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Papa teme conflito maior entre EUA e Irã

Ao corpo diplomático, Francisco se diz preocupado também com os conflitos na América Latina e os resultados da COP-25

Por Da Redação - Atualizado em 9 Jan 2020, 13h46 - Publicado em 9 Jan 2020, 13h26

O papa Francisco afirmou nesta quinta-feira, 9, que teme um conflito em maior escala entre o Irã e os Estados Unidos e pediu diálogo entre as duas partes e maior compromisso da comunidade internacional com a paz no Oriente Médio. A mensagem fez parte de seu tradicional discurso de início de ano para o corpo diplomático, no Vaticano.

“Os sinais que chegam de toda a região são preocupantes após o aumento da tensão entre o Irã e os Estados Unidos”, disse o papa em uma longa análise sobre o que chamou de as “feridas do mundo”. “Renovo o meu apelo a todas as partes interessadas para evitar o aumento do confronto e manter a chama do diálogo e do autocontrole, com pleno respeito ao direito internacional”, reiterou.

Diante dos mais de 100 embaixadores e representantes diplomáticos credenciados no Vaticano, entre os quais o do Brasil, o pontífice novamente pediu “um compromisso mais frequente e eficaz da comunidade internacional com a paz”.

“Agora é mais urgente do que nunca, também em outras partes da região do Mediterrâneo e do Oriente Médio”, afirmou. “Estou me referindo em primeiro lugar ao manto de silêncio que tenta cobrir a guerra que destruiu a Síria durante esta década.”

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Segundo Francisco, tornou-se particularmente “urgente” encontrar soluções adequadas e abrangentes para que os sírios, exaustos pela guerra, encontrem a paz e reconstruam seu país. O pontífice aproveitou para agradecer à Jordânia e ao Líbano por terem recebido milhares de refugiados sírios. Não mencionou a Turquia, o país que ainda hoje abriga o maior contingente de expatriados do país vizinho.

“Infelizmente, além do cansaço causado pela recepção, outros fatores de incerteza econômica e política, tanto no Líbano quanto em outros Estados, estão causando tensões entre a população, comprometendo ainda mais a frágil estabilidade do Oriente Médio”, lamentou, referindo-se à atual crise libanesa.

Referindo-se precisamente à situação de refugiados e emigrantes, o papa incentivou os países europeus a “não perder o senso de solidariedade que os caracteriza há séculos, mesmo em momentos mais difíceis da história”. “O incêndio da catedral de Notre-Dame em Paris mostrou que é frágil e fácil destruir o que parece mais sólido”, observou. “Os danos sofridos por um edifício, não apenas procurado pelos católicos, mas significativo para toda a França e toda a humanidade, despertaram a questão dos valores históricos e culturais da Europa e as raízes sobre as quais se baseia.”

América Latina

Francisco também comentou sobre sua preocupação com a multiplicação das crises políticas na América Latina e lamentou as desigualdades e a corrupção endêmica na região. Referiu-se especialmente às manifestações massivas no Chile, aos protestos que resultaram na renúncia de Evo Morales, na Bolívia, ao insurgimento da população equatoriana no final do ano passado. E também à Venezuela, cuja crise se arrasta há pelo menos sete anos.

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“Os conflitos da região latino-americana, mesmo quando têm raízes diferentes, são acompanhados por profundas desigualdades, injustiças e corrupção endêmica, bem como pelas várias formas de pobreza que ofendem a dignidade das pessoas”, disse ele aos embaixadores e representantes credenciados ante a Santa Sé.

Francisco lamentou as polarizações políticas, “cada vez mais fortes, que não ajudam a resolver os problemas autênticos e urgentes dos cidadãos, principalmente os mais pobres e vulneráveis”.

O líder da Igreja Católica também condenou qualquer tipo de violência, “que por nenhuma razão deve ser adotada como um instrumento para abordar questões políticas e sociais” – um recado endereçado principal ao Chile, onde as forças de segurança reagiram com brutalidade contra os manifestantes. “É necessário que os líderes políticos se esforcem para restaurar urgentemente uma cultura de diálogo para o bem comum e para fortalecer as instituições democráticas e promover o respeito pelo Estado de direito, afim de evitar desvios não democráticos, populistas e extremistas”, insistiu.

Francisco lembrou novamente a grave crise política, social e econômica da Venezuela e, mais uma vez, pediu que o compromisso de encontrar soluções para esse país não seja interrompido.

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O papa também se referiu ao Sínodo para a Amazônia, realizado em outubro passado no Vaticano, e à necessidade de proteger a região, que costuma ser chamada de “casa comum da humanidade”, e a busca por um desenvolvimento “sustentável e abrangente” que impeça a devastação do planeta.

“Infelizmente, a urgência dessa conversão ecológica parece não ser aceita pela política internacional, cuja resposta aos problemas colocados por questões globais, como as mudanças climáticas, ainda é muito fraca e fonte de grande preocupação”, lamentou, em uma clara referência ao fracasso da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática de Madri (COP-25), em dezembro.

Conhecido por suas posições ecológicas, o papa lançou duras críticas aos líderes mundiais pela resposta fraca aos problemas decorrentes do aquecimento global. O Brasil foi um dos países a apresentar posições desapontadoras no encontro de Madri e a manter postura pouco construtiva. “A proteção do lar que o Criador nos deu para viver não pode ser descuidada, nem reduzida a uma problemática elitista”, enfatizou.

(Com AFP)

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