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Razão e sensibilidade: o prestígio da primeira-ministra da Nova Zelândia

Admirada pelo estilo direto mas gentil, Jacinda Ardern é avaliada como a governante mais eficiente na luta contra o coronavírus

Por Julia Braun - Atualizado em 24 Apr 2020, 10h42 - Publicado em 24 Apr 2020, 06h00

No exame dos governos mais eficientes na gestão da pandemia provocada pelo novo coronavírus, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, tem colhido louros pela baixa taxa de mortalidade no país, que acaba de iniciar o relaxamento gradual das regras de isolamento social. Mas, na ponta do lápis, a chefe de governo mais bem-sucedida nessa guerra é outra mulher: Jacinda Ardern, 39 anos (fará 40 em julho), primeira-ministra da Nova Zelândia, onde o fechamento de fronteiras já em março, a implantação de quarentena rigorosa antes mesmo do primeiro óbito e a testagem em massa resultaram na mais minguada lista de casos confirmados e mortes entre as economias desenvolvidas: na quinta-feira 23, eram 1 112 infectados e dezesseis mortos. Ardern, que já era admi­rada pelo estilo ao mesmo tempo firme e suave, uma mistura de razão e sensibilidade, ganhou um prestígio mundial nunca visto em sua pequena nação.

No poder desde outubro de 2017, quando assumiu a liderança do desprestigiado Partido Trabalhista a dois meses das eleições e promoveu uma virada radical nas intenções de voto (o fenômeno foi batizado de jacindomania), Ardern ficou conhecida por uma tragédia: em março do ano passado, um terrorista abriu fogo em duas mesquitas na Nova Zelândia e matou 51 pessoas enquanto transmitia a carnificina via streaming no Facebook. A primeira-ministra reagiu na mesma hora, condenando o ataque contra imigrantes e refugiados. “Eles são nós”, proclamou. Visitou a cidade do atentado com a cabeça coberta por um véu e encaminhou um projeto de lei para proibir armas potentes — tudo isso sem pronunciar o nome do assassino, para não lhe dar notoriedade. Cimentou a aura de simpatia e informalidade ao ocupar seu lugar no plenário da Assembleia-Geral da ONU, em setembro de 2018, com a filhinha de 3 meses, Neve, e o companheiro, o apresentador de TV Clarke Gayfor, a tiracolo — Neve estava lá porque precisava ser amamentada e Gayfor (sem gravata), para cuidar dela enquanto a mamãe trabalhava.

NÃO SAIA DE CASA - Isolamento respeitado: rodovia vazia no acesso à movimentada marina de Auckland, na Nova Zelândia Bradley White/Getty Images

Criada na religião mórmon, que abandonou — hoje se diz “agnóstica” —, Ardern faz política desde os tempos de faculdade (é formada em comunicação social). Define-se como social-democrata e progressista e defende um punhado de causas, todas sob a aba do politicamente correto: casamento de homossexuais (no ano passado, desfilou na Parada Gay de Wellington), meio ambiente, aborto, liberação da maconha, ensino obrigatório do idioma maori, dos aborígines neozelandeses, e redução das desigualdades sociais. “Ela humanizou o governo e aprofundou nosso senso de comunidade no processo”, diz Emily Beausoleil, analista política da Universidade Victoria, de Wellington.

Diante do colossal desafio do novo coronavírus, a Nova Zelândia, sob seu comando, foi um dos primeiros países a oferecer ajuda financeira à população mais afetada. Ela mesma, aliás, cortou 20% de seu salário e dos ministros em “solidariedade” às vítimas. O ambicioso objetivo do governo é erradicar o Sars-CoV-2 da Nova Zelândia. Diante dos bons resultados, parte do comércio, escolas e creches estão voltando a funcionar. “Identificamos a possibilidade de eliminação completa do vírus logo no início e há boas chances de que ela ocorra”, afirma Nick Wilson, professor de saúde pública e um dos maiores especialistas em epidemiologia do país. Ajuda, é claro, o fato de a Nova Zelândia ter menos de 5 milhões de habitantes bem distribuídos em duas ilhas na Oceania.

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Comunicadora de primeira, Ardern passa instruções de forma simples e direta em seus pronunciamentos e em lives no Facebook, em que responde a dúvidas do público em tempo real. Quando o ministro da Saúde, David Clark, foi flagrado com a família na praia, ela recebeu críticas por remo­vê-lo do cargo mas mantê-lo na equipe que cuida da pandemia. “O que ele fez é errado e não tem desculpa. Mas agora minha prioridade é a luta coletiva contra a Covid-19”, rebateu. Uma pesquisa no início de abril mostrou que 88% dos neozelandeses confiam no governo para lidar com a crise. Com tudo isso, por incrível que pareça, a vitória nas eleições de setembro não está garantida. A popularidade da primeira-ministra não se estende a seu partido, que vai mal nas pesquisas. Se os votos nos outros parlamentares da legenda não forem suficientes, Ardern sai. Seria uma pena.

Publicado em VEJA de 29 de abril de 2020, edição nº 2684

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