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Quatro anos após acordo de paz, violência desperta novamente na Colômbia

Entre janeiro e 15 de setembro de 2020 foram contabilizados 57 massacres com 230 vítimas em todo o país

Por Julia Braun e Caio Mattos - Atualizado em 18 set 2020, 17h51 - Publicado em 18 set 2020, 17h06

Quatro anos após um conflito que devastou o país por quase seis décadas, a Colômbia enfrenta um novo ciclo de violência. Com a explosão no número de massacres em áreas rurais, surgimento de novas guerrilhas e a população nas ruas para protestar contra a violência policial em Bogotá, a perspectiva de harmonia parece cada vez mais distante.

O acordo de paz assinado em setembro de 2016 entre o governo e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) levou à entrega de mais de 7.000 armas da guerrilha às autoridades, além da transformação do grupo armado em um partido político que ainda utiliza a mesma sigla. O pacto foi celebrado em todo o mundo e rendeu ao então presidente, Juan Manuel Santos, um Nobel da Paz.

Alguns componentes do acordo, porém, nunca foram cumpridos. Ex-integrantes da guerrilha acusam o governo de não seguir os termos da divisão da terra e monitoramento de áreas rurais para impedir o surgimento de novos grupos armados. Sem fiscalização e controle de algumas dessas regiões, dissidentes da facção principal das Farc e outros líderes criminosos fundaram novas guerrilhas para ocupar o vácuo de poder deixado pelos combatentes.

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“Estamos vivendo uma momento de continuação e ao mesmo tempo aprofundamento das dinâmicas violentas de alguns anos atrás, mas em circunstâncias completamente novas”, diz Robert Karl, historiador especializado em América Latina e autor de Forgotten Peace: 
Reform, Violence, and the Making of Contemporary Colombia (Paz Esquecida: Reforma, Violência e Construção da Colômbia contemporânea, em tradução livre).

Hoje, operam o Exército de Libertação Nacional (ELN), última guerrilha reconhecida no país, o Clã do Golfo, remanescente dos paramilitares, e dissidências das Farc. Há ainda o tráfico organizado de drogas, que é agora largamente controlado por cartéis mexicanos.

Como consequência, nos últimos anos o país vem registrando um crescimento no número de homicídios e crimes violentos cometidos por esses grupos. Entre janeiro e 15 de setembro de 2020 foram contabilizados 57 massacres, resultando em 230 pessoas assassinadas em toda a Colômbia, segundo o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento da Paz (Indepaz), que considera massacres os episódio de violência que resultam na morte de pelo menos três pessoas.

Já a Organização das Nações Unidas contabilizou 33 chacinas até agosto, contra 36 em todo o ano de 2019. Os responsáveis por 78% dos crimes são grupos de crime comum ou organizado, a grande maioria (80%) em departamentos com “enclaves de produção ilegal de coca”, detalhou o escritório de direitos humanos da ONU. Na maioria dos casos, ninguém foi responsabilizado formalmente pelas mortes.

Isolamento e controle de áreas rurais

No começo do século, as Farc e os paramilitares eram exércitos poderosos que usavam os massacres para forçar os deslocamentos maciços e impor o controle de comunidades rurais por meio da obediência social e do medo. Em 2002, 14.000 civis morreram pelo conflito armado na Colômbia, segundo o Registro Único de Vítimas (RUV). Esse é o recorde no país.

Após um massacre atribuído às Farc que matou 17 camponeses no início de janeiro de 2003, uma procissão fúnebre pelos mortos viaja por San Carlos, a noroeste de Bogotá, Colômbia – 19/01/2003 Fernando Vergara/AFP

Os novos grupos que vem ocupando o vácuo de poder deixado pelos grupos armados não têm pretensões de suplantar o Estado, mas tiram proveito da reconquista dos territórios. Sua ideia se concentra no controle dos narcocultivos e das rotas do tráfico. Em alguns casos optam mais por aterrorizar do que conquistar as comunidades.

