Assine VEJA a partir de R$ 9,90/mês.

Presidente da Ucrânia decide antecipar eleições para sanar crise

Em acordo anunciado nesta sexta, Yanucovich concordou ainda com formação de governo de coalizão e a retomada de Constituição que reduz poderes

Por Da Redação - 21 fev 2014, 05h11

(Atualizado às 10h30)

O presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovich, anunciou na madrugada desta sexta-feira um plano que tem o objetivo de solucionar a crise no país, que vem sendo sacudido há mais de dois meses por protestos. O chefe de Estado afirmou que o plano, que foi discutido com líderes da oposição, inclui eleições antecipadas, que devem ser marcadas até dezembro, a formação de um governo de coalizão com a oposição nos próximos dez dias e a volta à antiga Constituição do país, que diminui os poderes presidenciais e amplia os do Parlamento.

O anúncio é resultado de conversas mediadas por Estados Unidos, Rússia e União Europeia (UE). Até o momento, a oposição não comentou as medidas – e não é possível prever se os manifestantes, que vêm pedindo a saída imediata de Yanukovich, poderão eventualmente ser convencidos pelos líderes da oposição a aceitar os termos. Segundo a rede ucraniana ICTV, que conseguiu uma cópia da proposta na íntegra, o documento também prevê que os parlamentares do país devem se reunir para discutir até setembro uma reforma para redefinir os poderes do presidente.

Já a Constituição do país deve passar por um processo para reverter nos próximos dias uma série de mudanças realizadas em 2010, que haviam fortalecido a Presidência. Essas mudanças, que foram bastante controversas à época, haviam anulado uma série de emendas aprovadas em 2004, na esteira da Revolução Laranja, que limitavam o poder do presidente do país.

Publicidade

O ministro das Relações Exteriores da Eslováquia, Miroslav Lajcak – que não participou da negociação, mas conversou com chanceleres da UE que estavam no encontro – foi cauteloso sobre o plano. “Claro que os participantes da reunião, meus colegas, advertiram que é ainda prematuro dizer que a crise acabou”, declarou Lajcak.

Essa posição foi compartilhada pelo chanceler francês Laurent Fabius. “Não podemos dizer nada de definitivo. Devemos permanecer prudentes”, postou Fabius em sua conta no Twitter. O ministro das Relações Exteriores da Polônia, Radoslaw Sikorski, que também participa das negociações escreveu em sua conta no Twitter que “este é um momento delicado para o acordo e que é preciso lembrar que não é possível conseguir 100% num trato”.

Um dos principais líderes oposicionistas, o ex-boxeador Vitali Klitschko, afirmou ao tabloide alemão Bild que a oposição está disposto a assinar o acordo, mas que antes é necessário conversar com os manifestantes. “Todos os argumentos precisam ser considerados antes da assinatura”, disse.

Em entrevista à rede BBC, o embaixador russo na União Europeia, Vladimir Chizhov, disse que as propostas de Yanukovich podem ser uma saída para a crise. “Mas ainda não estou convencido de que elas vão satisfazer os extremistas que controlam o que está acontecendo em Kiev e no resto da Ucrânia”, completou.

Publicidade

Leia mais:

​EUA pedem que governo ucraniano retire tropas das ruas

“Estou morrendo”, posta ucraniana baleada no pescoço

Em vídeo, jovem ucraniana diz que ‘povo quer ser livre’

Publicidade

Ucranianos desistem das Olimpíadas de Sochi por mortes em seu país

O anúncio do acordo feito pelo governo ucraniano ocorre depois da capital Kiev presenciar um banho de sangue no pior dia desde o início dos protestos contra o governo de Yanukovich – o momento mais dramático desde a separação da União Soviética. Só nesta quinta-feira, os confrontos entre a polícia e manifestantes deixaram cerca de 100 mortos e 500 feridos – o governo admitiu 77 mortes e 577 pessoas feridas, mas a oposição conta mais óbitos. O clima se aproximou de uma guerra civil, com franco-atiradores disparando contra ativistas, entre os quais também foram usadas armas letais contra a polícia.

Corpos de manifestantes foram levados para a recepção do hotel Ukrania, na Praça da Independência, cobertos com lençóis e guardados por profissionais de saúde que atendiam os manifestantes feridos. Vídeos postados na internet mostram o ponto dramático que a crise atingiu. Em um deles, homens armados efetuam disparos. Em outro, um grupo tenta avançar usando escudos como proteção quando tiros são disparados e algumas pessoas caem feridas no chão. Em seguida, feridos e mortos são carregados em macas improvisadas.

Pressão – O governo dos Estados Unidos exigiu que o presidente Viktor Yanukovitch “retire imediatamente todas as forças de segurança – polícia, atiradores de elite e unidades militares e paramilitares – das ruas” e coloque um fim aos conflitos na capital. Em uma ligação telefônica para o governante ucraniano, o vice americano Joe Biden comunicou que os EUA estão preparados para punir com sanções os responsáveis pela violência contra civis registrada nos últimos dias no país do leste europeu.

Publicidade

Autoridades da União Europeia (UE) em Kiev também pressionam Yanukovich a realizar eleições antecipadas. É uma tentativa de melhorar a situação no país e diminuir a violência. Na manhã desta quinta-feira, o ministro de Relações Exteriores francês, Laurent Fabius, disse que não via outra opção a não ser a realização de novas eleições. “Quando temos uma situação travada como esta, precisamos nos voltar ao povo”, disse.

Saiba mais:

Ucrânia, um país com histórico de tragédias

Por que UE e Rússia querem tanto a Ucrânia?

Publicidade

Ministros das Relações Exteriores da União Europeia se reuniram com Yanukovich para discutir a situação e aprovaram a aplicação de sanções contra as autoridades “responsáveis pela violência e pelo uso de força excessiva”. O chanceler da Suécia, Carl Bildt, afirmou, em sua conta no Twitter, que o congelamento de movimentações financeiras e a suspensão de passaportes devem ser adotados “com urgência”. A chefe da diplomacia do bloco, Catherine Ashton, disse após o encontro que os chanceleres se mostraram “horrorizados” com as mortes na Ucrânia, o que os fez consentir com a “suspensão de licenças de exportação para equipamentos de repressão interna”.

Crise – A crise na Ucrânia começou em novembro do ano passado, quando Yanukovich desistiu de um acordo com a União Europeia em nome de uma maior aproximação com a Rússia e detonou uma onda de insatisfação popular que tomou as ruas, ganhou força após a aprovação de um pacote de leis antiprotesto e recentemente provocou a queda do primeiro-ministro.

Os manifestantes, liderados por três políticos oposicionistas, entraram em trégua com o governo no início de fevereiro, enquanto os dois lados iniciaram negociações. O presidente fez concessões, como a promessa de anulação das leis que limitavam a liberdade de expressão, mas a oposição exige mais reformas. Entre elas estão uma revisão constitucional que reduza os poderes do presidente, devolvendo prerrogativas ao Parlamento, ou a formação de um novo governo. Esta semana, após a liberação de ajuda financeira da Rússia vinculada ao governo ucraniano tomar providências para acabar com o acampamento dos manifestantes da Praça da Independência, os conflitos foram retomados quando a polícia iniciou uma grande operação antiprotestos, os choques se tornaram batalhas campais e o número de mortos disparou.

Publicidade