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Reeleito, desafio de Chávez é se adaptar ao Mercosul

Cheio de problemas internos, coronel será obrigado a aceitar acordos com parceiros do bloco ou abandoná-lo em nome de seu ‘socialismo do século XXI’

Por Gabriela Loureiro 10 out 2012, 11h38

Não foi desta vez que Davi (Henrique Capriles Randonski) venceu Golias (Hugo Chávez) nas eleições presidenciais na Venezuela, uma metáfora bíblica usada pela oposição na campanha. Mas apesar da vitória, Chávez tem muito mais motivos para se preocupar do que para comemorar, visto a quantidade de desafios que se descortinam à frente de seu quarto mandato consecutivo. O mais novo membro do Mercosul terá que adaptar seu ‘socialismo do século XXI’ às negociações já em curso do bloco com a União Europeia, ou terá de deixá-lo. Além disso, com uma economia em frangalhos, terá de reduzir as tão populares (e socialistas) políticas públicas, e dar mais espaço para o setor privado.

“Haverá mudanças importantes no continente. A Venezuela, ao fazer parte do Mercosul, terá que fazer as políticas do bloco, e o Brasil pretende retomar suas negociações com empresas estrangeiras, entre o Mercosul e a UE, o que envolve redução de tarifas de parte a parte e convergência de políticas”, disse ao site de VEJA José Botafogo Gonçalves, ex-embaixador especial do Brasil para assuntos de Mercosul e atual vice-presidente do Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais). “Eu acho muito difícil que o Mercosul se adapte ao Chávez. Então vai ser um grande teste, ou o Chávez muda ou a Venezuela sai do Mercosul”, prevê.

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O projeto nacional-populista de Chávez foi colocado em prática ao longo dos últimos 14 anos por meio de expropriações, invasões de terra e confisco de bens patrimoniais. Mas, como as regras do jogo têm de ser aplicadas a todos no Mercosul – pelo menos na teoria -, Chávez será forçado a ter um comportamento menos errático com as empresas privadas, honrando os compromissos assumidos.

Com queda na produção e consequente redução do número de empregados, além da necessidade de financiamento público, o setor privado é uma das maiores vítimas do chavismo. Por meio da estatização, Chávez quer manter tudo sob a sua asa, mas deverá enfrentar dificuldades para gerar emprego, manter os salários e melhorar a infraestrutura sem a participação das empresas privadas.

“Tudo passa pelas mãos do governo”, disse ao site de VEJA o especialista em política latino-americana e professor de Relações Internacionais da ESPM, Mario Gaspar Sacchi.

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Ele explica que Chávez só permite investimento oriundo de países que sigam a cartilha do tal ‘socialismo do século XXI’, rejeitando qualquer participação norte-americana. E ignorando o fato de que os Estados Unidos são o principal comprador de petróleo da Venezuela e o principal exportador de manufaturados. “Resultado: a qualidade do que se produz no país é péssima”.

Problema contábil – No controle do país com as maiores reservas de petróleo no mundo, o coronel resolveu transferir grande parte dos recursos das exportações de petróleo para programas sociais e para a ajuda a países aliados, sem se preocupar em reinvestir no mais importante setor da economia venezuelana. O resultado é o sucateamento da estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA), que sofreu com uma série de acidentes nos últimos anos. No balanço da empresa, lucros reduzidos e aumento do endividamento.

O panorama obrigará Chávez a promover um ajuste na política de benefícios de seu governo, avalia Denilde Holzhacker, professora e coordenadora de Relações Internacionais das Faculdades Rio Branco. “O equilíbrio entre o discurso socialista e o discurso de controle de gastos não é fácil, e isso pode aumentar a insatisfação da base eleitoral de Chávez, justamente os beneficiários desses programas sociais”.

A sustentação proporcionada pela queda nos índices de pobreza está acompanhada do aumento no desemprego entre a classe média, outro nó que Chávez terá de desatar. “Com a proposta socialista, o governo fez uma politica de desapropriação e nacionalização que afetou a credibilidade do país, gerou uma retirada de investimentos externos e aumentou o desemprego. E o estado, que é o grande empregador, não consegue absorver a mão de obra”, analisa Holzhacker.

Mas inevitáveis mudanças só devem ser colocadas em prática no ano que vem, depois das eleições estaduais marcadas para dezembro. O adiamento seria uma estratégia para evitar prejuízos ao Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV).

Enfrentar uma oposição fortalecida depois das eleições presidenciais será outro desafio para o caudilho. Ele venceu uma disputa apertada contra Capriles, resultado que deverá ter efeitos sobre o futuro da Venezuela.

“Embora ele tenha sido reeleito, a diferença é bem menor do que se esperava, a oposição se mostrou pela primeira vez mais unida e isso terá um peso importante na condução da administração do estado”, avalia Gonçalves.

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