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Professora enfrenta ‘último ditador da Europa’ em eleições no domingo

Svetlana Tikhanovskaya, que exilou seus dois filhos, iniciou campanha após seu marido ter sido barrado de competir e preso

Por Caio Mattos - Atualizado em 3 set 2020, 19h42 - Publicado em 8 ago 2020, 09h00

Svetlana Tikhanovskaya é professora de inglês, intérprete e mãe de duas crianças. Ela também é a principal candidata da oposição nas eleições deste domingo, 9, na “última ditadura da Europa”. O país em questão é a Bielorrússia, uma ex-república da União Soviética espremida no leste europeu entre a Rússia e a Polônia.

Se não for barrada de última hora pelas autoridades eleitorais, que contam com um histórico de intervenções arbitrárias, Svetlana enfrenta neste pleito o presidente Alexander Lukashenko.

O “último ditador da Europa”, que atualmente repercute na mídia pelo seu negacionismo da pandemia da Covid-19, comanda a Bielorrússia desde 1994, quando foram realizadas as primeiras eleições do país, três anos após sua fundação. 

A Bielorrússia nunca foi governada por alguém que não Lukashenko. Svetlana promete mudar isso e sem se manter muito tempo no poder: a principal promessa de campanha dela é a libertação de presos políticos e a convocação de um novo pleito em até seis meses.

“Eu não preciso de poder, mas meu marido está atrás das grades. Eu precisei esconder os meus filhos. Estou cansada de aguentar, ficar quieta e ter medo”, disse Svetlana em um comício em 30 de julho na capital, Minsk.

O maior evento político da Bielorrússia nos últimos 10 anos: Mais de 63.000 pessoas compareceram ao comício de 30 de julho de Svetlana Tikhanovskaya em Minsk – 30/07/2020 Vasily Fedosenko/Reuters

Os opositores barrados

Sem experiência na política, Svetlana começou sua campanha após seu marido, o youtuber Sergei Tikhanovsky, ter sua candidatura barrada em maio pela comissão eleitoral.

Sergei estava entre os candidatos mais fortes da oposição após meses em excursão denunciando a pobreza e a corrupção no país em vídeos para o seu canal, Um país para a vida. Sua marca era um chinelo grande que carregava para “esmagar a barata”, em referência a Lukashenko.

Além de ser barrado eleitoralmente, o youtuber também está preso desde maio. Ele é acusado pelas autoridades de planejar “distúrbios em massa” junto a outros 33 supostos mercenários russos.

Além de Sergei, outros dois proeminentes candidatos da oposição foram barrados de se candidatar: o ex-banqueiro Viktor Babariko e o diplomata Valery Tsepkalo. O ex-banqueiro foi detido em julho sob acusações de peculato e fraude. O diplomata fugiu em julho para Moscou após, segundo ele, sofrer ameaças de prisão e de perda da guarda dos filhos, que teriam sido abordados na escola por autoridades do governo.

A candidata

“O fato de Svetlana ser admitida nas urnas diz que Lukashenko e seus conselheiros não estavam levando ela a sério”, disse a VEJA a cientista política Sofya Orlosky, do think-tank Freedom House.

De fato, no final de maio, por volta do início da campanha de Svetlana, Lukashenko disse que uma mulher na Presidência “colapsaria” o país e que a Bielorrússia não está “amadurecida o suficiente” para eleger uma mulher.

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“Eu acho que eles me deixaram concorrer para poderem rir de mim”, disse Svetlana em entrevista ao Financial Times. De acordo com o jornal, ela acredita ter se beneficiado dessa situação.

Com o apoio dos principais opositores barrados da eleição, a candidata formou uma aliança política com a gerente de campanha do ex-banqueiro, Maria Kolesnikova, e com a esposa do diplomata, Veronika Tsepkalo.

Veronika Tsepkalo, Svetlana Tikhanovskaya e Maria Kolesnikova fazem seus gestos de mão simbólicos durante um comício de campanha em Maladzechna – 31/07/2020 Sergei Gapon/AFP

“Esse trio era inimaginável há um ano, mas agora está reunindo os maiores comícios da história da Bielorrússia”, avaliou Orlosky.

Mais de 63.000 apoiadores compareceram ao comício do trio em 30 de julho, segundo a organização não-governamental Viasna. Nunca tantas pessoas se reuniram em um evento político na Bielorrússia desde uma onda de protestos no final de 2010 que sucederam as eleições daquele ano.

‘A última ditadura da Europa’

Comparar em números a popularidade de Svetlana à de Lukashenko neste pleito é difícil. Como reportou o jornal independente bielorrusso Nasha Niva, o governo proíbe entidades “não credenciadas” de publicar pesquisas de opinião pública relacionadas a eleições e, até mesmo, à aprovação de Lukashenko.

Orlosky estimou ser “provável” que Svetlana vença no voto popular. “O problema é saber o quão longe Lukashenko pode ir para fraudar as eleições”, destacou a cientista política.

O presidente da Bielorrússia, Alexander Lukashenko, participa das comemorações do Dia da Independência em Minsk, na Bielorrússia – 03/07/2020 Vasily Fedosenko/Reuters

Em 2001, na primeira reeleição de Lukashenko, a Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), entidade internacional que fiscaliza eleições no continente, denunciou “falhas fundamentais” no processo eleitoral, entre elas censura da mídia — a Bielorrússia ocupa a 153ª posição de 180 países no ranking de liberdade de imprensa feito pela organização Repórteres sem Fronteiras.

Casos de intimidação a opositores e de bloqueios arbitrários de candidaturas já aconteciam em 2001, segundo a OSCE.

Nas últimas eleições parlamentares, em 2019, fiscais da OSCE relataram urnas fraudadas e, em alguns casos, foram explicitamente impedidos de checá-las. Na ocasião, todos os 110 assentos da câmara baixa do Parlamento foram conquistados por apoiadores de Lukashenko.

As irregularidades na contagem dos votos são possíveis porque Lukashenko controla a comissão eleitoral, segundo uma análise da organização não-governamental Radio Liberty. Apenas 21 dos mais de 60.000 membros da comissão em 2019 vinham da oposição.

Dentre outras ferramentas de repressão, estão o controle do Estado sobre o único provedor de internet do país e a proibição de protestos em espaços públicos sem a autorização do governo.

Além disso, desde um referendo em 1996, os decretos presidenciais de Lukashenko têm o mesmo poder de leis aprovadas pelo Parlamento. E, um outro referendo, em 2004, aboliu o limite para reeleições.

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