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PRI apresenta cara nova para voltar ao poder após 12 anos

O Partido Revolucionário Institucional, que governou o México por 71 anos, pode voltar à Presidência. A economia vai bem. Resta vencer o narcotráfico

Por Duda Teixeira 29 jun 2012, 18h53

Era a ditadura perfeita, segundo a definição feita pelo escritor peruano Mario Vargas Llosa em um debate no canal mexicano Televisa, em 1990. Por 71 anos, o Partido Revolucionário Institucional (PRI) governou o México sem a necessidade de um grande aparato repressivo ou do uso intensivo da censura. O segredo estava na distribuição clientelista da riqueza do petróleo, nas eleições fraudulentas e na retórica de esquerda, que hipnotizou os principais escritores e intelectuais por décadas. O presidente do país, que acumulava o cargo de chefe do PRI, comandava a bancada do partido nas câmaras legislativas e indicava o próprio sucessor. A hegemonia só acabou com a posse, em 2000, de Vicente Fox, seguido por seu ministro Felipe Calderón, ambos do católico Partido da Ação Nacional (PAN). Neste ano, o PRI pode reassumir a Presidência. Seu candidato, Enrique Peña Nieto, de 45 anos, é o favorito para a eleição de 1º de julho, com 43% das intenções de voto. O segundo lugar é disputado por Andrés Manuel López Obrador, do PRD, de esquerda, e por Josefina Vázquez Mota, do PAN, ambos mais de 15 pontos porcentuais atrás de Peña Nieto. Nos doze anos em que o PRI esteve ausente do poder, o México avançou muito. O órgão eleitoral se distanciou do Poder Executivo, vozes divergentes se multiplicaram na imprensa, partidos passaram a competir em igualdade de condições e a economia continuou sua abertura para o mundo. O PRI acompanhou essa evolução e também mudou, embora preserve muito de seus antigos traços.

Recusar-se a reconhecer as farsas eleitorais do passado é um dos pecados mais comuns entre os priistas. “É um abuso dizer que o PRI governou por meio de fraudes”, disse Peña Nieto a VEJA. Em uma das últimas maracutaias, em 1988, os resultados que davam vitória à oposição foram totalmente alterados durante a apuração, após a alegação de uma queda no sistema de computadores. Nunca foi publicada uma contagem oficial dos votos. Quem tinha 15 anos naquela eleição hoje está para fazer 40. Não por acaso, Peña Nieto é muito popular entre os mais jovens. “Eles não têm memória dos anos de autoritarismo, nem das recorrentes crises econômicas”, diz a cientista política Joy Langston Hawkes, do Centro de Investigação e Docência Econômicas, na Cidade do México.

Desvencilhado dos erros do passado, Peña Nieto se beneficiou do descontentamento atual com a criminalidade. Desde meados dos anos 80, quando os americanos aprimoraram a vigilância no Oceano Pacífico e no Caribe, rotas usadas pelos narcotraficantes colombianos, o México tornou-se a porta de entrada da cocaína para os Estados Unidos. Grupos locais se transformaram em grandes cartéis da droga. No início do mandato do atual presidente, Felipe Calderón, do PAN, um combate frontal começou a ser feito contra os chefões, com a ajuda do Exército e da Marinha. O contingente da Polícia Federal, encarregada de debelar os cartéis, foi aumentado de 5 000 para 30 000 pessoas. Quando se viaja de carro pelo país, é comum ver comboios de mais de trinta veículos militares com soldados mascarados e fortemente armados a caminho de alguma missão de combate aos cartéis. Em seis anos, o narcotráfico provocou 50 000 mortes, principalmente por causa de disputas entre os bandos criminosos. Apesar das baixas, cerca de 80% dos mexicanos apoiam a iniciativa do governo. Contudo, a repressão ao narcotráfico levou os criminosos a tentar outras fontes de lucro, como sequestros e extorsões, o que afetou diretamente a população. Esses são os principais problemas do país, segundo os mexicanos. Para 36% deles, o PRI é o partido com maiores chances de solucionar a violência associada ao narcotráfico, contra 18% que apostam no PAN. Muitos acreditam que o PRI faria um pacto com os cartéis. Lembram-se nostalgicamente do tempo em que isso acontecia e quando os homicídios eram menos numerosos. Peña Nieto nega peremptoriamente qualquer plano de acordo.

