‘Precisamos ser competitivos no mercado brasileiro’, diz presidente da Sony Latam
Em entrevista a VEJA, Kenichiro Hibi falou sobre mercado de influencers, custo brasil e desafios globais, como aumento de preços de semicondutores
Presidente da Sony para a América Latina, Kenichiro Hibi reconheceu, que o cenário fiscal brasileiro não é dos melhores, mas o tamanho e peso do Brasil importam. Em conversa com VEJA, o executivo falou sobre o mercado de influencers e criadores de conteúdo digital, competição de empresas chinesas e sul-coreanas e desafios globais, como aumento de preços de semicondutores.
Leia a entrevista:
O senhor disse recentemente que o Brasil é um motor para a Sony. Qual o peso que o país tem para a empresa?
O Brasil agora está se tornando um dos nossos principais mercados em toda a região da América Latina, que já é uma região grande. Obviamente, em termos de países, o Brasil é um dos maiores mercados potenciais que temos. E as vendas também têm continuado a crescer.
Tmos nos concentrado muito em como desenvolver o Brasil. E o Brasil e as características comerciais são um pouco diferentes de outras regiões porque, obviamente, aqui se fala português. Temos que estabelecer e construir uma estratégia muito particular para desenvolver os negócios no Brasil.
Dentro dessa estratégia, o que torna o Brasil mais único em termos de comportamento do consumidor de tecnologia quando comparado a esses outros mercados?
A língua é diferente, mas a cultura também é diferente. E até mesmo o desenvolvimento tecnológico e a infraestrutura são um pouco diferentes.
O senhor já reconheceu que as regras fiscais do Brasil tornam o mercado desafiador. Como a Sony Latam contorna o chamado ‘Custo Brasil’?”
Até mesmo para levar um produto de um estado para outro estado, também há impostos diferentes. Então, esse tipo de sistema tributário e fiscal complexo. Esse é um dos desafios recorrentes, mas, é claro, o mercado é bastante grande.
Então, indo mais a fundo no Brasil, acho que precisamos entender a diversificação — mesmo dentro do próprio país. Esse será o nosso desafio.
Dentro desse cenário econômico, como fazer com que a inovação chegue ao mercado brasileiro sem tantos atrasos? Há um desafio na precificação, para que não chegue com preços exorbitantes?
Devido ao sistema tributário, a precificação é sempre um desafio. Precisamos sempre fazer o nosso melhor esforço. Precisamos ser competitivos no mercado brasileiro. É isso que também temos que tentar fazer.
Tentamos implementar tecnologias em países diferentes no mesmo momento, porque, uma vez que determinada tecnologia é desenvolvida nos Estados Unidos, ela também deve estar disponível no Brasil. Não gostamos de criar nenhum atraso para a introdução, e a tecnologia muda dia após dia.
Se atrasarmos a colocá-la no mercado, ela fica muito para trás. Nosso desafio é tentar sempre trazer as tecnologias mais recentes para cá.
E como a Sony lida com a concorrência aqui no Brasil e na América Latina de marcas sul-coreanas e chinesas? Porque sabemos que as marcas chinesas às vezes lideram em custo-benefício.
O segmento de TV é uma das principais categorias em que temos concorrentes coreanos e chineses. No entanto, quando olhamos para outra categoria, como a imagem digital, na qual também estamos muito focados agora, que envolve câmeras e vídeo, nesse caso, as empresas chinesas e coreanas não são concorrentes, nem nos Estados Unidos e Canadá, nem mesmo no Japão. Então, temos concorrentes diferentes.
Categorias diferentes também têm concorrentes diferentes. Mas, de qualquer maneira, em qualquer categoria, queremos ser competitivos. É nisso que trabalhamos muito todos os dias.
Falando dessas empresas, estamos vendo o custo global subir para memória e semicondutores por causa do boom da inteligência artificial. Como a Sony planeja absorver esses preços, esses custos crescentes de fabricação, sem repassá-los ao preço final dos consoles?
É um dos maiores desafios que temos enfrentado atualmente. Acho que isso não é algo apenas da Sony. É uma questão para toda a indústria global, porque, devido ao aumento da demanda por IA, o custo da memória disparou.
Mas essa também é a mesma condição e a mesma situação para todas as marcas ou mesmo para todas as indústrias, como a automotiva e outras que precisam lidar com esses preços.
Então, não podemos absorver 100%. Temos que refletir uma determinada parcela no preço, mas também manter a competitividade. É uma conta que precisa ser feita minuciosamente.
Ainda sobre inteligência artificial. No plano de estratégia de longo prazo da Sony, qual o papel dela?
A IA, acho, trabalha a nosso favor. E, pelo menos, a IA é realmente uma tecnologia de ponta. Então, queremos aproveitar essa tecnologia para desenvolver os produtos, de certa maneira. Esse é um lado muito, muito positivo.
