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Para militares, game sobre a guerra foi longe demais

Nova versão de Medal of Honor, que permite ao jogador atuar como insurgente contra os soldados americanos, será banido das bases americanas

Medal of Honor foi produzido com a bênção e ajuda dos militares, o que permitiu o acesso da Electronic Arts a uma réplica de aldeia iraquiana usada para treinamento no Forte Irwin, na Califórnia

O sargento de primeira classe Brian Hampton sabe que isso é apenas um videogame. Mas os detalhes são irritantemente familiares: os uniformes, as armas, inclusive as bases militares e cidades do deserto onde a ação se desenrola. Cada vez que Hampton – um veterano da guerra do Afeganistão – joga seu coração dispara, sua respiração se acelera e seus músculos ficam tensos.

“Isso traz de volta uma lembrança real do que realmente se sente ao estar lá”, disse Hampton, 31 anos, na quinta-feira. Que videogames de guerra, com verossimilhança cada vez maior, provoquem esse tipo de reação física faz com que algumas pessoas se incomodem quando descobrem que podem jogar matando soldados americanos.

As simulações realistas de combate são em parte produto de uma estreita relação de trabalho entre os produtores de videogames e os militares. Os fabricantes usam o acesso a instalações militares e a veteranos para oferecer riqueza de detalhes. Os recrutadores, de seu lado, tratam de vender aos adolescentes que cresceram jogando videogames a ideia de que podem experimentar a coisa real. Os jogos podem ser comprados em lojas nas bases militares e são muito populares entre os membros do serviço.

Mas houve uma ruptura inesperada nessa relação quando as organizações que operam as lojas nas bases do Exército, Força Aérea e Marinha anunciaram que se negariam a vender um jogo de simulação de combate prestes a ser lançado, Medal of Honor, da Electronic Arts, um dos maiores fabricantes mundiais de videogames. (O órgão que opera as lojas, conhecido como PXs – dos fuzileiros navais, seguia avaliando se venderia o jogo.)

A questão é uma característica do jogo, situado no Afeganistão pós 11 de Setembro, que permite ao usuário converter-se em um combatente do talibã e atacar as tropas americanas.

“Por respeito aos que servimos, não vamos oferecer esse jogo”, disse o major-general Bruce Casella, comandante do Exchange Service do Exército e da Aeronáutica, que administra as vendas de varejo nas bases, em um comunicado na semana passada. “Lamentamos qualquer inconveniente que isso possa causar aos compradores autorizados, mas acreditamos que eles irão entender a sensibilidade aos cenários de vida e morte que esse produto apresenta como entretenimento.”

Na cidade onde está confinado o Forte Leavenworth, no Kansas, onde há filas de bandeiras americanas nas ruas e os negócios tem acentuados tons de terra das fardas de camuflagem, a decisão provocou uma reação mista entre os soldados. Alguns disseram que a apoiavam, definindo a ideia de americanos fingindo-se de insurgentes para se divertir como de mau gosto. Outros sugeriram que a decisão reflete uma incompreensão fundamental das ambiguidades morais que envolvem um videogame e acusaram os militares de censura.

O sargento William Schober, 28 anos, afirmou que era um grande fã das versões anteriores do jogo, mas que considerou a nova versão insensata. “Você sabe quantos dos meus amigos foram mortos pelo talibã?”, perguntou Schober. “Um de meus amigos recebeu um tiro na cabeça. Isso é algo que você procura para se divertir?”

Medal of Honor foi produzido com a bênção e ajuda dos militares, o que permitiu o acesso da Electronic Arts a uma réplica de aldeia iraquiana usada para treinamento no Forte Irwin, na Califórnia. Mas um porta-voz disse que o Exército não tinha conhecimento de que os usuários teriam a possibilidade de lutar contra tropas americanas e acrescentou que o processo de revisão será mais profundo no futuro.

Um porta-voz da Electronic Arts disse que a empresa respeitava a decisão, mas salientou que o jogo foi concebido para celebrar a ação dos soldados americanos. Ele disse que os videogames cada vez mais oferecem opções para quem quer o papel de inimigo durante confrontos multi-jogador (quando as pessoas jogam umas contra as outras on-line), observando que a última versão de Medal of Honor, ambientada na Segunda Guerra, permitia que os jogadores lutassem contra as forças aliadas.

“Basicamente é um polícia-e-ladrão dinâmico”, disse o porta-voz, Jeff Brown. “Alguém tem de ser o cara mau.” Mesmo entre os que apoiaram a decisão de não vender os jogos em lojas militares disseram que ainda planejavam comprar o jogo fora da base.