acidentes relacionados com a prática esportiva. Em maio de 2010, ele teve de extirpar um nódulo pulmonar, e em abril de 2012, sofre uma cirurgia para corrigir uma fratura no quadril. O rei tinha sofrido uma queda durante uma viagem de lazer a Botsuana, na África. Ele foi muito criticado por estar se divertindo enquanto a Espanha passava por um momento crítico da crise econômica, com manifestações em diversas cidades do país. O rei então pediu desculpas publicamente, afirmando: “Sinto muito; me equivoquei ao deixar o país em um momento de crise e não voltará a acontecer”.

(Com agência EFE)