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Plebiscito põe à prova utopia de independência escocesa

Entenda tudo o que está em jogo para os dois lados envolvidos na votação desta quinta-feira, que pode mudar o Reino Unido como conhecemos

Por Jean Philip Struck 17 set 2014, 19h38

A Escócia deveria ser um país independente? A pergunta que será feita a mais de 4 milhões de pessoas no plebiscito desta quinta-feira tem uma resposta que vai muito além do ‘sim’ ou ‘não’. Livre e próspera, a Escócia não se encaixa no perfil dos territórios que conquistaram independência nos últimos anos, depois de serem castigados por um poder central, como o Sudão do Sul ou Kosovo. Apesar das diferenças históricas profundas, não há nos argumentos dos separatistas escoceses nada com peso suficiente para sustentar o fim de uma união de três séculos.

Em editorial publicado na última semana, o jornal The Guardian pede explicitamente o voto no ‘não’, avaliando que uma Escócia independente seria viável, mas também enfrentaria tempos difíceis. “Na Grã-Bretanha, na Europa e no mundo como um todo, nós somos melhores juntos do que separados. Nacionalismo não é a resposta para a injustiça social. Por essa razão fundamental, urgimos os escoceses a votarem não à independência”, defendeu o diário.

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Embora tenham sua pitada de nacionalismo e romantismo, os motivos oficiais apresentados pelos separatistas soam pragmáticos: conferir o poder total aos escoceses sobre questões que lhes são caras, como orçamento e impostos, além de manter exclusivamente no território as imensas riquezas geradas pelo petróleo extraído no Mar do Norte, cortando a parte coletada pelo atual governo central, em Londres. Ainda assim, a possível criação desse novo país poderia trazer complicações imprevisíveis e tem sido vista com preocupação por analistas e economistas, por outros países europeus e, é claro, pela Inglaterra, o ator mais importante do Reino Unido.

O que é o Reino Unido?

Uma das construções políticas e sociais mais bem-sucedidas da história moderna, o Reino Unido foi oficialmente criado em 1707, quando as elites da Escócia abdicaram de sua independência em meio a uma profunda crise econômica que afetou o país e uniram-se à Inglaterra e ao pequeno País de Gales, que já estava há séculos sob controle inglês. A Escócia e a Inglaterra já eram bastante ligadas antes da união oficial. As coroas, por exemplo, haviam sido unificadas um século antes. Com a união, porém, o poder ficou mais concentrado em Londres, com o Parlamento centralizando as decisões sobre os territórios. Desde o final dos anos 1990, mais poderes foram dados às nações menores, mas questões centrais do país como política externa e econômica continuam a ser decididas em Westminster.

Os três países em conjunto são conhecidos como Grã-Bretanha, nome da ilha que abriga os territórios. Ao se falar em Reino Unido está se incluindo a Irlanda do Norte, que fica na ilha vizinha. Oficialmente, o nome do país é Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte. O Reino Unido também já foi maior, a partir de 1801, quando passou a incluir a Irlanda que, em 1922, deixou a união e resolveu seguir uma trajetória republicana, deixando apenas uma fatia menor, a Irlanda do Norte, no Reino Unido.

O historiador Dauvit Braun, da Universidade de Glasgow, explica que os escoceses permaneceram atraídos pela velha ideia de governo grande, que inclui um sistema generoso de saúde pública, muito maior do que o inglês. É isso que eles pretendem manter e até mesmo expandir com a independência. Os escoceses também são mais pró-União Europeia que seus céticos vizinhos ingleses. “Se a Escócia se tornar independente, vai ser o primeiro país a fazer isso sem que o nacionalismo tenha sido a força predominante”, ressalta Braun.

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Alex Salmond, primeiro-ministro do Parlamento escocês e maior defensor e promotor da independência, já afirmou que pretende tornar o território independente em uma espécie de Noruega social-democrata das ilhas britânicas – com a diferença de pertencer ao bloco europeu. Seu plano passa por reter todos os impostos gerados pela extração do petróleo e criar uma espécie de fundo ao estilo norueguês para financiar, garantir e até mesmo expandir o estado de bem-estar social.

Infográfico: Entenda as questões envolvendo o plebiscito na Escócia

A aposta do líder separatista é arriscada. Estimativas otimistas propagandeadas pela campanha do ‘sim’ apontam que o litoral escocês possui 24 bilhões de barris de petróleo. Esse volume acabaria em menos de quarenta anos. Para piorar, algumas empresas do ramo apontam que o volume provavelmente é pelo menos 40% mais baixo do que o propagandeado pelos separatistas, e que a maior parte está em áreas de difícil extração, o que levaria a uma queda da arrecadação devido ao aumento dos custos.