Durante a pandemia de coronavírus, a situação se tornou ainda mais séria. Guerrilhas e gangues que controlam pequenas cidades em zonas rurais, principalmente na costa oeste do país, passaram a usar a necessidade do cumprimento do isolamento social para parar o vírus como forma de ampliar seu controle.

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“Na região do Choco, que depende principalmente dos rios para o transporte, grupos armados bloqueiam as saídas e confinam vilarejos inteiros”, diz Robert Karl, professor do Keck Graduate Institute, nos Estados Unidos. Aqueles que desrespeitam as ordens ou tentam confrontá-las, são vítimas de violência e assassinatos. Os massacres também são usados como forma de impor medo.

Durante o conflito com as Farc, era comum que os guerrilheiros expulsassem moradores de vilarejos e obrigassem o deslocamento de milhares de pessoas. Mas também havia casos de isolamento forçado como os que vemos atualmente”, afirma Karl.

Caixões são exibidos em protesto contra massacres no sudoeste do país em Plaza Botero, Colômbia – 24/08/2020 Fredy Builes/Getty Images

Negligência do governo

Em agosto, as Nações Unidas e o governo colombiano fizeram um alerta para o aumento da violência. A administração de Iván Duque, porém, vem sendo acusada de negligência em tentar solucionar a situação.

No final de semana de 22 e 23 de agosto, ao menos 17 pessoas foram mortas em massacres. Cinco estudantes, um deles de apenas 14 anos de idade, foram encontrados alvejados e esfaqueados em uma comunidade afro-colombiana ao sudeste de Cali, na região sudoeste do país. Alguns dias depois, oito jovens de classe média foram mortos numa festa em Samaniego, a 500 quilômetros de distância. Outros três jovens que pertenciam ao povo indígena Awá foram encontrados mortos no mesmo departamento, Nariño, logo após.

Após os casos, Duque afirmou que esses atos não devem ser qualificados como massacres, mas sim como “homicídios coletivos”. Logo depois, classificou a morte de três militares em Norte de Santander como massacre. Suas declarações e contradições despertaram críticas imediatamente.

Duque é aliado do ex-presidente Álvaro Uribe, atualmente em prisão domiciliar acusado de manipulação de testemunhas e investigado por manter relações com milícias armadas de autodefesa durante seu governo. O atual mandatário, assim como Uribe, foi eleito defendendo uma política de força militar intransigente contra a guerrilha e a violência, além de ter se oposto ao processo de paz com as Farc.

“O atual governo comanda uma uma política de apatia em relação às zonas rurais, que muitas vezes são deixadas à mercê dos grupos armados que impõe sua autoridade localmente”, diz Robert Karl. “O acordo com as Farc não foi totalmente bem-sucedido, especialmente quando se trata de punir elementos do Estado que apoiavam a violência. A atual administração, assim como a gestão anterior, não quer se responsabilizar por isso também”.

Duque tem apenas mais dois anos para tentar cumprir as promessas de seu governo e combater à violência. Com o tempo se esgotando, a comunidade internacional se mostra cada vez menos otimista com a possibilidade de paz duradoura.

Crise na cidade

Além da violência nas áreas rurais, o governo ainda lida com a instabilidade das zonas urbanas, afetadas por protestos contra a violência policial. Um terço dos 156 Comandos de Atenção Imediata (CAI) da polícia de Bogotá foram incendiados e destruídos em protestos na capital colombiana no final de agosto.

As manifestações e os distúrbios foram despertados pela morte de Javier Ordóñez, de 46 anos, pai de dois adolescentes. O homem foi abordado por dois policiais no noroeste de Bogotá na madrugada de 9 de agosto. Um vídeo de dois minutos e 18 segundos mostra as autoridades o imobilizando e disparando contra ele pelo menos cinco tiros cmo uma arma de choque. Ouve-se Ordóñez suplicando, repetidas vezes: “Chega, por favor”.

As semanas que se seguiram foram de confrontos entre manifestantes e policiais e as unidades do CAI se tornaram os principais alvos dos ativistas. Ao todo, 13 pessoas morreram e mais de 400 ficaram feridas.

Manifestação contra a violência policial em Medelín, Colômbia Fredy Builes/Getty Images
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