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Parceria explosiva com Irã dá aos hutis poderes para sacudir o Oriente Médio

Era o que faltava para colocar ainda mais fogo na região mais tensa do planeta

Por Caio Saad Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 20 set 2026, 08h00
Parceria explosiva com Irã dá aos hutis poderes para sacudir o Oriente Médio Priorize VEJA no Google

Na hierarquia de poder de fogo e influência do “eixo da resistência” montado pelo Irã, composto de grupos armados encastelados em pontos do Oriente Médio, os hutis, baseados no Iêmen, estavam lá embaixo — mal-ajambrados, de chinelo de dedo no pé, aboletados em caminhonetes brandindo fuzis no ar. O tempo passou, Hezbollah e Hamas — as cabeças do tal eixo — se desintegraram, os Estados Unidos entraram em guerra com o regime dos aiatolás e, de repente, o bando de renegados iemenita se apresenta como um exército ardiloso, bem treinado e equipado, capaz de se impor no tortuoso tabuleiro geopolítico da região. Dominando boa parte da fatia de seu país que margeia o Golfo de Aden, os hutis, em uma ofensiva-relâmpago, em poucos dias avançaram para a pontinha que ainda não controlavam, tomaram a cidade portuária de Mocha e chegaram a ilhas estratégicas no coração do Estreito de Bab el-­Mandeb — uma das duas apertadas saídas navegáveis da Península Arábica, sendo a outra o hoje notório (e semifechado) Estreito de Ormuz.

A posição é vital não só pelo estreito que conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Aden como, na outra ponta, por desembocar no Canal de Suez — uma das principais artérias comerciais entre a Ásia e a Europa. Ameaça que tira o sono de quem navega naquelas águas, a conquista dá aos hutis (e, por tabela, a seus patrocinadores iranianos) a chance de bloquear a via, tal qual os aiatolás fizeram no Golfo Pérsico com o Estreito de Ormuz. Além de ampliar seus domínios no Iêmen, o grupo voltou suas baterias para a vizinha Arábia Saudita, que apoia o fraco e desacreditado governo reconhecido do país e com quem vive às turras. Houve ataques a bases aéreas e cidades sauditas — um deles teria chegado perto da sagrada Meca, o que os hutis, muçulmanos xiitas, negam. Riad, por seu lado, afirma que promoveu 450 bombardeios desde o início do mês contra o território iemenita.

Infográfico com mapa-múndi e mapa detalhado do Estreito de Bab el-Mandeb. O mapa-múndi mostra a região do Oriente Médio destacada em vermelho. O mapa detalhado exibe o Iêmen, Arábia Saudita, Eritreia, Djibuti e Somália, com o Estreito de Bab el-Mandeb, Ilha de Perim, Ilha de Zuqar e Arquipélago de Hanish marcados como áreas tomadas pelos hutis. O título O CERCO SE FECHA e o texto Os hutis avançam sobre o Estreito de Bab el-Mandeb, rota vital para o petróleo explicam o contexto

Após tomarem o controle de Bab el-­Mandeb, os rebeldes afirmaram que a navegação da via, por onde passa 8% do petróleo do mundo, segue aberta e segura — menos para petroleiros sauditas. Essa medida corta exatamente a saída alternativa para o fechamento de Ormuz que vinha sendo usada por Riad, agravando seu inferno astral: drones disparados de aliados do Irã no Iraque atingiram o oleoduto que levava o petróleo até lá, forçando sua paralisação. O governante de fato da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, pediu a intervenção dos Estados Unidos no conflito, sem sucesso. “Os hutis nos ligaram e disseram que não querem briga”, disse um muito prático Donald Trump. Os dois lados acertaram uma trégua não oficial em maio e o presidente americano, assoberbado pela impopular guerra no Irã, não quer mais problemas. “Para Trump, é um dilema difícil: ele mantém uma relação próxima com Bin Salman, mas Washington tem muitos motivos, incluindo a eleição em novembro, para evitar um novo confronto militar custoso no Oriente Médio”, diz Farea Al-Muslimi, do think tank Chatham House.

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Os hutis tentam há décadas ocupar o poder no Iêmen, tendo atravessado uma sangrenta guerra civil em que tomaram a capital, Sanaa, e humilharam a Arábia Saudita, obtendo um cessar-­fogo. Em apoio ao Irã, já atacaram navios no Mar Vermelho, dificultando a navegação. Agora, mais organizados e sofisticados (segundo a Anthropic, usuários ligados ao grupo tentaram usar modelos de IA para desenvolver mísseis avançados), exigem dos sauditas a deposição do governo que restou e indenização pelos prejuízos do conflito. Era o que faltava para colocar ainda mais fogo na região mais explosiva do planeta.

Publicado em VEJA de 18 de setembro de 2026, edição nº 3013

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