Pesquisa inédita mostra que, na política mundial, ninguém exerce mais influência do que Trump
Com rajadas incessantes de mensagens e repostagens impactantes, o americano se tornou a voz mais ressonante no teatro político
Dono de invejável eloquência, Péricles (495 a.C.-429 a.C.), o mais influente estadista da Grécia Antiga, responsável pela era de ouro de Atenas, exerceu como poucos o uso da palavra como arma política. Diante dos cidadãos livres reunidos na Pnyx — colina onde a Assembleia se juntava para decidir coletivamente os rumos da cidade-Estado —, ele hipnotizava a audiência, convencendo-a a adotar as medidas que defendia. Quase um século mais tarde, sua fama de orador influenciou a obra Retórica, de Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), que instalou, em definitivo, a arte da persuasão no centro do poder. Muitas voltas do globo depois, na terceira década do século XXI, a oratória ganhou formato digital desenhado por um personagem dos novos tempos, o influencer. E dentre eles ninguém, ao menos no teatro da política, exerce mais influência do que Donald Trump.
O presidente americano, porém, não é nenhum Péricles, a começar pelo fato de não ligar a mínima para o debate. Atento à dinâmica das redes, em que ganha o jogo quem grita mais alto, ele opta por monopolizar a atenção, dominar a narrativa e, sobretudo, transformar a polêmica e a divergência em seus maiores ativos. “Nenhuma figura relevante da política mundial emula o comportamento dos influencers como o presidente da maior potência militar e econômica do planeta”, diz Andrew Roe-Crines, especialista em comunicação da Universidade de Liverpool.
O vasto alcance da voz de Trump na internet é respaldado por números inéditos. A pedido de VEJA, a Ativaweb, empresa de monitoramento de dados da internet, realizou um amplo estudo mundial sobre o comportamento do republicano no universo digital desde 2015. Suas declarações, compartilhadas em seis redes sociais distintas, com um alcance de 230 milhões de usuários, geraram um volume astronômico de menções: 2,4 bilhões, cifra só superada por celebridades de altíssimo calibre e jamais atingida por nenhum outro presidente. O estilo, digamos, não é invenção de Trump, tendo sido utilizado por políticos como Javier Milei, na Argentina (por sinal, campeão de postagens positivas do colega americano), e Nikolas Ferreira, no Brasil, mas ganha ressonância sem par quando parte do megafone da Casa Branca.
Magnata do ramo imobiliário que ganhou fama como apresentador do reality show O Aprendiz, Trump tinha 23 milhões de seguidores quando se instalou pela primeira vez no Salão Oval, em 2017 — menos que os 27 milhões de Jair Bolsonaro na época —, mas não demorou a entender como movimentar as engrenagens virtuais para colocar o algoritmo das redes a seu serviço. “Ele quer ser o centro das atenções e sabe jogar nesse ambiente”, afirma Alek Maracaja, fundador da Ativaweb.
A dois meses das midterms, as eleições de meio de mandato para Câmara e Senado, Trump amarga taxa de 65% de desaprovação, a pior de seus dois mandatos, e tenta reverter a corrente à sua moda, aumentando a frequência das postagens e subindo o tom. Sem admitir erros nem fazer concessões, o verborrágico presidente usa e abusa de autoelogios, ataques aos adversários e desinformação, em arroubos que explodem em mensagens com letras maiúsculas, exclamações, insultos e até palavrões. “Abram a p***a do estreito, seus bastardos malucos”, bradou contra o governo iraniano, que bloqueava o trânsito de petroleiros pela estratégica passagem de Ormuz.
Segundo o levantamento, o alvo número 1 de sua virulência são os democratas, puxados pelo antecessor Joe Biden, a quem até hoje, mesmo passados quase dois anos da eleição, vira e mexe se refere com os rótulos de crooked (corrupto) e sleepy (sonolento). “O festival de insultos obedece a um roteiro populista clássico, que aponta para os perigos do outro, enquanto o atacante assume o papel de protetor do cidadão”, diz Robert Rowland, que analisa o discurso trumpista no livro The Rhetoric of Donald Trump. No rol das citações negativas, aparecem em seguida a imprensa e a China, nessa ordem.
Na outra ponta, a das menções honrosas (frequentemente precedidas de um wonderful, ou maravilhoso), estão os mandatários da direita radical inflada pelo trumpismo: o já citado Milei, “líder verdadeiramente fantástico e poderoso”, e o salvadorenho Nayib Bukele, celebrado por aceitar em suas megaprisões os “bárbaros criminosos” deportados dos Estados Unidos. O israelense Benjamin Netanyahu e a italiana Giorgia Meloni vêm em seguida, embora estejam hoje estremecidos com o mestre.
A principal trincheira linguística de Trump em sua guerra influenciadora é sua própria rede, a Truth Social, que ele criou depois de ter sido banido do antigo Twitter, pré- Elon Musk, acusado de incitar a infeliz invasão do Capitólio, em 2021, por simpatizantes seus inconformados com a derrota nas eleições. Livres de qualquer amarra e ancoradas em uma visão radical da liberdade de expressão, as mensagens ali postadas são feitas na medida para incendiar paixões. “Os lunáticos da esquerda radical, também chamados de burrocratas, perderam o controle. Não deixem que essa ideologia comunista doentia tome conta dos Estados Unidos!”, prega um post de julho. O fogo se espalha por Instagram e Facebook, ganha escala entre públicos específicos no X, Reddit e Rumble, tudo com a celeridade que a internet exige, e por fim leva a imprensa tradicional a reboque, repercutindo com certo grau de espanto os termos nunca antes pronunciados por um ocupante da Casa Branca (nem ele mesmo, no primeiro mandato, foi tão vocalmente irrefreável).