Avanços – À exceção do trauma da violência, o México que o próximo governante vai assumir está em boa forma. Com 80% das exportações tendo como destino os Estados Unidos, o país sofreu muito com a crise iniciada em 2008. Desde então, ajudada em grande parte pela assinatura de tratados de livre-comércio com 44 países, a economia começou a se recuperar. Os estados do norte do México estão povoados de fábricas, as maquiladoras, que exportam televisores, carros e turbinas de avião. O maior rival é a China. Há dez anos, o salário de um mexicano era 237% maior que o de um chinês. Agora a diferença é só de 14%, e deve cair para zero em cinco anos. Os investimentos das multinacionais não foram interrompidos, e migrantes que tentavam a sorte nos Estados Unidos decidiram voltar. No ano passado, o número de pessoas que cruzaram a fronteira para “El Norte” igualou o das que fizeram a rota inversa.

A mudança é visível no estado de Zacatecas, uma espécie de Governador Valadares do México. Por causa da emigração masculina, há duas mulheres para cada homem em alguns municípios. Nos últimos quatro anos, vários trabalhadores retornaram. Gerardo González, 39 anos, era jardineiro em Corona, na Califórnia, e sua esposa trabalhava como auxiliar de dentista. Em 2008, voltou para Zacatecas com ela e os três filhos e montou uma granja de suínos. “Pretendo duplicar a produção até o ano que vem e já recebi convite para exportar para a Colômbia”, diz González. Uma das preocupações das autoridades estaduais é com o retorno das crianças. A maioria escorrega no espanhol e tem cidadania americana, o que em tese as impediria de estudar em escolas públicas. A documentação necessária é agilizada por um programa especial do governo. “Como esses pequenos são ótimos em matemática e falam bem o inglês, acabam enriquecendo o aprendizado dos demais”, diz o professor José Alfredo Sanchez Murillo, da Escola Miguel Hidalgo, em San Jeronimo. Quando crescerem, muitas dessas crianças ficarão tentadas a voltar para os Estados Unidos. Outras permanecerão no México. “Há mais oportunidades para os que ficarem, pois o país precisa de mão de obra”, diz Miguel Moctezuma, especialista em imigração da Universidade Autônoma de Zacatecas.

Desde que os governantes do PRI decidiram abrir a economia, nos anos 90, o país tem seguido um caminho avesso a medidas protecionistas, mais comuns ao sul do continente. Dois dos três mais fortes candidatos à Presidência, Peña Nieto e Josefina, criticaram a recente expropriação da petrolífera argentina YPF. Andrés Manuel López Obrador, do PRD, foi omisso no tema, mas mantém um discurso a favor do equilíbrio nas contas públicas. Entre seus eleitores, é comum encontrar defensores da iniciativa privada. “A esquerda mexicana não tem nada a ver com o presidente venezuelano Hugo Chávez ou com o boliviano Evo Morales”, diz o estudante de história Andrés Padilla, de 20 anos, que votará em Obrador. O México mudou muito em doze anos. O PRI, espera-se, também.

Sem alívio para os bandidos

A candidatura de Enrique Peña Nieto foi cuidadosamente construída para levar o PRI de volta à Presidência do México, que ocupou ininterruptamente por 71 anos. Apesar de ser apresentado como alguém capaz de renovar a política nacional, Peña Nieto tem o partido nas veias. Ele foi o quinto homem de sua família, todos priistas, a ocupar o cargo de governador do Estado do México, o mais populoso do país. Peña Nieto conversou com VEJA no aeroporto de San Luis Potosí, após um evento de campanha.