“A Escócia deve ser viável. A questão é saber se ela vai estar melhor sozinha”, diz Michael Keating, professor de política da Universidade de Aberdeen. “O petróleo é um ganho volátil e o país terá que diversificar sua economia para reduzir sua dependência. O SNP (Partido Nacional Escocês) propõe usar o lucro em um fundo para o futuro, o que faz sentido, mas torna difícil usar essa verba para os gastos do dia a dia”, acrescenta.

Efeito Thatcher – Embora alguns separatistas tentem evocar imagens de guerreiros como William Wallace, o chefe militar que lutou contra os ingleses no final século XIII e cuja popularidade ganhou fôlego graças ao filme Coração Valente (1994), com Mel Gibson, o moderno separatismo escocês tem origens tímidas e só nasceu oficialmente a partir dos anos 20. Por décadas, os separatistas ficaram confinados a alguns poucos pontos percentuais e se mantiveram estáveis. Em 1979, um referendo para decidir se os escoceses queriam um Parlamento próprio chegou a ser aprovado por uma pequena maioria, mas o baixo comparecimento acabou minando a proposta.

Uma mágoa recente está atrelada às reformas promovidas pela primeira-ministra Margaret Thatcher, que acabaram por afetar a envelhecida e ineficiente indústria da Escócia. Segundo o professor Tom Devine, um dos maiores especialistas em história da Escócia, as mudanças, embora tenham se provado benéficas, acabaram provocando uma fratura entre escoceses e ingleses e minando uma ideia de “britanicidade” apoiada num Estado forte e generoso que era muita cara aos escoceses.

Artigo Project Syndicate: Escócia Vanguardista?

Depois de Thatcher, o eleitorado conservador minguou na Escócia até praticamente desaparecer. Hoje a região conta com apenas um deputado desse partido em Londres, contra 22 em 1979. Em 1997, a proposta de um Parlamento local voltou à pauta e foi finalmente aprovada. A partir daí o crescimento do SNP foi constante até que em 2011 o partido conseguiu formar um governo de maioria. O passo seguinte foi o SNP convocar o plebiscito. Colabora ainda mais para o clima separatista o fato de o Partido Conservador do primeiro-ministro David Cameron, imensamente impopular na Escócia, estar no comando do Reino Unido. (Continue lendo o texto)

Números – Separada, a Escócia teria um PIB de 245 bilhões de dólares (o PIB do Reino Unido em 2013 foi de 2,5 trilhões de dólares). Não seria uma nação influente, constando provavelmente em 43º lugar entre as economias do mundo. Mais animador é o PIB per capita, de 45.000 dólares (quatro vezes o do Brasil), e que deve subir levemente se o lucro do petróleo ficar concentrado no país. Mas para financiar sua Noruega escocesa, os partidários do ‘sim’ precisam apostar que o valor da commodity continue aumentando.

Em outros ramos da economia, o cenário também não é tão cor-de-rosa. A maioria dos bancos que operam na Escócia não são locais, e alguns já expuseram sua antipatia à separação prevendo turbulência econômica. Alguns ameaçaram mudar suas operações para Londres, um centro financeiro de projeção internacional, caso a ideia prospere, inclusive o Banco Real da Escócia. E até mesmo o famoso uísque escocês não está totalmente sob controle: 80% das destilarias estão nas mãos de empresários de fora da região.

Chances – Pesquisas recentes apontaram para uma disputa acirrada no plebiscito, e o crescimento do ‘sim’, que chegou a aparecer à frente do ‘não’ em alguns levantamentos, foi creditado, em parte, à propaganda negativa do movimento contrário à separação, vista por muitos como ‘projeto do medo’, mais focado nos interesses ingleses do que na união em si. “É mais fácil e positivo fazer promessas sobre um monte de coisas boas do que ser negativo e dizer verdadeiramente que os números não favorecem a ideia de que a Escócia vai ser mais rica”, disse o professor Iain McLean, do departamento de política da Universidade de Oxford. Fato é que as pesquisas não deixam margem para se apontar com segurança qual será o resultado do plebiscito.

Em caso de vitória do ‘sim’, esta será apenas a primeira de muitas perguntas a ter sido respondida. A expectativa é que o processo esteja mais solidificado apenas a partir de 2016. Até lá, restam dúvidas se, por exemplo, a bancada escocesa vai permanecer na Câmara dos Comuns para participar do processo ou se já vai sair de cena. Quando a Tchecoslováquia se separou, os dois países que emergiram do processo tiveram que negociar mais de 31 tratados e mais de 2.000 acordos em negociações que se arrastaram por anos. E, naquele caso, a separação foi inteiramente consensual. No caso de o plebiscito desta quinta ser aprovado, a novela da independência escocesa estará apenas começando.

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