O ecossistema tecnológico dominado por Trump atrai uma audiência majoritariamente masculina (65% de seus seguidores são homens) e jovem (58% têm entre 25 e 44 anos), que chega lá desinteressada de política e, tragada pelo algoritmo, embarca na sua pregação. “A retórica simples e chamativa fornece respostas rápidas para um mundo complexo. É uma reação visceral”, explica o cientista político Rodrigo Praino, da Universidade Flinders, na Austrália. Desperta repúdio também, e muito: as reações monitoradas pela Ativaweb mostram que 43% das menções a Trump são negativas, ditadas por sentimentos intensos como raiva (25%) e desconfiança (23%). Parece ruim para ele, mas não é — nas redes, a rejeição é fator importante para quem faz questão de permanecer o tempo todo em evidência, uma releitura do velho “falem bem ou mal, mas falem de mim”.
Uma amostra cintilante do poder de mobilização de Trump, o grande influencer, é a guerra que move contra os imigrantes, um de seus principais temas de campanha, que, no levantamento da Ativaweb, rendeu impressionantes 441 milhões de menções digitais. Para Trump, as cidades governadas por democratas são “distopias típicas de Terceiro Mundo” assoladas pela violência, e os caciques do partido — puxados por Biden, sempre ele — seriam responsáveis por deixar as “fronteiras abertas” e permitir a “infiltração de criminosos” nos Estados Unidos. São muitas (e se multiplicam nas redes) as homenagens aos “patriotas” (um termo que adora) do ICE, a temida polícia migratória, que em suas batidas em julho alcançou o recorde de 50 000 detenções.
As hipérboles em maiúsculas se repetem no plano internacional. Ao longo da arrastada guerra que empreende contra o Irã, Trump postou que o líder supremo Ali Khamenei, morto em um ataque aéreo coordenado por Washington, era “o homem mais maligno do mundo” e chefe de uma “gangue de bandidos sedentos de sangue” que merece ser aniquilada. “Uma civilização inteira morrerá”, bradou em um post que ganhou manchetes em todo o mundo e ajudou a gerar 271 milhões de menções digitais em torno da contenda no Oriente Médio. Outro imenso vetor de atenção, o conflito na Ucrânia amealhou mais de 300 milhões de menções a suas declarações erráticas, ora desancando o ucraniano Volodymyr Zelensky, ora criticando o russo Vladimir Putin. “Ele transforma a geopolítica em um ruidoso balcão de negócios, onde se luta para gerar engajamento”, afirma Brian Ott, coautor de The Twitter Presidency.
As turbulentas relações que mantém com o Brasil merecem poucas, mas explosivas publicações. Já definiu o país como “vergonha internacional”, qualificou de “caça às bruxas” a condenação de Bolsonaro por tentativa de golpe, publicou fotos com os herdeiros Flávio e Eduardo no Salão Oval e, em julho, repostou em sua rede o anúncio oficial de uma nova rodada de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros para “contrabalançar” medidas do Planalto consideradas “injustificadas, que sobrecarregam e restringem” o comércio com empresas americanas. Nada que afete sua audiência por aqui — o Brasil é o maior polo de repercussão do trumpismo fora de seu berço. Os internautas brasileiros respondem por 8,5% da audiência cativa, com mais de 3,6 milhões de seguidores — um contingente que, se reunido, equivaleria à 15ª maior cidade do país. “O bolsonarismo enxerga nas narrativas americanas um reflexo de suas próprias batalhas”, explica Maracaja.
Nestes dez anos de domínio da política republicana, Trump se manteve fiel à prática de usar as redes, sobretudo sua Truth Social, para chocar, cobrar, bater, assoprar — e, sim, governar, até certo ponto. Mas o levantamento realizado pela Ativaweb mostra que a dinâmica de sua extraordinária caixa de ressonância vem mudando com o tempo: enquanto a quantidade e o alcance das discussões e dos comentários apresentam queda de 16% e 24%, respectivamente, sua influência no universo digital disparou — os compartilhamentos de posts subiram 63%, e seu índice de presença saltou de 45 para 73 pontos, uma alta de 62%. Em outras palavras, a repercussão das maiúsculas presidenciais cada vez mais dispensa o debate e cai direto na configuração das agendas doméstica e internacional.
Ao longo da história, líderes autoritários impuseram sua vontade calando a oposição — e a extinta União Soviética é um exemplo acabado dessa repressão. Trump, o influenciador, não precisa disso. Tratando as redes sociais como uma espécie de estilingue, ele usa as vozes contrárias como munição para chegar ainda mais longe, testando a cada momento os limites da liberdade de expressão. Péricles e Aristóteles ficariam de queixo caído.
Publicado em VEJA de 4 de setembro de 2026, edição nº 3011








