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Paquistão não atacará rede Haqqani, apesar dos apelos de Washington

O Exército paquistanês não está pronto para lançar um ataque à rede talibã Haqqani, afirmou nesta segunda-feira um dos líderes do país, apesar do apelo americano, que denuncia a falta de ação de Islamabad frente ao seu inimigo número um no Afeganistão.

Há anos Washington pede, sem sucesso, que seu aliado ataque a região tribal do Waziristão do Norte, que faz fronteira com o Afeganistão, reduto da rede Haqqani.

As críticas americanas se intensificaram em meados de setembro após uma série de atentados contra os ocidentais na capital afegã Cabul praticados pela rede, segundo os EUA.

Os ataques complicaram ainda mais as relações entre os dois países, aliados estratégicos há 10 anos, que se distanciaram depois da ação unilateral americana que matou Osaba Bin Laden no dia 2 de maio no norte do Paquistão.

Na última quinta-feira, o almirante americano Mike Kullen acusou Islamabad de exportar a violência para o Afeganistão ao apoiar a Haqqani por meio de seu serviço secreto (ISI).

Depois destas acusações, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas do Paquistão, o general Ashfaq Kayani, considerado por muitos observadores o homem-forte do país, convocou no domingo uma “reunião especial” com o alto comando das forças militares. Segundo uma fonte que acompanha as discussões, os líderes militares paquistaneses reafirmaram a vontade de permanecer, pelo menos por hora, em suas posições e resistir à pressão americana.

“Eu não acredito que os indicadores vão neste sentido” quanto a uma eventual ofensiva no Waziristão do Norte, declarou nesta segunda-feira à AFP.

O primeiro-ministro paquistanês Yusuf Raza Gilane acusou os americanos de fazerem do seu país o “bode expiatório” do fracasso no Afeganistão.

Segundo o gabinete de Gilani, a ministra paquistanesa das Relações Exteriores, Hina Rabbani Khar, é esperada na terça-feira diante da Assembleia Geral das Nações Unidas para explicar o ponto de vista de Islamabad.

Domingo, o chefe de Estado-Maior das Forças Armadas do Paquistão, Khalid Shameem Wyne, disse estar preocupado com as tensões dos dois países e ressaltou a necessidade de uma “confiança mútua”, depois de ter se reunido com o general James Mattis, chefe do comando central das Forças Armadas americanas.

O embaixador americano no Paquistão, Cameron Munter, esteve nesta segunda-feira com o ministro das Relações Exteriores paquistanês, Salman Bashir. Um porta-voz do ministério afirmou que os dois homens expressaram a vontade dos países de “dissipar os mal-entendidos por meio de contatos bilaterais”.

O Exército paquistanês, que possui 140.000 soldados no noroeste ao longo da fronteira afegã, acredita que já fez muito durante esses dez anos para reprimir os rebeldes islamitas em seu território a pedido dos americanos.

A instituição ressalta que mais de 3.000 soldados do país morreram desde o fim de 2001, enquanto 2.735 soldados ocidentais foram mortos no Afeganistão, e que suas tropas já lidaram duramente com os talibãs nesta região tribal, considerada por Washington o quartel general da Al-Qaeda.

“Existem problemas mais urgentes para resolvermos” do que o Waziristão do Norte, afirmou o chefe militar paquistanês.

Enquanto isso, os americanos bombardeiam regularmente a região e o governo Paquistanês pouco protesta.

Fundada nos anos de 1980 por um comandante da resistência anti-soviética, na época financiado pela CIA, a rede Haqqani é o braço dos talibãs afegãos, o grupo mais próximo da Al-Qaeda. Washington acusa o Paquistão de apoiar esse grupo para proteger seus interesses no Afeganistão e para lutar contra a influência de seu vizinho inimigo, a Índia, aliada dos EUA.

Os dois países nunca romperam sua aliança. Os observadores acreditam que Washington precisa muito de Islamabad para estabilizar a região na perspectiva da sua retirada do Afeganistão, e que o Paquistão não pode ficar sem os bilhões de dólares de ajuda americana.