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Países da UE rejeitam ultimato do Irã e pedem cumprimento de pacto nuclear

Chefe da diplomacia do bloco disse que a UE não tomará decisões com base em declarações iranianas, mas esperará relatórios da agência nuclear da ONU

França, Reino Unido e Alemanha pediram nesta segunda-feira, 17, que o governo do Irã cumpra os compromissos acertados no acordo nuclear internacional de 2015, depois de Teerã anunciar que vai ultrapassar em 10 dias os limites previamente estabelecidos para a estocagem de urânio enriquecido.

“Eu lamento os anúncios feitos pelo Irã hoje”, afirmou o presidente francês Emmanuel Macron. “Nós fortemente encorajamos o Irã a se comportar de uma maneira que seja paciente e responsável”, disse, durante coletiva de imprensa em Paris ao lado do líder ucraniano Volodymyr Zelensky.

Macron afirmou ainda que qualquer tipo de escalada no impasse nuclear não é do interesse de ninguém neste momento. “É prejudicial para os interesses dos próprios iranianos e também para a comunidade internacional”, disse. “Então, faremos tudo com nossos parceiros para dissuadir o Irã”.

O governo alemão também condenou a decisão iraniana de descumprir os termos do acordo. Segundo o ministro de Relações Exteriores, Heiko Maas, Berlim não aceitará uma redução unilateral de obrigações.

“Já dissemos no passado que não vamos aceitar menos por menos. Cabe ao Irã manter suas obrigações”, disse Maas, após um encontro de chanceleres da União Europeia (UE) em Luxemburgo. “Certamente não aceitaremos uma redução unilateral de obrigações”.

Um porta-voz do governo britânico fez eco às declarações da Alemanha e da França, dizendo que os signatários europeus do pacto já “deixaram claro que não pode haver redução no cumprimento”.

“Por enquanto, o Irã permanece dentro de seus compromissos nucleares. Estamos coordenando com os parceiros da E3 os próximos passos”, acrescentou o porta-voz, se referindo aos três países da UE que assinaram o acordo.

O governo iraniano anunciou nesta segunda que ultrapassará até 27 de junho o limite de 300 quilos de urânio enriquecido estocado no país estabelecido pelo pacto. Teerã afirmou que não interromperá a produção, a menos que a UE retome o comércio com o país, reduzindo o impacto de sanções impostas pelos Estados Unidos.

O Irã havia dado à UE prazo até 7 de julho para mostrar que poderia ajudar a economia iraniana a reduzir os efeitos das sanções americanas, aplicadas após a retirada de Washington do pacto.

A chefe da diplomacia do bloco, Federica Mogherini, disse que a UE não tomará decisões com base em declarações iranianas, mas esperará pelos relatórios da agência nuclear da ONU, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

“Nossa avaliação sobre a implementação do acordo nuclear nunca foi, não é e nunca será baseada em declarações, mas na avaliação que a AIEA faz e nos relatórios que a AIEA produz e que podem ser feitos a qualquer momento”, disse Mogherini, após reunião com os chanceleres da União Europeia.

Há uma semana, a AIEA afirmou estar “preocupada com a tensão crescente” envolvendo o programa nuclear iraniano. “Espero que maneiras possam ser encontradas para reduzir a tensão atual por meio do diálogo”, afirmou em um discurso Yukiya Amano, o diretor do organismo das Nações Unidas.

O acordo

Após a saída de Washington, Teerã ameaçou deixar de cumprir progressivamente o acordo, a não ser que os demais sócios, em particular os europeus, ajudem o país a evitar as novas sanções econômicas.

Sob o acordo, Teerã está autorizado a estocar até 300 quilos de urânio enriquecido e água pesada produzida nesse processo, exportando qualquer excedente. O governo iraniano afirmou, entretanto, que o teto não se aplica mais, já que as exportações foram muito prejudicadas pelas sanções americanas.

O pacto também estabelece que o país está autorizado a enriquecer urânio em até 3,67% – uma taxa suficiente para a geração de energia nuclear para uso civil, mas bem abaixo dos 90% usado para a fabricação de armas. Antes do acordo, o Irã enriquecia urânio a 20%.

Tensão crescente

O anúncio do governo iraniano vem dias depois de dois navios petroleiros sofrerem ataques no Golfo de Omã, na última quinta-feira 13. Estados Unidos e Arábia Saudita acusam o Irã de estar por trás dos ataques, alegação que foi refutada por Teerã.

Nesta segunda, após a reunião dos ministros de Relações Exteriores, os membros da UE pediram cautela no momento de atribuir a responsabilidade pelo ataque ao regime iraniano.

“Uma tal decisão deve ser tomada com grande atenção. Conhecemos a avaliação do serviço de Inteligência dos Estados Unidos e Reino Unido. Estamos comparando com nossas informações. Acredito que temos que proceder com muito, muito cuidado”, disse Heiko Maas.

“É essencial ter todas as provas” antes de tirar conclusões, declarou por sua vez o ministro finlandês Pekka Haavisto.

Vários ministros apoiaram a posição do secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, que pediu uma investigação independente.

“O principal papel dos ministros das Relações Exteriores é evitar a guerra”, ressaltou o chefe da diplomacia de Luxemburgo Jean Asselborn, que alertou para a repetição de erros diplomáticos que levaram à invasão do Iraque em 2003.

(Com AFP)