Procurador-geral da Bolívia que investigava aliado de Milei e Bolsonaro é preso após sanção dos EUA
Roger Mariaca foi detido em operação que investiga suposta organização criminosa ligada ao narcotráfico
O procurador-geral da Bolívia, Roger Mariaca, foi preso na noite de quarta-feira, 30, no Aeroporto Internacional de Viru Viru, em Santa Cruz, dois dias depois de ter seu visto para os Estados Unidos revogado. Ele foi detido ao lado do procurador departamental de Santa Cruz, Alberto Zeballos, também alvo da medida americana. As autoridades bolivianas afirmam investigar uma suposta organização criminosa que teria atuado para proteger traficantes de drogas dentro de órgãos do sistema de Justiça. Ao todo, 14 pessoas foram detidas na operação, segundo o governo.
A operação foi conduzida por policiais e incluiu buscas em instalações do Ministério Público em Sucre e Santa Cruz, além da residência de Mariaca. Funcionários da Procuradoria denunciaram a ação como um “sequestro” e questionaram a legalidade do procedimento. Segundo autoridades locais, o objetivo da operação é apurar suspeitas de lavagem de dinheiro, tráfico de drogas e organização criminosa. Mariaca nega as acusações.
A prisão ocorre em meio a uma disputa que envolve também o argentino Fernando Cerimedo, consultor político ligado ao presidente da Argentina, Javier Milei, e que ganhou projeção no Brasil por sua atuação junto ao entorno político do ex-presidente Jair Bolsonaro. Mariaca comandava investigações contra Cerimedo na Bolívia. O argentino é investigado por suposta tentativa de feminicídio contra a advogada Nadia Beller, além de suspeitas de lavagem de dinheiro e outros crimes. Cerimedo nega as acusações.
Sanção dos Estados Unidos
Na segunda-feira, 28, o governo de Donald Trump havia anunciado a revogação do visto de Mariaca, acusando-o de corrupção relacionada ao narcotráfico. A medida atingiu autoridades, ex-autoridades e outras pessoas de Bolívia, Colômbia, Equador e Peru, em uma ofensiva de Washington contra corrupção e organizações criminosas na América Latina. No caso boliviano, o Departamento de Estado também citou outros integrantes do Judiciário e do Ministério Público.
Após a decisão, Mariaca acusou Washington de interferência nas investigações conduzidas pelo Ministério Público boliviano e afirmou que não interromperia os processos sob sua responsabilidade. Entre eles estava o caso contra Cerimedo. O procurador também negou ter ligações com organizações de narcotráfico e defendeu a soberania da Bolívia.
A atuação de Mariaca no caso Cerimedo havia colocado o procurador no centro de uma investigação com repercussões políticas internacionais. Cerimedo foi um dos articuladores digitais associados à direita latino-americana e tornou-se conhecido no Brasil durante as eleições de 2022, quando participou de transmissões nas quais alegava, sem apresentar provas, que as urnas eletrônicas haviam sido fraudadas.
Acusações de Sebastián Marset
A operação também ocorre após a divulgação de declarações do narcotraficante uruguaio Sebastián Marset, capturado na Bolívia em março. Em gravações que circularam nesta semana, Marset afirmou ter relações com Mariaca e acusou o procurador de lhe fornecer informações sobre investigações. Em outro trecho, disse ter pago US$ 500 mil para obter proteção e permanecer no país.
As declarações, porém, são acusações feitas pelo próprio Marset e não constituem, por si só, comprovação das alegações.





