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Península coreana inicia fase de incertezas após morte de Kim Jong-il

Seul, 19 dez (EFE).- O anúncio repercutido mundialmente nesta segunda-feira sobre a morte do líder da Coreia do Norte, Kim Jong-il, criou um clima de incerteza na península que envolve o país, diante do receio sobre os rumos que seu filho mais novo e sucessor, Kim Jong-un, tomará para a estabilidade regional, como o programa nuclear de Pyongyang.

Logo após saber da notícia, a vizinha Coreia do Sul – em guerra técnica com o Norte desde que o conflito entre ambos terminou em armistício, em 1953 -, além de Japão, Estados Unidos e China, apressaram-se a abrir linhas de diálogo para antecipar ‘possíveis imprevistos’, como indicou o ministro porta-voz do governo japonês, Osamu Fujimura.

Esses países, junto com Coreia do Norte e Rússia, fazem parte do diálogo multilateral para a desnuclearização do regime norte-coreano, estagnado desde que Pyongyang abandonou a mesa de negociações em abril de 2009, um mês antes de fazer um teste nuclear, baseado em um programa atômico de plutônio.

Neste ano, a Coreia do Norte se mostrou disposta a se aproximar da comunidade internacional e retomar essas conversas em troca de ajuda externa. O regime realizou contatos bilaterais com Washington e Seul, em uma aparente tentativa de limar asperezas e oferecer mais informações sobre seu programa de enriquecimento de urânio – paralelo ao de plutônio.

Pyongyang reconhece abertamente que enriquece urânio, mas alega ser um projeto de uso civil, e não militar. São claras as objeções de EUA e Coreia do Sul.

Com a morte de Kim Jong-il, que apenas quatro meses antes de sua morte expressou interesse em retomar as negociações antinucleares, abre-se uma nova etapa de diálogo internacional. Enquanto o falecido líder oscilava entre hermetismo e reconciliação, agora começa uma fase de dúvidas, com o jovem Kim Jong-un à frente do regime.

A expectativa é que o filho mais novo do líder, que nem sequer tem idade exata conhecida internacionalmente – acredita-se que tenha 29 anos -, seguirá a lógica de mão de ferro do pai, embora sua inexperiência possa culminar num regime comunista ainda mais fechado e hermético, conforme a opinião de analistas sul-coreanos.

O momento se mostra particularmente delicado, especialmente depois que delegados da Coreia do Norte e EUA mantiveram uma reunião na sexta-feira (um dia antes da morte de Kim) na qual, supostamente, Pyongyang teria aceitado suspender o enriquecimento de urânio em troca da retomada da ajuda alimentícia de Washington.

Alguns analistas consideram que, após a morte de seu pai, Kim Jong-un poderia optar por consolidar a nova situação interna antes de retomar as conversas sobre o programa nuclear.

Para o analista Cha Doo-hyeon, do Instituto para Análise de Defesa de Seul, o controle do jovem sucessor não é ainda sólido e precisará do apoio da máquina política para sobreviver ao desaparecimento de seu pai.

A inexperiência de Kim Jong-un pode despertar receios nas elites políticas e militares da Coreia do Norte, assim como entre a população civil do país, onde a sociedade, ancorada nos tradicionais princípios do confucianismo, considera a idade como um importante fator de autoridade e respeito.

A ascensão do falecido Kim Jong-il ao poder ocorreu somente após um longo período de preparação desde que, em 1961, aos 19 anos, ingressou no quadro do Partido Trabalhista da Coreia.

Desde então, ascendeu progressivamente e ocupou diversos cargos no departamento do Comitê Central do Partido Trabalhista durante 30 anos, até que foi nomeado comandante supremo do Exército Popular da Coreia em 1991, e, por fim, assumiu o poder em 1994.

Estima-se que Kim Jong-un, cuja trajetória é muito mais curta que a de seu pai quando chegou ao poder, tenha de depender de Jang Song-Thaek, cunhado de Kim Jong-il e vice-presidente da poderosa Comissão de Defesa Nacional.

Jang, casado com a irmã mais nova do falecido líder, se ocupou de assuntos de segurança e defesa nos últimos anos, assim como de projetos para atrair investimentos estrangeiros, vitais para sustentar o empobrecido país.

Na Coreia do Sul alguns analistas acreditam que Jang se transformará em regente de Kim Jong-un e se constituirá como uma figura-chave para a transferência de poder, mas não se descarta totalmente um novo conflito no seio do regime.

A transição não é algo simples por vários fatores: em primeiro lugar, a Coreia do Norte vive em permanente crise econômica desde a queda de sua grande aliada histórica, a antiga União Soviética, em 1991. Somente o estrito controle ideológico e militar evitou até agora a ocorrência de revoltas significativas.

Além disso, a sociedade global da informação abriu brechas no hermetismo do país. Muitos norte-coreanos acabam tendo acesso, por meios diversos, a informações sobre a prosperidade na democrática Coreia do Sul. EFE