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Prisioneiros executados acusaram sauditas de obter confissões sob tortura

Em documentos obtidos pela CNN, condenados afirmaram que cartas de confissão foram forjadas por torturadores

Alguns dos homens executados pela Arábia Saudita nesta semana acusaram as autoridades locais de terem forjado suas confissões e praticado tortura para obtê-las, segundo documentos do processo de 2016 obtidos pela emissora americana CNN.

Na terça-feira 23, o governo saudita executou 37 homens condenados por crimes relacionados ao terrorismo. Um deles, Khaled Abdulkarim Saleh Al-Tuwaijri, foi crucificado. Os outros 36 foram decapitados por golpe de cimitarra ou fuzilamento. Dois deles tiveram o corpo atado no alto de postes para servir de exemplo.

O Ministério do Interior não explicou por que Tuwaijri recebeu a pena de crucificação, mas atribui a todos os condenados a responsabilidade por ataques com explosivos a instalações de segurança e a cooperação com “organizações inimigas”.

A Justiça saudita afirmou também que todos os acusados confessaram seus crimes. Segundo documentos oficiais obtidos pela CNN sobre os casos de 26 dos homens executados, contudo, os réus alegaram durante seu julgamento em 2016 que as confissões foram forjadas e obtidas sob tortura.

Alguns dos suspeitos chegaram a dizer que os próprios torturadores assinaram suas confissões e que eles apenas forneceram suas impressões digitais para o documento.

“Essas não são minhas palavras”, disse um dos acusados, Munir al-Adam, de 27 anos, durante o julgamento, segundo os documentos. “Eu não escrevi a carta. Ela é falsa, escrita pelo interrogador com sua própria mão.”

Outro prisioneiro executado, Hussein Mohammed al-Musallam, disse ao tribunal que sofreu várias lesões – entre elas, um nariz, uma clavícula e uma perna quebrados.

“Nada nessas confissões está correto e não posso provar que fui forçado a fazê-lo”, disse Musallam, segundo os documentos. “Mas há relatórios médicos do hospital da prisão e peço para convocá-los. Eles mostram os efeitos da tortura em meu corpo.”

“Fui forçado a assinar para que a tortura parasse”, disse, de acordo com a CNN.

Questionado pela emissora sobre os casos de tortura e confissões forjadas, o governo saudita ainda não respondeu aos pedidos de resposta.

A maioria dos prisioneiros executados nesta semana eram membros da minoria xiita do país, que protesta regularmente contra a marginalização política e econômica que o grupo religioso sofre diante do governo sunita.

Dos 26 réus citados nos documentos obtidos pela CNN de 2016, onze foram considerados culpados de espionagem em nome do Irã. Outros 14 foram condenados por formar uma “célula terrorista” durante os protestos contra o governo na cidade de Awamiya em 2011 e 2012.

O mais jovem dos homens executados foi Abdulkareem al-Hawaj, segundo a Anistia Internacional. Ele foi acusado de participar de protestos violentos aos 16 anos de idade. Sua sentença de morte provocou protestos na ONU, que pediu que o país revogasse a pena.

A Arábia Saudita aplica a pena capital aos condenados por terrorismo, homicídio, estupro, roubo armado e tráfico de drogas. O país está entre os que mais aplicam essa punição e é apontado por organizações internacionais como um dos mais distanciados do conceito de direitos humanos.

Desde o início deste ano, pelo menos 100 pessoas foram executadas na Arábia Saudita, segundo a emissora Al Jazeera. No ano passado, foram 149.

Segundo uma nota do Ministério do Interior sobre as execuções desta semana, os veredictos foram confirmados pela corte de apelação da Justiça.

“O Ministério do Interior reitera que este país não desistirá de dissuadir qualquer um que possa pensar em ameaçar a segurança ou a estabilidade assim como os sauditas e os residentes em seus territórios, acrescentando que continuará resoluta e firmemente a buscar a Justiça por meio da aplicação das regras da sagrada Sharia a qualquer um que cruze os limites impostos por Alá”, diz a nota.

“Também alerta qualquer um que cometa atos de terrorismo e criminosos que a Sharia prescreve punições”, completa o texto do Ministério do Interior.

As sentenças foram cumpridas em Riad, nas cidades sagradas de Meca e Medina e nas províncias de Qassim e do Leste, onde se concentra a comunidade xiita.