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Quem são os políticos que lideram a coalizão anti-Netanyahu em Israel

Encabeçada pelo centrista Yair Lapid e pelo milionário de direita Naftali Bennett, a aliança recém-formada assumirá o poder se for confirmada no Parlamento

Por Julia Braun Atualizado em 3 jun 2021, 15h01 - Publicado em 3 jun 2021, 14h37

Um grupo improvável de políticos israelenses chegou a um acordo nesta quarta-feira 2 para formar uma coalizão que pode derrubar Benjamin Netanyahu do posto de primeiro-ministro, após 12 anos no poder. A aliança, que engloba partidos de extrema direita, centro, esquerda e até uma legenda árabe, é liderada pelo ex-jornalista e ex-ministro das Finanças Yair Lapid e terá o direitista Naftali Bennett como o próximo premiê se for confirmada pelo Parlamento.

Lapid, que é o chefe da legenda de centro Yesh Atid, foi o político encarregado pelo presidente Reuven Rivlin de negociar a formação de um governo depois que Netanyahu falhou em sua primeira tentativa de construir uma coalizão. O Likud, do atual premiê, foi o partido mais votado nas eleições de março, mas não conseguiu eleger o número mínimo de deputados necessário para controlar o Parlamento sem uma aliança.

Poucas horas antes do prazo final para as negociações e em uma manobra quase mágica, Lapid conseguiu diblar o complexo e fragmentado sistema político israelense e unir partidos com ideologias e objetivos muito diversos em torno de sua coalizão. O bloco de mudança – como foi apelidado pela imprensa local – conta com membros de sete partidos além do Yesh Atid: são três forças da direita, duas do centro, duas da esquerda e, como grande novidade, um partido da minoria árabe.

Além de Lapid, porém, há uma outra grande personalidade na coalizão, que deve assumir o cargo de premiê pelos dois primeiros anos de governo: o ex-aliado de Netanyahu Naftali Bennett.

Segundo o que foi acordado durante as negociações entre os partidos que fazem parte da aliança, o cargo de primeiro-ministro será revezado entre Bennett e Lapid pelos próximos quatro anos (ou pelo período que durar o governo). Dessa forma, o líder da direita ocuparia o posto pelos primeiros dois anos, enquanto o centrista ficaria responsável pela pasta de Relações Exteriores.

A aliança ainda precisa passar por um processo de aprovação no Parlamento, que deve acontecer até a próxima semana. A princípio, com o apoio de todos os deputados das legendas que fazem parte da coalizão, o governo seria aprovado e empossado. Porém, ainda há temores de que algum dos membros possam romper com os demais colegas até o momento da votação.

“Os partidos que fazem parte da nova coalizão buscam homogeneidade dentro da heterogeneidade”, diz o cientista político André Lajst, da ONG StandWithUs. “Ao mesmo tempo em que existe uma diversidade ideológica muito grande entre eles, todos querem impedir que Netanyahu continue no governo, ainda que por diferentes motivos”.

Quem é Naftali Bennett?

O político da extrema direita Bennett, de 49 anos, anunciou suas intenções de unir forças com Lapid no domingo 30. “Depois de quatro eleições e mais dois meses, foi provado a todos nós que simplesmente não há governo de direita possível liderado por Netanyahu. É uma quinta eleição ou um governo de unidade”, disse.

Filho de imigrantes judeus americanos, o político é um judeu ortodoxo moderno e será o primeiro chefe de Estado religioso do país. Ele é casado e tem quatro filhos. Serviu por seis anos no Exército de Israel e depois de se formar em Direito fundou uma empresa de software que rapidamente deu lucro, tendo sido avaliada em 145 milhões de dólares quando foi vendida alguns anos depois. Aos 33 anos, ficou milionário.

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Começou sua carreira na política em 2006 como aliado de Netanyahu. Foi assessor-sênior e chefe de gabinete do atual primeiro-ministro e também dirigiu os ministérios de Educação e Defesa em governos recentes. Deixou a política por um período para integrar o Yesha, o principal movimento de colonos na Cisjordânia. Como líder do movimento rejeitou abertamente a ideia de um Estado palestino independente na Cisjordânia e em Gaza – ideias que defende até hoje.

Ideologicamente, Bennett está muito mais próximo de Netanyahu do que de Lapid, apesar de ser considerado mais radical em algumas questões. “Sou mais direitista do que Bibi, mas não uso o ódio ou a polarização como uma ferramenta”, disse recentemente em uma entrevista.

O advogado de formação voltou para a política em 2013 como líder do partido da extrema direita Jewish Home. Em 2018 se juntou a Ayelet Shaked, outro líder da direita da política israelense, para formar o partido Nova Direita. A legenda não ultrapassou o limiar eleitoral para entrar no Parlamento nas eleições de 2019, mas na votação de março garantiu seis das 120 cadeiras disponíveis.

“Se de fato chegar ao cargo de primeiro-ministro, Bennett não tomará as decisões sozinho. Ele dependerá do concentimento e da assinatura dos demais membros do governo”, diz André Lajst. “Isso pode gerar problemas em algumas questões mais espinhosas como temas regiliosos e do processo de paz com os palestinos”.

Quem é Yair Lapid?

Yair Lapid, de 57 anos, é filho de pai jornalista e mãe escritora. Seguiu a carreira dos pais e nos anos 2000 se tornou apresentador de um dos talk shows mais assistidos do país. Em 2012 abandonou a televisão para lançar seu partido Yesh Atid e foi acusado de usar sua ‘imagem de galã de cinema’ para seduzir a classe média.

Ainda assim se elegeu parlamentar pela primeira vez em 2013 e foi ganhando espaço entre os eleitores indecisos e de centro. Atuou como ministro das Finanças entre 20013 e 2015, mas logo se consolidou como uma das maiores vozes de oposição a Netanyahu.

Lapid é um radical laico que defende a solução dos dois Estados para o conflito com os palestinos. Exibe um programa reformista na linha do presidente francês, Emmanuel Macron. Seus eixos são a luta contra a corrupção e contra a preponderância dos ultraortodoxos, que representam 12% da população, frente à maioria laica.

Nas primeiras eleições de 2019 e 2020 o nome do jornalista foi ofuscado por Benny Gantz, com quem ele decidiu fazer uma aliança em prol de um plano para tirar Bibi do poder. Quando Gantz se uniu a Netanyahu em uma tentativa fracassada de uma aliança ampla durante a pandemia, rompeu com o general e se aventurou sozinho nas legislativas de março. O Yesh Atid então alcançou a segunda posição, com 17 deputados, atrás do Likud.

“Yair Lapid abriu mão do cargo de primeiro-ministro e aceitou distribuir os demais principais ministerios para outros partidos para poder atrair suas lideranças e conseguir retirar Netanyahu do poder”, diz Lajst. “Dessa forma todas as legendas envolvidas na coalizão ganham cargos importantes, até mesmo as da esquerda”. 

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