Por que o Nepal não aceitou ajuda estrangeira nos resgates?
Deslizamento de terra catastrófico já deixou mais de 550 mortos e quase 1.500 pessoas desaparecidas
O Nepal recusou a oferta de vários países que queriam enviar equipes de busca e resgate após o deslizamento de terra catastrófico que atingiu a região da fronteira com o Tibete nesta semana, destruindo aldeias inteiras e ceifando ao menos 538 vidas.
O Ministério das Relações Exteriores nepalês afirmou nesta sexta-feira, 28, que as forças de segurança do próprio país têm capacidade para realizar os trabalhos e que, neste momento, não há necessidade de assistência estrangeira nas operações.
“A oferta de ajuda é natural. Nossas agências de segurança estão fazendo a operação de busca e resgate. Por enquanto, não precisamos de tal ajuda”, disse Lok Bahadur Chhetri, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores.
Entre os países que ofereceram equipes de busca e salvamento estão Índia, China, Estados Unidos, Reino Unido, Japão, Coreia do Sul, Sri Lanka e Bangladesh.
A Coreia do Sul, no entanto, informou que já enviou uma equipe de resposta ao país e prometeu US$ 1 milhão (cerca de R$ 5 milhões) em ajuda humanitária por meio de organizações internacionais. “A Coreia do Sul continuará negociando com o Nepal sobre o assunto”, disse o Ministério das Relações Exteriores sul-coreano.
+ Vídeo: militares do Nepal resgatam quase 350 pessoas em túnel após inundações repentinas
A recusa também gerou especulações sobre questões geopolíticas, visto que Rasuwa, uma das regiões afetadas pela tragédia, está na fronteira com o Tibete, região administrada pela China, e representa uma questão territorial sensível para Pequim.
Especialistas levantaram a possibilidade de que o Nepal esteja evitando a presença simultânea de equipes estrangeiras em uma zona estratégica. O governo nepalês, entretanto, nega que essa seja a razão e afirma que a decisão se deve exclusivamente à capacidade de suas próprias forças de segurança.
A escala do desastre
A Cruz Vermelha estimou nesta sexta-feira, 28, que mais de 90 mil pessoas foram diretamente afetadas pelo deslizamento de terra catastrófico. Vídeos do desastre de quarta-feira 26 mostram uma enorme parede de água avançando sobre a região enquanto pessoas tentavam fugir. A força, o volume e a velocidade da enchente deixaram pouco tempo para que as pessoas pudessem escapar. A onda arrastou caminhões e engoliu casas, estradas e usinas de energia no Nepal. Já no Tibete, autoridades falaram em um “grande número de vítimas” após um deslizamento de lama atingir uma passagem de fronteira.
Mais de 500 pessoas morreram e cerca de 1. 500 estão desaparecidas, incluindo 517 estrangeiros cujo paradeiro é desconhecido. A destruição ocorreu ao longo de uma rota que liga Catmandu a Lhasa, no Tibete — um trajeto muito frequentado por praticantes de trekking e peregrinos hindus e budistas.
O desastre também elevou o temor de novas inundações, uma ameaça que dificulta o trabalho das equipes de resgate. Caminhões com suprimentos ficaram impedidos de avançar devido ao rompimento de um lago formado pelos detritos do deslizamento de terra por trás das inundações.
O porta-voz da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tarik Jasarevic, alertou ainda que seis unidades de saúde locais foram danificadas na região e advertiu para o risco de doenças infecciosas após a tragédia. “Após um desastre dessa escala, deslocamento, superlotação e interrupção dos serviços de água, saneamento e saúde podem aumentar o risco de doenças infecciosas, incluindo diarreia e doenças respiratórias”, disse ele.
Causa da tragédia
O Centro Geológico dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês) indicou que a tragédia foi provocada pelo colapso parcial de uma geleira que desencadeou um enorme fluxo de água gelada e sedimentos.
A mudança climática está provocando o derretimento das massas de gelo em todo o mundo, o que eleva os riscos de inundações causadas pelo colapso das geleiras.
A torrencial massa de gelo e lama também formou enormes acúmulos de água. Um deles se rompeu nesta sexta-feira no Tibete, colocando em risco as equipes que trabalham na área.