Mas há também um lado desafiador: isso pode representar uma ameaça até mesmo para os criadores, certo? Então, agora também precisamos nos proteger, porque uma das missões da nossa empresa é apoiar os criadores, com muito cuidado para preservar o direito deles.
Em relação aos criadores, temos novos modelos de câmeras que vêm com IA integrada para reconhecimento de pessoas e objetos e correção de cores. Você acha que a IA pode fazer sozinha o trabalho de artistas e fotojornalistas? Você acha que a fotografia perde valor como resultado disso?
Eu, na verdade, não acho. Porque, sim, podemos realmente aproveitar isso para desenvolver imagens e filmes melhores. No entanto, os profissionais precisam fazer algo além do que a tecnologia pode fazer. A tecnologia não pode reproduzir a humanidade ou as emoções.
A emoção é algo que realmente pode ser feito apenas por seres humanos. O criador profissional pode usar as tecnologias, mas precisa acrescentar emoção.
Isso significa que vamos utilizar plenamente a tecnologia de IA, mas acho que o trabalho final deve ser feito por seres humanos e pelos criadores.
No Brasil, também estamos vivendo uma explosão da chamada economia dos criadores, dos influenciadores digitais e das pequenas produtoras. Como a Sony vê esses mercados?
A missão da Sony é apoiar os criadores. Essa é uma das maiores missões. Queremos estar associados a eles — precisamos estar mais próximos dos criadores para ajudá-los a fazer suas melhores criações. Há muitos criadores, seja de vídeo, fotografia ou até música, de qualquer maneira. Acho que é um país muito talentoso e com muito potencial.
Em relação a esses criadores, a Sony é realmente conhecida pela fotografia no mundo da fotografia porque patrocina prêmios prestigiosos de fotografia e fornece equipamentos para Hollywood. Vocês não têm medo de perder prestígio ao concentrar as vendas nos influenciadores?
É claro que queremos ampliar a acessibilidade à tecnologia, isso é importante. Mas, ao mesmo tempo, queremos sempre tentar levar tecnologia de ponta ao mercado. Então, acho que essa é outra missão. Mas também estamos cobrindo o segmento profissional e também o amador.
Independentemente do tipo de tecnologia necessária, podemos oferecer tecnologia de ponta ao segmento profissional e, à medida que estamos preparados, desenvolvê-la também para o consumidor e para o segmento amador. Eles querem ter acesso à tecnologia porque temos um produto para oferecer.
Há setores específicos no Brasil que acabam impulsionando vendas, como esses criadores de conteúdo digital e até as igrejas. Pode explicar um pouco isso?
O Brasil é um país grande e a igreja exerce uma grande influência na vida das pessoas. Atualmente, a indústria das igrejas está aproveitando a tecnologia – mesmo à distância, elas podem fazer transmissões ao vivo, por exemplo, com grande qualidade, graças à tecnologia. Temos essa oportunidade de desenvolver esse negócio com as igrejas, é uma oportunidade de mercado.
Na mesma linha, a Sony tem sido uma fornecedora importante para grandes eventos de transmissão esportiva. Vocês têm uma parceria com a CBF, a Confederação Brasileira de Futebol. Qual é o plano de expansão desse modelo de transmissão para outros esportes e eventos locais na América Latina?
Os esportes são uma enorme oportunidade de desenvolvimento. Entretenimento ao vivo está sempre em alta, e os esportes são isso. As pessoas precisam ir aos eventos ao vivo, mas a maioria não consegue assistir presencialmente. Nesse caso, utilizando nossa tecnologia, elas podem assistir ao mesmo tempo, onde quer que estejam. Não necessariamente apenas a um jogo de futebol no Brasil, mas também a eventos globais.
Elas podem mostrar essa emoção ao mesmo tempo, com uma qualidade muito alta e também com qualidade de som.
Ainda acreditamos que podemos fazer isso e contribuir. Estamos pensando, inclusive nesse sistema de arbitragem de vídeo. Também temos desenvolvido isso e estamos contribuindo para o próprio jogo, para fazer um julgamento justo nessas situações. É uma área nova do negócio
Agora, entrando na indústria de games, que é enorme no Brasil. Existe um grande debate em torno da transição da mídia física para o mercado digital, que ganhou força depois que a Sony anunciou que os jogos de PlayStation seriam distribuídos exclusivamente em formato digital. O que levou a essa decisão?
Esse é o tipo de tendência. Então, acho que essa também é uma exigência dos nossos consumidores. Onde quer que esteja a demanda do consumidor, precisamos acompanhá-la. E também precisamos oferecer a solução.
Então, uma vez que estamos avançando mais para o digital, é claro que precisamos seguir nessa direção.





