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Polícia grega é esmagada por cortes no orçamento, crise e criminalidade

Por Da Redação - 9 jul 2012, 10h05

Andrés Mourenza.

Atenas, 9 jul (EFE).- Baixos salários e menos dinheiro para operações: os cortes orçamentários afetam totalmente a Polícia grega, esmagada pelos protestos contra a austeridade, o aumento da criminalidade devido à crise e à chegada de imigrantes ilegais.

Em mais um dia de incursões, os policiais se reúnem bem cedo no terraço de uma cafeteria de Omonia, um dos bairros mais degradados do centro de Atenas. Ao longo da operação entrarão em cinco casas na busca de imigrantes ilegais e produtos falsificados.

Para passar o tempo e vencer o calor, os policiais ‘conversam’ com um frapê à base de café. Um deles abre um sachê de açúcar após outro e os leva à boca: ‘Açúcar é a minha droga’, diz.

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‘Ele precisa muito de açúcar e energia porque está casado e tem dois filhos. Sua situação é muito difícil’, brinca outro agente.

De fato, a situação da Polícia grega não é fácil. Os cortes exigidos pelos credores internacionais fizeram com que a maioria dos agentes receba menos de 700 euros como salário base, e se as novas medidas de austeridade demandadas pela ‘troika’ forem adotadas, receberão o salário mínimo: 585 euros.

‘Nosso horário legal de trabalho é de oito horas diárias e cinco jornadas semanais. Mas agora, especialmente quando há distúrbios, trabalhamos até sete dias por semana, por mais horas do que o acordado e sem retribuição extra’, se queixa Jristos Fotopulos, presidente do Poasy, o sindicato majoritário entre os 50 mil agentes da Polícia Nacional.

A carga extra de trabalho não se deve só à tensão social provocada pelas medidas de austeridade no país, mas também ao aumento da imigração ilegal.

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Desde 2007 e 2008, quando Espanha e Itália reforçaram sua vigilância fronteiriça e chegaram a acordos com seus vizinhos do norte da África, a Grécia – com fronteiras muito difíceis de vigiar por suas inúmeras ilhas – é o principal ponto de entrada de imigrantes sem documentos na Europa, segundo a União Europeia (UE).

‘Só no centro de Atenas, prendemos cerca de 500 imigrantes ilegais por dia’, explica Andreas, um agente que começa seu dia de trabalho às seis da manhã – e termina no meio da tarde – já que antes da incursão teve que ir investigar uma briga com facas entre afegãos e bengaleses por uma tonelada de ferro.

‘De acordo com a lei a pena para os imigrantes ilegais é muito rigorosa, cerca de três anos de prisão, mas levamos em conta que vêm de países com problemas e que não têm dinheiro. Alguns vão para centros de retenção, mas na prática, dado que não há espaço nas prisões nem dinheiro para repatriá-los, a maioria é posta na rua com uma ordem de expulsão que muito poucos cumprem. Em pouco tempo eles voltam a ser detidos e acontece o mesmo. É uma situação que não leva a lugar algum’, diz o fiscal Dionissios Mussakis, que acompanha a patrulha.

‘Há vinte anos não existia problemas nestes bairros, mas agora a situação mudou dramaticamente’, lamenta o fiscal sobre a degradação de zonas do centro de Atenas.

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Por sua vez, diversas ONGs denunciam maus tratos da Polícia aos imigrantes e passividade perante os crescentes ataques racistas do partido neonazista Amanhecer Dourado.

Segundo os estudos de diversos jornais gregos, em cerca de metade dos cinco mil policiais que estavam de plantão durante as eleições legislativas de 17 de junho votaram a favor desse partido, algo que é atribuído ao descontentamento com as formações que governaram nos últimos anos.

‘Não temos informação sobre vinculações com o Amanhecer Dourado. Se nossa Federação exige que isto seja investigado e se houver alguma conexão e colaboração de algum agente, este deve assumir suas responsabilidades. Nossa posição é contrária à violência’, assegura Fotopulos.

O orçamento para operações da Polícia também foi reduzido, o que torna mais difícil enfrentar o aumento da delinquência causado pela crise econômica em um país outrora tranquilo, assim como à presença de máfias locais e internacionais e o crescente papel da Grécia como entrada de produtos falsos à Europa.

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Yannis, um policial de uma delegacia do centro de Atenas, mostra seu colete à prova de balas: ‘Estes só detêm balas de pistola, as de fuzil atravessam. Agora nós somos os únicos que usam pistola, todos os delinquentes têm fuzis’.

‘A criminalidade organizada está crescendo, mas quando há tantos policiais trabalhando para reprimir protestos, como podemos nos dedicar à luta contra o crime?’, se pergunta o presidente do Poasy.

Na opinião de Fotopulos, os últimos Governos estão ‘subestimando’ a Polícia, que deveria ser utilizada ‘para sua tarefa habitual: lutar contra o crime’ e não para reprimir protestos. EFE

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