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Partido centrista vence na Irlanda, mas ex-braço do IRA busca parceiros

Legenda nacionalista Sinn Fein foi a mais votada, mas ficou com menos assentos no Parlamento devido ao complexo sistema eleitoral nacional

Por Da redação - Atualizado em 11 fev 2020, 15h13 - Publicado em 11 fev 2020, 15h03

O partido de centro Fianna Fail (FF), do líder da oposição Micheál Martin, venceu as eleições gerais realizadas na Irlanda no último sábado 8, ganhando 38 dos 160 assentos em jogo, um a mais do que o Sinn Fein, legenda de esquerda e antigo braço político do agora inativo grupo radical IRA.

Após dois dias de apurações, o resultado final confirmou que o partido republicano liderado por Mary Lou McDonald acabou com o bipartidarismo no país, onde os centristas partilham o poder há mais de 80 anos com o Fine Gael (FG), do primeiro-ministro democrata-cristão Leo Varadkar, que conquistou 35 lugares.

Martin e Varadkar foram surpreendidos pelo bom desempenho do Sinn Fein, que já iniciou contatos com outras formações minoritárias, como o Partido Verde e o Partido Trabalhista, e com deputados independentes e de esquerda para tentar formar um governo progressista. Isso porque nenhum partido obteve a maioria absoluta.

O Sinn Fein, que já foi vinculado ao IRA, organização paramilitar oposta à presença britânica na Irlanda do Norte, se focou nos últimos anos em reformar sua plataforma e transformá-la em uma agenda política social-democrata.

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A unificação da República da Irlanda com a Irlanda do Norte ainda é uma das principais bandeiras do partido, mas o Sinn Fein também adotou uma plataforma socialmente liberal, perdendo alguns apoiadores conservadores, mas conquistando muito mais por suas posições sobre o casamento gay e o aborto. Isso, por sua vez, fez com que a opção se tornasse mais atraente para os eleitores de esquerda.

Resultados

A Irlanda possui um complexo sistema de votação, segundo o qual os eleitores não votam em uma lista determinada, mas elaboram a sua própria, classificando os candidatos por ordem de preferência. Embora os centristas tenham um assento a mais, o Sinn Fein foi o partido mais votado nas eleições, com 24,5% dos votos de primeira preferência, contra 22,2% para o FF, 20,9% para o FG, 7,1% para o Partido Verde e 4,4% para o Partido Trabalhista.

As duas principais legendas estavam confiantes que o complexo sistema eleitoral, que permite a transferência de votos entre candidatos – a partir da segunda escolha e das subsequentes – lhes proporcionaria mais assentos que o antigo braço político do IRA.

Este tinha sido o caso em eleições anteriores, já que os nacionalistas eram tradicionalmente menos atraentes para uma grande parte do eleitorado devido à sua relação com o conflito passado na Irlanda do Norte, mesmo que McDonald, que substituiu Gerry Adams em 2018, represente uma nova geração sem vínculos com a luta armada.

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A realidade é que a transferência de votos do Sinn Fein foi para outras formações de esquerda, e nem mesmo seus estrategistas esperavam esse resultado espetacular. Por isso, apresentaram menos candidatos do que seus dois grandes rivais nos 39 círculos eleitorais, e assim acabaram com menos assentos no Parlamento na contagem final.

“Quem sabe, talvez eu seja o próximo ‘taoiseach’ (gaélico para primeiro-ministro)”, foi a resposta que McDonald deu nesta segunda-feira quando perguntado na rua sobre suas chances para liderar o próximo Executivo.

A líder nacionalista, de 50 anos de idade e nascida em Dublin, foi a protagonista de uma eleição que transformou o tabuleiro de xadrez político irlandês, atacando as fraquezas da economia nacional, que tem a maior taxa de crescimento da Europa e o pleno emprego. Nesse sentido, conseguiu transformar em votos o descontentamento de uma grande parte da população, incluindo os mais jovens, com a crise habitacional, o aumento dos preços do aluguel de imóveis e a deterioração dos cuidados de saúde pública.

Por sua vez, Varadkar e Martin continuam insistindo, embora com cada vez menos força, que não farão um pacto com o Sinn Fein devido a seu passado violento e suas políticas econômicas, que eles rotulam de populistas e radicais.

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O ministro das finanças e diretor de campanha do Fine Gael nesta eleição, Paschal Donohoe, disse que seu partido provavelmente manterá algum contato com o Sinn Fein quando os resultados forem oficializados, mas repetiu a mensagem de seu líder sobre a recusa de formar um governo com o McDonald.

Os democratas-cristãos acreditam que poderiam atrair vários partidos independentes e minoritários, mas mesmo essa opção pode não ser viável se não forem dados os números necessários. Por isso, Varadkar não excluiu a formação de uma grande coligação com o seu rival histórico, o Fianna Fail.

Os democratas-cristãos já permitiram que o Fine Gael governasse em minoria durante a última legislatura, com um acordo de que apoiavam os orçamentos gerais, e se abstiveram nas votações parlamentares chave, como as moções de censura.

No entanto, essa acomodação custou-lhes votos nestas eleições, já que as pessoas sentem que existe um acordo de cavalheiros entre os partidos irlandeses até agora grandes para continuar se alternando no poder.

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O que é certo é que, após o anúncio dos resultados finais, começa agora um longo período de negociações que poderá cair na ausência de opções viáveis, o que forçaria uma nova eleição.

(Com EFE)

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