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Prisão de ativista argentina acende tensão entre Macri e papa Francisco

A Igreja Católica teme que Mauricio Macri e seus aliados políticos possam estar determinados a acabar com os movimentos sociais na Argentina

A prisão de uma ativista argentina por corrupção tem gerado tensão entre o novo presidente da Argentina, Mauricio Macri, e o papa Francisco. Milagro Sala é a comandante da Túpac Amaru, organização que oferece assistência a famílias necessitadas na província de Jujuy, no norte do país, e foi detida no mês passado por acusações de fraude, extorsão e associações ilícitas.

O papa, que já foi arcebispo de Buenos Aires, é um grande defensor dos movimentos sociais argentinos, associações de trabalhadores desempregados, ativistas dos direitos humanos e ambientais. A prisão de Milagro causou preocupação entre membros da Igreja Católica argentina, que acreditam que Macri e seus aliados políticos possam estar determinados a acabar com esses movimentos sociais, presentes principalmente nas províncias mais pobres do país.

“Temos de tomar cuidado para não escorregar no que Francisco chama de ‘xenofobia sutil’ sob o disfarce da nobre batalha contra a corrupção”, escreveu Dom Jorge Lozano, um dos líderes argentinos da Igreja Católica, em uma coluna no jornal La Nación. O bispo se ofereceu para mediar com o governo a libertação de Milagro. O caso da ativista argentina presa também deve ser um dos tópicos abordados na visita de Mauricio Macri a Roma, marcada para o dia 27 de fevereiro.

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Nenhum outro ativista argentino ganhou tanto destaque durante os governos de Cristina Kirchner como Milagro. Sob a sua liderança, a associação Túpac Amaru cresceu e hoje possui um orçamento equivalente a 196 milhões de reais e uma frota de 40 veículos. Com subsídios do governo de Cristina, a organização de Milagro distribuiu moradias para os quase 70.000 membros da Túpac Amaru – quase todos indígenas – e empregou cerca de 5.000 trabalhadores em uma província de somente 673.000 pessoas.

Entretanto, a associação também já foi acusada de utilizar táticas violentas na sua luta pelos direitos dos cidadãos de Jujuy. As alegações incluem a morte de uma menina de cinco anos de idade em um tiroteio envolvendo membros da Túpac Amaru, tráfico de drogas e ataques violentos contra um juiz, um jornal e delegacias de polícia.

Com o fim do governo de Cristina e o corte dos subsídios fornecidos pelo seu governo, a Túpac Amaru organizou uma longa ocupação do lado de fora do palácio do governo de Jujuy. Os protestos incomodaram o novo governo da província, e Milagro foi presa em 16 de janeiro. A ocupação inicial foi cancelada e transferida para a capital Buenos Aires. Os apoiadores da causa instalaram tendas na Plaza de Mayo, em frente ao gabinete presidencial de Macri.

Milagro Sala chegou a conhecer o papa Francisco, quando o pontífice, então conhecido como Jorge Bergoglio, visitou as regiões em que a associação Túpac Amaru atua. A ativista também visitou Francisco em Roma, em 2014, e recebeu de presente uma imagem da Virgem Maria como agradecimento por seu trabalho na Argentina.

(Da redação)