O presidente Felipe Calderón, do PAN, declarou guerra ao narcotráfico. Prendeu os chefes de alguns cartéis e os extraditou para os Estados Unidos. O senhor continuará com essa estratégia?

Vou manter tudo o que é obrigação do estado mexicano, como o combate ao crime organizado. Equivocam-se aqueles que pensam que um ou outro partido não faria essa tarefa. O PRI sempre combateu a delinquência organizada e continuará fazendo isso. Em 1993, durante nossa gestão, foi preso Joaquín Guzmán, El Chapo, um dos narcotraficantes mais poderosos da América Latina, do cartel de Sinaloa. Em 2001, El Chapo fugiu da prisão após corromper os carcereiros (Vicente Fox, do PAN, era o presidente). Resumindo, nós colocamos El Chapo na prisão. Eles o colocaram na lista dos mais procurados do mundo.

Um em cada quatro mexicanos acredita que o PRI negociaria com os traficantes. O senhor faria algum tipo de concessão a eles para diminuir a violência?

De maneira alguma. Impossível. Um acordo não seria um caminho. Combater o crime organizado é uma obrigação irrenunciável do estado mexicano. Não há nenhuma possibilidade de fazermos um pacto ou um acordo com eles.

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O PRI governou o México fazendo uso de fraudes eleitorais e de outros métodos. Qual é a garantia de que, após sua eleição, haverá respeito à democracia?

É um abuso dizer que o PRI governou por meio de fraudes. O partido teve acertos e teve erros. Na maior parte do tempo, alcançou o sucesso em vários temas. Os políticos opositores abusam ao dizer reiteradamente que nós nos mantivemos no poder pela fraude. Não é verdade e nem sequer há provas disso.

Se é um abuso, cabe tomar medidas para coibir esse tipo de crítica?

Não. Entendo que esse tipo de desqualificação é uma prática comum dentro de uma democracia. Pelas regras do jogo, é preciso garantir a participação equitativa de todos os partidos no processo político. O PRI é uma agremiação que aprendeu muitas coisas, que amadureceu e sabe competir numa democracia.

Ao ler as críticas ao senhor nos jornais, fica tentado a formular uma lei para controlar a imprensa, como aconteceu na Argentina?

Por princípio, sou um defensor da concorrência. Creio que deve haver o maior número possível de jornais, de revistas e de canais de televisão. O mesmo deve ocorrer no setor de telecomunicações e em todas as áreas da economia, com várias empresas disputando o mesmo espaço. Em um país onde não existe competição, a população é obrigada a pagar mais caro por produtos e serviços de menor qualidade. Proponho comandar um governo que seja promotor permanente da concorrência.

Quando detinha o monopólio do poder nacional, o PRI também concentrava a economia nas mãos do estado. O senhor pretende nacionalizar empresas?

Sou contra a expropriação de companhias privadas. Isso gera desconfiança nos investidores. Ao contrário, quero ser um estimulador do investimento privado em vários setores, incluindo infraestrutura e energia. Quero adaptar o modelo brasileiro ao México.

A petrolífera estatal Pemex está entre as empresas que abrirão o capital e a gestão ao setor privado?

Sim.

Como o senhor se define ideologicamente? 

Mais importante do que ter uma posição de acordo com alguma ideologia, seja ela de centro, de esquerda ou de direita, eu procuro ter uma visão pragmática. Penso em como apresentar resultados à população e em como melhorar as condições de bem-estar. Se tivesse de definir meu modelo econômico, eu diria que é o de livre mercado com sentido social. Essa postura me permite adotar as políticas que melhor funcionam. Prefiro me orientar pelos bons resultados de medidas tomadas em outros países, independentemente de seu paradigma ideológico.

* Reportagem publicada originalmente na edição 2275 de VEJA, do dia 27 de junho de 2012

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