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Prolongamento da crise indica fortalecimento do regime de Assad na Síria

Por Da Redação - 13 jan 2012, 13h36

Javier Martín.

Damasco, 13 jan (EFE).- Apesar de sua juventude, Amira, sunita de confissão, já é mãe de três filhos e vive com dificuldades para chegar ao fim de mês em um dos bairros mais pobres de Damasco.

Ali, a luta pela sobrevivência cotidiana se tornou ainda mais complicada desde que em março de 2011 explodiu uma revolta civil que, reprimida a sangue e fogo, já custou a vida de mais de cinco mil pessoas, segundo a ONU.

Os cortes no abastecimento elétrico se prolongam cada vez mais, está cada vez mais difícil conseguir combustíveis e gás de uso doméstico, e os preços experimentaram uma alta que os analistas cifram em torno de 15%.

‘Aqui há muitas pessoas que estão sofrendo, que querem que isto acabe’, lamentou Amira enquanto olhava com inquietação para todas as direções procurando as forças do regime nas sombras.

Após anos de hermético e ferrenho socialismo árabe, o regime de Bashar al Assad apostou em 2004 em uma política econômica de abertura e liberalização, com a qual pretendia tirar a Síria de seu isolamento e atrair o investimento estrangeiro, em particular de seus vizinhos árabes.

A iniciativa foi, em parte, bem-sucedida. Segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), a economia síria cresceu a um ritmo médio de 5% durante os últimos cinco anos, estimulada por setores como a construção civil, o turismo e o mercado de hidrocarbonetos.

O rápido desenvolvimento mudou a imagem triste e obsoleta de Damasco, onde começaram a aparecer os produtos ocidentais e a proliferar os grandes projetos, como a construção de uma gigante torre de vidro e aço agora abandonada no centro da cidade.

Por outro lado, também disparou a corrupção e se aprofundaram ainda mais as amplas diferenças sociais, razões encravadas agora no coração dos protestos.

‘A decisão do regime de reprimir as primeiras manifestações pacíficas, negar o descontentamento e acusar grupos armados estimularam e prolongaram o conflito’, explicou um acadêmico sírio que por razões de segurança pediu anonimato.

‘E a persistência da violência e a instabilidade afetará cada vez mais à economia dos menos favorecidos, mas também dos grandes comerciantes. Principalmente depois que o regime não soube reagir a tempo’, comentou.

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Açodado pela crise, o Governo tentou no último mês de setembro frear a crise com a venda de uma grande quantidade de divisas, além de recuperar alguns dos subsídios abolidos durante a época de bonança.

Seu objetivo, aparentemente não alcançado, era manter estável o preço da lira síria, que nos últimos meses teria perdido boa parte de seu valor, e tentar evitar que a deterioração das condições de vida nas grandes cidades diminua a popularidade de Assad.

Mais sucesso parece ter tido, até o momento, sua estratégia para cercar a oposição e evitar seu maior temor: que os protestos cheguem à capital e outras grandes cidades.

O aparente controle das urbes mais importantes permite à máquina do regime divulgar ainda a ideia que se trata de um movimento de protesto quase marginal, reduzido à ação de grupos armados apoiados por estrangeiros.

No entanto, aparecem cada vez com mais frequência sinais que a conjuntura começa a mudar.

Testemunhas dos bastiões rebeldes do nordeste do país – às quais se impede o acesso de jornalistas – afirmam que aumenta diariamente o número de cidadãos que se somam à campanha de desobediência civil promovida por grupos opositores.

Além disso, a aparente contradição entre as teses do regime e a situação no terreno parece ter acelerado o número de deserções nas Forças Armadas, embora a cúpula ainda pareça sólida.

Considerado um dos maiores exércitos da região, as forças armadas sírias foram durante décadas o pilar do regime de Assad. No entanto, nos últimos anos perdeu importância para as unidades de elite e para os serviços secretos.

‘Tudo indica que a crise pode prolongar-se. A chave é o controle das grandes cidades. O regime conserva ali uma massa fiel’, considerou o acadêmico.

Sorridentes nas movimentadas ruas do bairro cristão de Bab Toma, no centro histórico de Damasco, a maior parte da população louva o líder quando algum jornalista autorizado se aproxima.

Comerciantes e clientes negam que os preços tenham subido, e os poucos que admitem a alta, assim como os cortes de energia, dizem que é algo normal e passageiro.

‘É claro que houve um problema econômico, mas as altas e baixas são normais. Somos otimistas e esperamos que melhore em breve. Todos os sírios apoiam a reforma do presidente’ declarou um vendedor de telas em Bab Toma. EFE

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