Assine VEJA a partir de R$ 9,90/mês.

Pelo menos 49 crianças brasileiras estão separadas dos pais nos EUA

Governo brasileiro demonstra preocupação com separação dos menores e espera que a ordem executiva emitida por Trump revogue a prática

Por Da Redação - 21 jun 2018, 12h07

Ao menos 49 crianças brasileiras foram separadas dos pais depois de entrarem nos Estados Unidos de maneira ilegal a partir do México. Enviadas a abrigos, elas estão detidas em diferentes Estados americanos. O maior número, 29, está concentrado em Chicago, cidade que está a quase 2.500 quilômetros da divisa com o México. A criança brasileira mais nova é um menino de 5 anos, que está no Texas.

Segundo informações do Consulado do Brasil em Houston, um garoto de 8 anos tentou fugir de um abrigo em Nova York, mas não teve sucesso. “Nós sabemos que as crianças estão traumatizadas”, disse o cônsul adjunto na cidade texana, Felipe Santarosa. “Elas foram separadas dos pais e colocadas em um lugar no qual não conhecem a língua. Por mais que sejam bem tratadas, é uma situação muito difícil”.

Além dos que estão em abrigos, há outros 25 menores brasileiros em um centro de detenção em San Antonio, no Texas, que estão acompanhados de suas mães – 21 no total. Santarosa disse que diplomatas brasileiros visitarão o local na próxima semana.

A informação sobre as 49 crianças que foram separadas dos pais foi enviada ao Consulado do Brasil em Houston na sexta-feira pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos do governo dos Estados Unidos. A separação familiar é fruto da política de tolerância zero adotada em abril pelo governo do presidente Donald Trump, pela qual todos os que tentavam cruzar a fronteira de maneira ilegal são processados criminalmente. Com isso, os pais passaram a ser enviados a prisões federais, que não têm acomodações para menores. Na quarta-feira (20), depois de muitas críticas, o presidente americano assinou um decreto que acaba com a política.

Publicidade

Reação

O Ministério das Relações Exteriores do Brasil divulgou uma nota na qual afirmou que a separação familiar é uma “prática cruel e em clara dissonância com instrumentos internacionais de proteção aos direitos da criança”. O governo brasileiro disse esperar que o decreto de Trump leve à “efetiva revogação” da separação familiar.

“O governo brasileiro acompanha com muita preocupação o aumento de casos de menores brasileiros separados de seus pais ou responsáveis que se encontram sob custódia em abrigos nos Estados Unidos, o que configura uma prática cruel e em clara dissonância com instrumentos internacionais de proteção aos direitos da criança”, diz a nota.

Depois de Chicago, o maior número de crianças brasileiras detidas está em Phoenix, no Arizona. No abrigo Estrella del Norte há sete menores. Três são irmãos, de 8, 10 e 16 anos, cuja mãe está presa em uma cidade a 90 quilômetros de distância. Também há quatro adolescentes, um de 14 anos e três de 17 anos. O mais velho deles completará 18 anos no dia 24 e será transferido para um centro de detenção de adultos.

O Consulado do Brasil em Miami, na Flórida, informou que há pelo menos um menor separado da família em um abrigo na cidade. “Estamos em contato com a menor, com o abrigo e com a família para prestar assistência consular. Estamos agendando visita ao abrigo com companhia da psicóloga para verificar as condições do local e o estado de saúde dele”, informou o consulado.

Publicidade

A maioria dos pais está presa no Texas, um dos Estados preferidos pelos imigrantes que cruzam a fronteira de maneira ilegal. Santarosa disse que o consulado está tentando identificar todas as crianças e determinar o paradeiro de seus pais. O segundo passo é estabelecer contato entre eles.

A diretora do Departamento Consular de Brasileiros no Exterior do Itamaraty, Luiza Lopes, disse que uma das garantias que o governo brasileiro tem é o livre acesso às crianças que estão nos abrigos. “Nossa cônsul em Chicago visitou os menores várias vezes e fez a ponte deles com seus pais”, afirmou. “Mas, por mais que se tente amenizar a situação, ela trará consequências psicológicas para as crianças, principalmente as que são mais novas”, disse Lopes.

A nota do Itamaraty informa que a pasta orientou os consulados do Brasil a reforçar medidas que já estavam em curso, tais quais, intensificar o mapeamento em abrigos para identificar eventuais novos casos, além de tornar mais frequentes as visitas aos menores. Os pais receberão orientação sobre ações legais para recuperar a guarda das crianças.

Também haverá mais campanhas de esclarecimento, alinhadas com os conselhos de cidadãos brasileiros, sobre os riscos de travessia pela fronteira. O Itamaraty vai ainda fortalecer a coordenação e o intercâmbio de informações com outros países “emissores de emigrantes”.

Publicidade

(Com Estadão Conteúdo)

Publicidade